Maria Helena Kühner

O filme começa de forma estranha e inusitada: closes de um rosto feminino, takes longos e cenas em câmara lenta parecem sugerir ao espectador que atente aos detalhes, pois este filme diz mais do que parece dizer à primeira vista.

Abre-se a primeira parte: cenas de um casamento, com todos os seus rituais em relação aos noivos e convidados, uma visível preocupação em ostentar luxo e riqueza, e em atender aos  melhores padrões de consumo estabelecidos para o evento. Apenas a figura um tanto fora de contexto de uma mãe da noiva mal humorada e crítica, e um pai, dela separado, para quem todas as mulheres são Betty, dão um toque um tanto dissonante. Mas a noiva repete seguidamente: “Estou feliz, estou feliz, estou feliz”, com um sorriso permanente sublinhando a frase. Frase que a ambientação e ação parecem fundamentar, pois exibem todos os fatores de sucesso da sociedade atual: ela é bonita, rica, tem uma carreira bem sucedida no aplaudido mercado da publicidade, acaba de ser promovida ao cargo de diretora da arte por um chefe que a elogia e prestigia (mesmo dela exija decisões como a de promover ou destruir um jovem e ansioso novo funcionário contratado), e está se casando com jovem igualmente bonito, promissor e que a ama. Os breves momentos em que ela se afasta e detém um olhar perdido em planeta distante ou nos milhões de galáxias do universo, ou em que se afasta de todos e se fecha em um quarto para descansar, ou em que se deixa levar por súbito impulso de fazer sexo com o jovem funcionário cujo destino está em suas mãos, parecem apenas isso: detalhes ou momentos, mesmo, frutos talvez do cansaço e do rebuliço em torno. Embora já soe estranho ouvi-la dizer, em uma dessas pausas, que “um fio de linha cinzenta sobre sua perna pode paralisar seu andar”.

A estranheza vira surpresa quando, embora ainda e sempre repetindo “Eu sorrio, eu sorrio, eu sorrio”, ela se volta para o noivo e diz que “não vai conseguir” – encerrando assim o casamento apenas iniciado. E a seguir anuncia a seu poderoso chefe – ícone típico da sociedade ali exibida com todos os seus “valores”: “Sabe o que você significa para mim? Nada. Apenas isso: nada”.

 

Na segunda parte a ação se centra na ameaça próxima, de o planeta visto no céu, e que tem o significativo nome de Melancolia, colidir com a Terra e acabar com toda a vida nela existente – que, se começou com um Big Bang, ora pode acabar do mesmo modo.

Diante dessa ameaça de Morte – presença inescapável em toda vida humana – que fazer? Tentar fugir, em escapismo inútil? Deixar-se arrasar pela “melancolia” e sua depressão suicida? Ou, com elementos buscados na natureza, construir a frágil “caverna mágica” dos afetos e emoções, e nela, unindo as mãos em solidário gesto, buscar o frágil abrigo possível?

Meio ambiente e solidariedade – é o que ainda nos resta?

Num mundo em que a aceleração de um tempo cada mais veloz e voraz deixa pouco espaço à reflexão, à parada e pouso sempre necessários, o cineasta nos coloca diante da necessidade de rever os valores que nos são oferecidos e confrontá-los com uma pergunta fundamental,  e que, em momentos e tons diversos, tem sido recorrente na trajetória da humanidade no planeta Terra: no breve espaço de nossa vida humana,  o que dá sentido à vida? O que nela é realmente importante, não para o impossível sonho humano de eternidade, de escapar da morte, mas para dar sentido e significado a esse breve tempo que chamamos Vida?

Pergunta que ainda e sempre merecem nossa atenção e reflexão.

 

             

                                                                                 Maria Helena Kühner

Em Encruzilhadas: encontros e oposições nos cordéis de Manoel Pereira Sobrinho, a autora Fabiana Coelho demonstra reais qualidades de ensaísta, ou seja, de alguém que sabe apresentar um tema com um ponto de vista próprio e bem fundamentado.

Ao falar dos folhetos de cordel desse autor ela não se limita a dar a conhecer (o que já seria válido) esse cordelista que se mostra capaz não só de criar novas histórias com temas recorrentes na oralidade nordestina, como de recriar outras, de consagrados poetas mais antigos, com nova e rica fabulação. A leitura que Fabiana faz de sua obra abrange todos os sentidos da palavra ler: ela não só recolhe ou reúne folhetos, inclusive inéditos, pertencentes ao acervo da antiga editora Luzeiro do Norte, como escolhe ou elege os 38 que serão objeto de citação, outros 26 que serão analisados, e ainda 24 mais que serão consultados, para, com esse rico material, percorrer mitos, lendas e histórias que desde os tempos mitológicos compõem o imaginário, o simbólico e o real neles expresso, e neles assinalar o que há de vivido e estruturador de todo um caminhar humano. Um caminhar visto como um espaço em movimento, sempre in-produção e in-conclusão, encruzilhadas de caminhos incertos, provisórios, levando a separações e perdas, mas também abrindo a novos caminhos.

Quatro “encruzilhadas” marcam o trabalho, os encontros e separações que desenham identidades e diferenças: de gênero (homem/mulher), de classes sociais (rico/pobre), de nações (nativo/estrangeiro), de tempos (do passado ao futuro, e entre eles, os espaços ocultos da magia e do mistério).

Na primeira, as relações as relações entre o masculino e o feminino falam de presença ( o falo que aponta, a espada que corta) e ausência ( o útero que recebe, a caverna que abriga), de sua busca de encontro e união, de superar a falta e atingir a completude, do dinamismo e instabilidade das trocas gerando paixão, casamento, união, separação, luta e/ou necessidade de véus, de máscaras, de disfarces ( guerreiras que se disfarçam em soldados, jardineiros que se travestem de mulheres), de adotar outro sexo, outro nome, outro lugar, vigiados ou pressionados pela figura onipresente do Pai – instaurador do nome, do limite, da lei, definindo espaços e papéis, e, com eles, identidades que, para superar ou modificar, obrigam os transgressores a passar por lutas, a enfrentar desafios, ou até a entrar em mundos encantados em cujas sombras e abismos feiticeiras e magos manipulam o tempo e  a linguagem. Mas Pai, rei ou senhor que tem também contra ele o tempo, o destino e…  o poeta, que subverte as possibilidades dando vida ao sonho, ao desejo e à emoção do encontro e união buscados.

Na segunda encruzilhada constrói-se um espaço cujos cortes e interdições separam a camponesa e o príncipe, o mendigo e a filha do rei. Espaço que, ao ser mostrado por alguém que está fora de seu lugar (o mendigo, o viajante disfarçado, um anti-herói) mais que personificar o Outro, desloca os limites e fronteiras entre o centro hegemônico e a margem que o isola, rompe a estrutura de classes e instaura um espaço de contradições provocando o deslocamento dos centros de poder e hegemonia, criando um ponto heterotópico e múltiplo de resistência. Resistência com armas próprias, que incorporam a malícia, a astúcia, as artimanhas, o arrancar de máscaras e o desvelamento dos discursos, com uma visão crítico-cômica que exibe o grotesco e ridículo dos que se arvoram em donos absolutos do poder e da verdade.  E abre, assim, um espaço de construção simbólica de novos significados, que, mais que falar em tensões ou das relações de classes como espaço de luta e oposição, exibe as falhas do sistema em que se alicerça a realidade e tem como armas a repressão, a coerção e o interdito de suas leis, expondo necessidades e desejos sempre negados pelo real construído e só possíveis (ainda) no espaço indefinido e contraditório dos sonhos e da poesia – nem por isso menos catártico e inspirador.

Na terceira encruzilhada, o estrangeiro imigrante, o eterno viajante, o personagem que muda de tempo e lugar criando ou revelando novos caminhos, falando de identidades nacionais ou de desterritorialização lembra que o isolamento (ilha ou subterrâneo) é prisão. Que o contato com o Outro, a abertura ao estranho e diferente, é requisito primeiro para o encontro e união, para o final feliz sempre sonhado e buscado. Que em cada fronteira há uma ponte ou passagem. Para cada prisão uma possível libertação. Que toda lei pode encontrar um possível transgressor. Que para cada estrangeiro há uma terra à espera. Que toda viagem pode ser busca/encontro de uma terra prometida. Pois os espaços transpostos ou cruzados no encontro e na diferenciação podem também gerar novas identidades ou novas comunidades.  

Na quarta encruzilhada, o cruzar dos tempos, que ora desenha o tempo linear de uma reta ou destino pré-traçados que tem um ponto ou meta final, ora a roda da fortuna em seu eterno girar trazendo em seu movimento a mudança e o imprevisível, a permanente relação de vida e morte. E, entre eles, mundos ocultos em que habitam feiticeiras, adivinhos e magos. Fazendo ver que incertezas e contradições são presença inescapável a cada novo passo. E que o tempo é paradoxal: vida e morte, movimento e repouso, eternidade e porvir.

O exame minucioso, atento e sensível dos folhetos, as citações pontuando cada aspecto mostrado não cabem em uma breve resenha que pode apenas apontar a validade da obra e fazer entender por que ganhou o Prêmio Jordão Emerenciano de Ensaio do Conselho Municipal de Cultura de Recife. Os que se interessarem por sua enriquecedora leitura podem buscá-la na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) ou em contato com a autora (bianasl@bol.com.br )– por ela autorizado.

                                         NOSSOS DESAFIOS,  HOJE ( II )

                                                                     Maria Helena Kühner

 

Ao atingimos após-modernidade (ou modernidade baixa ou tardia), o quadro já se mostra bem diferente.

 

Na expansão do espaço a ruptura de fronteiras ampliou o espaço humano aos limites do planeta e projetou sua inserção em um espaço sideral, um cosmos de proporções infinitas. A globalização, de eixo econômico e concentrador, se ampliou o potencial de ação, também provocou desequilíbrios e crises, expôs desigualdades, exibiu a não-inclusão e a exclusão de que se fez, provocou a visibilidade e a expressão dos antes marginalizados – que, com a ampliação dos meios, da informática e da comunicação, por obra da ciência e da tecnologia, ora se fazem ouvir em todos os pontos do planeta.

 

A pluralidade e diversidade de vozes que daí decorre não só acentuam a crescente complexidade das relações, como a de pontos de vista, e apontam para um interdependência que interliga povos e nações. O que leva a uma multiculturalidade ou hibridização de culturas – que também atiça fundamentalismos e dogmatismos de várias ordens.

 

Se a busca de racionalidade do conhecimento (na ciência) e de eficiência (na produção) persiste como meios de organização e controle desse mundo acrescido em suas dimensões e complexidade, surgem também questionamentos vários. O TEMPO, antes encarnado no Cronos devorador dos próprios filhos ou a seguir apresentado como linearidade e sucessão, muda de sentido, pois lógicas que excedem a razão dão origem a rupturas e fragmentação, e, com elas, à busca de uma racionalidade alternativa, mais aberta ou mesmo contraditorial. A História deixa de ser vista como sucessão de eventos ou acontecimentos, disputas entre vencidos e vencedores por estes registrada, e voltada para o futuro e o progresso (palavras-chave da modernidade). O que induz a uma leitura outra do passado, em termos de memória, nele buscando as sendas transversas que conduziram a descaminhos e perdas, ou as clareiras inesperadas que iluminaram novos percursos.

E se Mnemósine, como lembram os gregos, é a rainha das Musas, nessa leitura  buscando bússolas para a invenção e a criação que se mostram cada vez mais urgentes e necessárias. Pois em uma ordem em que economia e seus interesses de mercado, lucro e consumo, a preocupação de ter e manter, se tornam as finalidades mesmas da ação e determinantes até das próprias relações sociais e culturais, esses mesmos interesses alicerçam apenas a repetição, a reiteração, a renovação, instrumentalizadas na mídia, no virtual, nas clonagens, nas “modas’, no reprocessamento de tudo e de todos, em suma, em um mundo em tudo é “produzido” (no sentido original do termo, de producere= fazer aparecer, tornar visível) pelos discursos, “modelando” assim até mesmo identidades e valores, padronizando e massificando.

 

Mas, se mantido apenas como um repetidor passivo, o ser humano não será capaz de enfrentar os desafios trazidos por transformações que exigem a criação, a invenão, a inovação. As grandes narrativas totalizadoras e universalizantes (que desembocaram na ilusão de um “pensamento único” e dominante) não se mostram capazes de descrever este mundo em acelerada mudança, diversificado e plural, que em tudo se mostra volátil e veloz.

O que faz surgir a exigência de uma mudança de atitude, resgatando dimensões esquecidas: a experiência ( ex-per-ire, o que se extraí do caminho por onde se vai) que faz, do passado, passos de um corpo que se move, com tudo que o com-move, registra  o ponto de vista de quem vive a situação, ou seja dela dá conta tal como foi vivida.  Ou a percepção sensível: diante de uma flor ou de uma paisagem posso apenas acolhê-las em sua realidade e beleza sem me perguntar se vão me ser “úteis” ou o que posso “fazer com” elas. Ou pela intuição apenas receber, ver, ouvir, sentir, conhecer o real em sua realidade mesma, percebê-lo como que “de dentro”, mergulhando em seu movimento, sem participação direta dos sentidos ou da razão. Ou, enfim, desligando da idéia de que “conhecer é poder”, e da cumplicidade com uma “modernização” associada ao saber tecnológico e agenciador da globalização, retornar ao sentido original do termo, fazer do conhecer um cognoscere =nascer com libertador do pensamento e visão.

 

Reinserido no mundo que cresceu em seu redor e o envolve, o ser humano sente esse entorno como seu meio ambiente, mundo-Natureza, de novo um espaço vital que seu des-envolvimento não pode destruir sob pena de destruir a si mesmo – como demonstraram os aspectos predatórios de suas ações de exploração, conquista e dominação que hoje vê como des-naturados.

 

A busca de uma religação com a Natureza é também uma religação com a sua natureza, com o que nele existe de natural, inato, espontâneo, com o corpo, com seus instintos, impulsos, sensações, com um “inconsciente” que sua ciência mesma (psicanálise) pôs em foco. Religação que resgata igualmente a necessidade dos afetos (sentimentos, emoções, estados de alma, laços que unem), e o leva a redescobrir que o humano não é apenas um ser de contatos, mas um ser de re-laç-ões, com poder de afetar e ser afetado pelo Outro. Por esse Outro acrescido em valor e importância em um mundo em que a socialização é imperativa até mesmo para a realização de tarefas que ultrapassam as possibilidades individuais; em que a pluralidade aponta para o reconhecimento e aceitação das diferenças – não mais como tentativa de legitimar pretensas “superioridades” geradoras de hierarquias e autoritarismos (patrão/empregado, homem/mulher etc.), mas como potencial de troca e crescimento; em que a ânsia de posse, domínio e controle que a tudo atropelaram ora se vê confrontada com a exigência de uma ética - que é, sobretudo, atenção ao ponto de vista do Outro e à possibilidade de conciliar organização, direitos e liberdade.

 

Religação que desloca o foco unilateral nos meios e métodos para dar atenção aos mediadores, recolocando o ser humano no centro e na cena do mundo.

Na indústria cultural, o mercado como mediador perverteu as demandas e se mostrou incapaz de criar vínculos societários geradores da necessária inovação social.  

Para os gregos a palavra scholé, de que se originou a palavra escola em todas as línguas ( al.schule, ing.school, fr.école ,etc.) não designava o lugar de aprendizagem, estudo e pesquisa que lhe deu o sentido moderno. A palavra scholé significava… ócio. Que experiência ela oferecia para dar ao ócio esse sentido e profundidade – que se mantêm na expressão ócio criador que conota o trabalho dos artistas? Por que o negócio, sua negação (nec-otium=o não-ócio) se tornou a raiz mesma de um tempo em que tudo é, e visa, apenas a produção? Será que este nosso tempo veloz e voraz não estaria novamente exigindo esse ócio, parada, vagar, re-pouso? Será que, para não sermos engolidos por esse “negócio” consumidor, não precisamos afastar-nos dos desvarios do “progresso”, do desempenho, da velocidade, das idéias fixas de dinheiro e posição social, para buscarmos uma nova Paidéia, que reúna conhecimentos, artes e formação do caráter? Pois a que esse ócio pode conduzir fala a expressão grega que define o teatro como “a escola de todos os cidadãos”, por induzir à re-flexão, a um voltar sobre si mesmo para se re-conhecer e re-ver, cidadão, seu lugar na cena do mundo.

Para um retorno à liberdade de criação humana do ser humano, que faz do próprio ser humano um projeto, não determinado, mas capaz de criar a si mesmo e definir seus caminhos. Recuperando, nesse retorno, essa força, essa energia maravilhosa que tudo movimenta e a que chamamos simplesmente de Vida.

 

 

 

   Escritos para o site do CEPETIN e distribuição na rede escolar.                             

 

                   Nossos desafios, hoje (I)

 

                                                                           Maria Helena Kühner

 

“A era do caos”, “a era da incerteza” ou do “vazio”, são algumas das denominações do tempo de transição em que vivemos. Denominações que só podemos entender melhor se atentarmos para as profundas transformações, geográficas, econômicas, políticas, sociais, culturais, ocorridas nas coordenadas do espaço e tempo que balizam nossa ação no mundo.

Há cerca de 500 anos, com as grandes descobertas e grandes navegações dos séculos XV em diante, o ESPAÇO humano começa a expandir-se progressivamente. Para dominar a Natureza, a que antes se submetera, esta deixa de ser vista como plenitude de vida ou espaço vital (como no animismo ou no antropomorfismo anteriores), e passa a ser espaço de dominação e conquista, a ser descoberto, explorado, ordenado: “O mundo está fora dos (antigos) eixos. Por que nasci para ter que pô-lo em ordem?”, lamenta Hamlet. A organização e controle do espaço político, com o estabelecimento de limites ou fronteiras entre nações, línguas e instituições, alia-se à a normatização das relações, em que o peso maior será dado aos produtos, tornados mercadorias e, como tal, definidores da própria noção de valor ( com desqualificação dos próprios produtores/ criadores, cujo trabalho se torna também mercadoria).

 

Que atitude intelectual a isso corresponde?

A de uma idêntica delimitação de um espaço mental, abstrato (abstrair=tirar de) , de um pensamento que se vê como sujeito contemplando à distância um mundo tornado objeto(ob-jeto=algo posto diante de) a ser decifrado, de uma racionalidade responsável pela ordenação da multiplicidade de fenômenos e valores, pelo estabelecimento de normas de conhecimento, pela verificação de dados obtidos com a pesquisa, a observação, aexperimentação. Rompendo com hábitos mentais anteriores, surge a noção de sistema, e uma nova visão do uni-verso como versão única, conjunto constituído pelos mesmos elementos e obedecendo às mesmas leis, e como tal, campo de aplicação de ciências ditas “exatas”. Processa-se, assim, a uma geometrização do espaço, com o real recortado em espaços ou campos de conhecimento a que se aplicam as noções rígidas, exatas, precisas, das matemáticas e da geometria, visando “de-mitizar” esse mundo tornado objeto de intelecção através do método, da ordem, do cálculo, da medida. 

 

Que modelo de relação homem-mundo assim se estabelece?

A esse homem que faz, da lógica, a própria medida do ser e do discurso racional sua expressão, só pode caber um modelo mecanicista de relação com o mundo: a busca da verdade adquire caráter operacional e técnico, visa conhecer e organizar para melhor dominar e controlar. O próprio cosmos é visto como uma imensa máquina – palavra  que define essa nova visão das coisas, do mundo e até de si mesmo.

 

A que método corresponde tal relação?

Se os “objetos”, neles incluído o próprio ser humano, são “máquinas”, sua investigação se articula necessariamente como a de um sistema de engrenagens: desmontar (pela análise), remontar (pela síntese) cada espaço ou campo de conhecimento, definir suas partes constitutivas, captar a ação recíproca entre as partes – tudo por obra de um “espírito” horizontal interessado basicamente na definição de meios e métodos. O método é a própria lógica desses tempos: a metodologia, essa lógica aplicada ao saber. A educação do “espírito” pela ciência, tentando conquistar, dominar e controlar o mundo pelo pensamento (razão) é a marca fundamental da chamada modernidade.

 

E as conseqüências essa visão?

À medida que as transformações se sucederam, suas consequências foram se fazendo sentir, mostrando que, se essa forma de conhecimento/ visão/ relação foi bem sucedida na ordem das coisas, decididamente não foi um progresso para o ser humano. Em termos de visão do humano, não apenas pela anulação do animismo que caracterizava a sensibilidade metafísica anterior, mas do que isso significa: um mecanismo simula a vida, mas não é vivo; o homem, dominador da natureza pela razão, é, em si mesmo, um ser dividido: corpo e espírito, teoria e prática, contemplação e ação, etc. O centro de referência, deslocando-se do concreto para o abstrato, das intenções (e in-tensões) vividas para as “normas” recebidas, “fechando os olhos do corpo para ver com o olho do espírito, que é a demonstração”, substituiu a realidade do mundo vivido, real, dado à percepção, experimentado e experimentável de fato – que é o mundo de nossa vida cotidiana – por um mundo “inteligível”, de relações “objetivas” e “científicas”, dotado de unidade, continuidade e homogeneidade tão artificiais e “ilusórias” quanto o mundo do imaginário, da fantasia, da afetividade, do lirismo, que foram, sob tal acusação, desqualificados. E a operação por redução, que estava à base dessa abstração, mais que a suposta “demitização” foi também uma desumanização.

                                                                                                  (continua)

                     

 

  Este artigo foi escrito para o CBTIJ – Centro Brasileiro De Teatro para a Infância e Juventude, por ocasião do seminário por ele promovido, em parceria com a ASSITEJ internacional, em dezembro p.p.

 

TEMAS-TABUS NO TEATRO PARA A INFÂNCIA E A JUVENTUDE

 

                                                                           Maria Helena Kühner

Quando a ASSITEJ – Associação Internacional de Teatro para a Infância e a Juventude propôs a realização, em vários dos 75 países a ela associados, de Seminários sobre “Temas-tabus no Teatro para Crianças e Jovens”, a primeira reação de alguns foi de surpresa ou curiosidade: por que esse tema? Reação expressa também por outros ao verem o CBTIJ não só realizar no Brasil o Seminário como adotar o mesmo tema-base para seu Concurso de Dramaturgia de 2010.

 

Por que “temas-tabu”?

Se nos detivermos para pensar um instante veremos que o tema é da maior pertinência atualmente, e de interesse não só de todos os que fazem teatro, como de todos os que, por qualquer razão, tem ligação com essa importante faixa etária. Por que? Vejamos.

Nossa História mostra, em saltos e rupturas, em transgressões, em permanente troca, uma contínua tentativa de preservar o livre fluxo do humano e impedir a rigidez opressora e repressora que paralisa o conhecer e o agir.

No início da Idade Moderna, com as grandes navegações, descobertas e invenções ampliando cada vez mais o espaço, necessário se tornava “organizá-lo”. Hamlet, figura emblemática desse tempo, diz textualmente que “o mundo está fora dos eixos” e que sua “maldita sorte” é “ter que pô-lo em ordem”. Para superar sua dúvida, situar-se, Hamlet chama os atores e os faz representar, para, cenarizando-a, vendo-a à distância, poder analisar seus dados, e, a partir daí, poder agir, “saber que rumo tomar”. Razão desligada de afeto e emoção (Ofélia), contemplação que substitui a ação prática por sua representação, que busca dissipar as “ilusões” ou aplacar os fantasmas apelando a leis ou princípios gerais.

Nada escapa a essa regulamentação: do espaço político, pelo estabelecimento de limites ou fronteiras – das nações, das línguas, das instituições; do espaço econômico pelo estabelecimento de normas e regulação das relações, dando peso maior aos produtos, tomados mercadorias, e, enquanto tais, definidoras da própria noção de valor; do espaço social pela delimitação das classes sociais, hierarquizadas, e pelo estabelecimento de modelos, papéis, normas, comportamentos e valores. Surge a noção de sistema e de uni-verso como “versão única”. Ordem, método, medida – em tudo e por tudo a busca de conhecer e organizar para melhor dominar e controlar. Mas, para assim ultrapassar fronteiras e dilatar o próprio espaço, era necessário dominar a Natureza, a que estavam submetidos: amplia-se o “movimento anti-Natureza” (Sartre), em que ela deixa de ser vista como plenitude ou como espaço vital a que os mitos emprestavam vida e alma (deuses e deusas feitos à imagem e semelhança do homem e portadores até de suas fraquezas e vícios: um Zeus conquistador, uma Hera ciumenta…) e passa a ser conhecido como espaço de dominação e conquista, paisagem representada no espírito por meio da linguagem. Na relação homem-mundo assim estabelecida a lógica se torna a medida do ser e o discurso racional sua expressão.

Racionalidade que não só visa ordenar fenômenos e valores, estabelecer normas de conhecimento, verificar dados por meio da pesquisa, da observação, da experimentação, como geometriza o espaço para apreender e controlar o real através de normas precisas, exatas, rígidas – em um modelo que ainda hoje domina a lógica, a matemática, a ciência e a programação dos computadores. O problema da lógica não está na articulação de seu discurso, está em sua atitude: a finalidade de toda Iógica, por mais escamoteada que seja, é o controle: na retórica é a persuasão (controle das vontades), na ciência, o progresso (controle da produção e da sociedade). Ciência, linguística ou psicanálise falam de uma mesma atitude: o controle da produção, da sociedade, da linguagem, da imaginação, do mistério.

A própria sociedade se organiza como imensa represa. Represa: construção de homens (alguns) para homens (muitos), junção de águas buscando, a qualquer preço, fazer de cada homem um socius ou aliado. Captação, controle, direção: a força das águas represada para delas extrair nova força e energia. Represa: o duro aprendizado dos limites. Não apenas saber a morte, finitude humana, mas sentir-se confinado pela Lei, signo da transcendência e, ao mesmo tempo, interdito imposto a um Édipo que, “de pés atados” (é o que diz seu nome) insiste em caminhar e ir além. As barragens e diques da Lei e do Direito estabelecendo limites à livre circulação das águas; comportas ou sangradouros de tabus e preconceitos permitindo regular e escoar “naturalmente” a água das tensões e impedir que sua elevação, nas cheias, possa invadir as margens e causar indesejáveis danos. Represa: a energia aprisionada do trabalho e pelo trabalho humano colocada sob o controle de mãos que se apresentam como expressão de uma Razão em ato; a energia vital da sexualidade, pela organização repressiva da libido, canalizada apenas a serviço da genitalidade e da procriação, por serem também necessários grandes contingentes humanos para operar o aparelho produtivo e para o consumo dos bens.  

Nessa sociedade hierarquizada, vertical, autoritária, trabalho e sexo, pontes de ligação do seres humanos entre si e com seu mundo ficam, assim, sob controle. Poder e controle permeiam subterraneamente toda uma ideologia proibitiva e repressora. Ou seja, a sociedade moderna, imensa represa, organiza-se repressoramente.

Mesmo que Poder e Desejo, com sinais contrários sejam geradores de angustia. E que a transcendência da Lei gere estranheza e angústia no protagonista dessa história,  que se sente avaliado, julgado e com seu destino determinado “de fora” pelo invisível e inatingível proprietário de um “Castelo” ( Kafka ) em que se vê “aprisionado”.

 

                        A  que(m) serve(m)  os tabus?

 

O caráter de renúncia e sacrifício exigidos pelas leis e normas assim impostas se beneficia com sua sacralização em tabus: sacri-ficar, a palavra o diz, é tornar sagrado e, como tal, interdito inquestionável: se tabu é, por definição, a proibição de uma ação ou objeto dado como intocável por ser sagrado ou perigoso, entende-se por que tão temível se torna a infração e possível a aplicação de terríveis castigos ao infrator.

O que tanto pode abranger normas e regras que se quer legitimar e aplicar com maior rigor, como, por exemplo, a proibição de pescar ou caçar em determinado lugar ou época do ano, quanto pode visar a uma rigorosa distribuição de papéis, como, entre os índios tupis, a proibição às mulheres de assistir a cerimônias comandadas pelo pajé ou feiticeiro. Ou derivar de medo do tema ( ex: a morte)  ou de superstições, usos e costumes populares, como a idéia de que falar o nome do diabo é um chamado a sua presença. Mas, sobretudo, servir à manutenção de determinada ordem social e política: a pretensa “superioridade / inferioridade” entre gêneros, raças, classes sociais, etnias ou grupos, geradora do machismo, racismo, torturas etc. e estabelecida sob forma de “pré-conceitos” indiscutidos e, como tal, impostos.

                   Freud apontou a natureza irracional do fenômeno, que favorece sua implantação e manutenção e tem origem em atitudes sociais ambivalentes. E assinalou que os tabus vigentes em qualquer sociedade em geral se relacionam a objetos e ações de importância para a ordem social que os impõe e pertencem ao sistema geral de controle da sociedade que assinalamos. Ou seja, servem ao sonho dos poderosos de plantão de eternizar-se no poder.  

                 

                   As trocas do sistema – A nova moral do mundo contemporâneo

 

                   Paralelamente aos movimentos de libertação da segunda metade do século passado ( movimentos de mulheres, de negros, de gays, de comunidades ) surge também sua cooptação, ou apropriação, pela “sociedade de consumo”, gerando o que Baudrillard situa “entre os fenômenos mais característicos das sociedades desenvolvidas da segunda metade do século XX”,  transformando-se “na própria moral do mundo contemporâneo”. 

As trocas do sistema se tornam particularmente ameaçantes. O “É proibido proibir”, grafitado pelos estudantes nos muros das cidades em Maio de 68, na França, era não só uma nova forma de expressão e denúncia como revelava algo que o sistema já começava a absorver e reverter a seu favor, reforçando e/ou substituindo, a concepção negativa, reacional, transcendente do Poder, fundada na proibição e na lei, e exigindo sacrifício e renúncia, por uma concepção positiva, ativa, imanente, que faz, da manipulação do Desejo, uma estratégia de dominação social. Com suas possibilidades ampliadas pelas novas tecnologias, as grandes corporações tecnocráticas passam a elaborar e aprofundar formas não só de seduzir “consumidores”, como de provocar comportamentos, instigar necessidades, suscitar desejos de todo tipo (emocionais, sensoriais, relacionais, sexuais, estéticos etc), criando novas hierarquias sociais. Pela manipulação ou produção de necessidades, o pathos da alienação desaparece: o homem “se re-conhece” em sua TV, em seu carro, em suas propriedades, nos produtos que consome, pois o tênis de marca, a roupa de grife etc. se tornam fétiches de uma nova identidade e suposto meio de ascensão/ promoção social. As pessoas, coisas, relações não surgem mais como entidades impessoais e estranhas, a própria “coisificação” não é percebida e o homem não sente mais como angustiante, ou sequer in-cômodo, o “admirável mundo novo” (A.Huxley) e domesticado em que se instala. Parecer e aparecer substituem a necessidade de ser, estabelecem a nova norma a ser adotada para ter uma identidade desenhada pela imagem produzida e/ou copiada de “celebridades” promovidas a sedutores “modelos” de “sucesso” – e, por tal, atrativas, sobretudo aos que desejam sair do anonimato e da marginalidade.

Por esses meios, a contestação pode ser abolida sem o recurso à proibição.O pluralismo é absorvido em porosa “unidimensionalidade” (Marcuse); a própria transcendência some de vista – pois em um sistema que se faz crer encarnação da Razão, desaparece a tensão entre aspirações e realidade, entre verdade e aparência.

O modelo anterior de socialização, repressor e violento, é mascarado ou recoberto por outro, mais fluido, sutil, “miniaturizado” e introjetado (o sexual,o libidinal). Modelo correlativo de um desenvolvimento tecnológico e científico, em que o peso das máquinas e engrenagens que desenhavam a visão de mundo anterior vai se trocando por outra na qual a leveza dos átomos e moléculas, das partículas ADN no organismo, dos bits sem peso da informática caminha em paralelo a uma “microfísica do poder” (Foucault), que, com sua “modulação” e “capilaridade”, trazem para o interior do indivíduo uma nova versão do Poder, aderente ao Desejo. Na imanência do desejo, a angústia desaparece, pois o ser humano supõe ou sente como seu o que lhe é artificialmente introjetado. Pois em um sistema que tem a produção como seu eixo vital, tudo (ou quase tudo…) pode ser produzido. E sua eficácia consiste em descobrir e usar cada vez maior número de meios para tal.

  No ethos consumo/ diversão implantado, em que os termos se alimentam reciprocamente, a di-versão perde também seu sentido brechtiano de versão outra, necessária ao “estranhamento” gerador de um novo olhar, e passa a ter como sentido e meta, a distração, cuja etimologia (dis-trahere= afastar de) fala por si, vendendo igualmente identidades e estilos de vida. Também a sexualidade, antes colocada sob o signo da repressão, do interdito, da proibição das leis religiosas e morais, muda seu discurso: o pathos do sexo desaparece igualmente, e o próprio sexo, “produzido”, passa a válvula de escape de tensões. Produzido – no sentido etimológico do termo, que não remete à fabricação material de algo, mas à idéia de pro-ducere, isto é, de tornar visível, fazer aparecer, comparecer (como um ator no palco): falado, mostrado, discorrido, confessado, realização imperativa e imediata de um desejo, torna-se o sexo puro funcionamento maquinal; e, como tal, cumulativo, computadorizável, preocupado como o “desempenho” e a “eficácia”, constrangido ao uso, ao desfrute, ao gasto, efêmero e descartável, em suma, “capital” sexual, libidinal, cuja gestão se dá em réplica exata à da que rege o valor da mercadoria. Ou seja, pelo imaginário da liberação, em nome da qual se supõe agir, o Poder funciona menos com a repressão, a proibição, e muito mais com essa “produção e “liberação”. E nelas se revela a incrível capacidade do sistema de produzir simulacros – e até de fazer, de seu próprio crepúsculo, o simulacro de uma aurora.

O que faz entender, em toda a sua plenitude, a preocupante visão atual: quando Poder e Desejo perdem os sinais contrários, e os esquemas do Poder coincidem com os do Desejo, é que surge a possibilidade de controle total – utopia maior de todo Poder.

 

                       Onde,  então,  o  desenvolvimento  possível  e  necessário?

O des-envolvimento, a palavra mesma o atesta, passa necessariamente por quebrar o envolvimento enganador do discurso, por questionar (desde o seu momento gerador) as representações existentes. Passa por re-instalar, entre o olhar e a fala, a inquietação e a interrogação, para redescobrir uma comunicação mais direta e espontânea com o mundo, com os outros, conosco mesmos. Passa por um revolver geral: um volver às raízes ( do estético, do lúdico, do sexual etc.), e por quebrar a linearidade de um imaginário voltado para a irreversibilidade de processos ( “progresso”, “acumulação”, “domínio”, “poder”…). Passa por entender que, se a Moral impõe normas, regras e leis para manter os mores (costumes) desejados, a Ética vai mais longe e mais fundo, examina seu fundamento mesmo: pois uma lei injusta pode ser monstruosa – o que se evidencia se lembrarmos que tudo que Hitler fez foi “legal”. Passa por que ver que o fundamento maior dessa ética é a responsabilidade para com o Outro, algo que não pode ser esquecido em um momento em que a quebra de fronteiras, de limites e barreiras exige buscar conhecê-lo e compreendê-lo como tal. Passa por ativar, pela comunicação, a troca entre as diferenças e a abertura a diferentes pontos de vista, como algo enriquecedor e meio de integrar os dados dispersos para com eles desenhar o rosto da totalidade que intuímos. Passa por ultrapassar as limitações da lógica ou de um pensamento / razão que supôs abranger todo o existir (“Penso, logo existo”), para reencontrar, no símbolo, a pluralidade do existente, as alternativas sempre possíveis, a abertura ao imaginário da invenção e da criação.

Se a representação é falaciosa, se o discurso social traz consigo uma carga de entropia que esvazia o real e impede a visão da totalidade, do símbolo pode surgir o transbordamento do significado, a extrapolação em relação àquilo mesmo que designa. Pois o símbolo denuncia seus vazios e a própria potência geradora do que aí ficou elíptico. O símbolo é filho da ruptura (embora também haja símbolos alienadores). Por isso, a troca e o salto, quem os percebe, expressa, ou até provoca, são os artistas, os inventores, os inovadores em idéias e ações. O artista/inventor é aquele que tem os olhos voltados para o amplo horizonte dos possíveis. Por isso toda grande arte sempre foi transgressora – no sentido mais amplo do termo, de confronto, violação, denúncia e ultrapassagem.

Para isso os artistas de cada tempo, atentos a seus desafios, consultam  Mnémosine, a Memória, rainha das Musas da criação, para dela indagar e com ela desenhar o rosto de cada tempo já vivido e nele perceber os traços que o (de)formavam. E a partir daí, reativam o sonhar, o inventar e criar, para neles esboçar e redesenhar um novo tempo e um novo homem.  

Se o século 20 foi chamado “o século da criança”, em razão das descobertas da psicanálise e demais ciências do homem mostrando ser a infância uma fase fundamental da estruturação da personalidade adulta; se as décadas finais do século foram chamadas de “a era da juventude” (Hobsbawn) devido à decisiva participação dos jovens nas mudanças que transformariam o mundo e o próprio ser humano; se aqui no Brasil, essas camadas sociais representam 51% da população, desnecessário se torna enfatizar a importância de dar-lhes os meios de enfrentar os inúmeros desafios da era de transição que vivemos e que também os afetam, direta e inescapavelmente.

 É também desafio a que não pode fugir o teatro, se fiel a seu sentido mesmo, de ser, antes de tudo, lugar de VER.

 O CONCURSO DE DRAMATURGIA DO CBTIJ

                                                                 

                                                                 Maria Helena Kühner

 

 

A análise dos textos encaminhados ao Concurso de Dramaturgia do CBTIJ levantou questões que seriam objeto de prolongada e minuciosa discussão.

- O que desde logo despertou a atenção foi a incompreensão do que seriam “temas tabus”. Se uma visão equivocada, e felizmente cada vez mais ultrapassada, antes destinava à criança “qualquer coisa” em “tom lúdico”, gerando espetáculos tolos, feitos de “brincadeiras” sem nexo, marcações gratuitas com tombos, encontrões e “sustos”, um dançar ou cantar a qualquer pretexto, o apelo à platéia etc., veio crescendo a consciência de que isso não tem mais sentido ou interesse para a criança que tem hoje contato direto com os objetos da cultura e as mais variadas solicitações e ofertas vindas da literatura, da música, do cinema, da TV – na qual, como comprovam as pesquisas feitas, ela vê tudo ou quase tudo que aí se exibe. E se acentuando a preocupação com o fato de que em teatro nada era destinado especificamente ao jovem, hoje tão visado (pelo menos em tese…) nas políticas públicas e seguidamente focado no marketing voltado para o consumo e a “diversão”.

Acreditando que “temas-tabus” seriam quaisquer temas antes não contemplados no teatro a destinado a crianças e jovens, surgiram textos sobre temas os mais diversos ( Ex: com foco em ou crítica à Escola e à Educação, ou à Família, ou à TV, à Cultura, ou ao próprio Teatro) ; ou textos sem qualquer ligação com a vivência infantil ou jovem ( Ex: o adultério, a velhice); ou textos que apenas faziam a releitura de contos e folguedos da cultura popular. Textos que davam a impressão de serem apenas um “desengavetar” de obras já escritas que “se arriscava” a mandar para um concurso na esperança de, quem sabe…

Como decorrente desse equívoco, um outro : o de identificar tabu com censura e daí surgirem textos tolos, de pura pornografia, em palavreado chulo e carregado de palavrões, com personagens vaidosamente alardeando ou supondo estarem “quebrando tabus”…

 

- Em outro extremo, a tentativa de em uma mesma e única peça tratar de inúmeros temas relacionados a um tabu sem desenvolver dramaturgicamente nenhum, ou seja, alinhavando relatos, notícias, denúncias, mini-cenas, discursos sobre, situações não desdobradas em ação, conflitos só apontados ou pontuados etc. Por exemplo, em termos de sexualidade, uma mesma peça falar de pedofilia, estupro, assédio sexual, homossexualidade, homofobia, gravidez na adolescência, Aids e DST etc. O curioso é ter isso sido recorrente em vários textos, dando a impressão de que a repressão anterior a tais temas era, realmente, sufocante… E lamentável que a dramaturgia falha tenha prejudicado autores que, ao que se podia perceber, demonstravam sensibilidade, ou tinham conhecimento de causa, e idéias ou “comentários” válidos e pertinentes sobre os temas escolhidos.

- Impressionou igualmente o júri o número de autores que, mantendo a atitude hierarquizante, vertical e autoritária que hoje se busca superar, assumem ainda a postura de alguém supostamente “superior”, em termos de idade, cargo, ou de um pretenso “saber”, que se sente obrigado a “explicar”, “ensinar”, a dar “lições” artificialmente inseridas ou não decorrentes da própria ação dramática, a impor regras e normas em “mensagens” cheias de “você deve” ou “tem que”, ou de obrigatória “moral da história” ao final, ou de falas “didatizantes” inseridas, até forçadamente, nos diálogos, enfim, de toda uma “doutrinação” muitas vezes expressa em desgastados “chavões”. Postura essa que, em última instância, caracteriza a própria criação do tabu, representando, como tal, o avesso da mesma atitude.                      

- O que, por vezes, vem ligado à inadequação ou desconhecimento da linguagem dramatúrgica. Houve autores que esqueceram que teatro é lugar de ver, que a re-present-ação teatral não apenas descreve, narra algo ou disserta sobre um tema, mas mostra,  presentifica, torna presente e presença o que quer dizer. Foi o caso de inteligentes e bem redigidos “ensaios”, discursos em tom de aulas ou de “palestras”, diálogos em tom de debates de idéias e argumentação, de “depoimentos” verbalizados, ou de narrativas que exigiriam toda uma “adaptação” para serem levadas à cena – o que já foge à alçada de um concurso de dramaturgia.

- Foi também o caso de autores visivelmente iniciantes, muitos dos quais aparentemente falando de experiências ou vivências pessoais, de seus sonhos, dúvidas, incertezas e inseguranças, geralmente em diálogos breves, que pontuam fatos estanques referentes a sexo, drogas, relações afetivas, busca de identidade, emprego ou desemprego, etc. sem conseguir articulá-los em um todo coerente com um mínimo fio condutor, com personagens sem consistência ou definição na ação, que entram e saem sem que nem porque, Em alguns textos, a tentativa de “teatralizar” consistindo na inserção, entre essas cenas ou partes soltas, de uma figura cômica, ou colorida, ou ruidosa, ou de músicas ou coreografia igualmente desconectadas do possível desenvolvimento de um tema ou ação.

- Também digna de nota se mostrou a influência da linguagem de TV e da Internet. Linguagem e grafia ora reproduzem o universo “internauta”, sua rapidez, desconexão e superficialidade, ora trazem não só na temática ( em geral ligada a relações interpessoais, namoro, sexo e drogas) como na impostação, na linha de diálogos, na tipificação de personagens, nas músicas e suas letras, características dos inúmeros seriados americanos de TV voltados para a faixa adolescente e jovem. Pena que, com isso, mantenham igualmente sua superficialidade, “borboleteando” de um tema a outro, sem nada desenvolver ou aprofundar.

- Por fim, uma ambivalente característica de nosso momento: a fusão de linguagens. O concurso comprovou, mais uma vez, que estamos em uma fase de experimentação e de hibridização, em que a fusão de linguagens, quando bem articulada, pode contribuir para uma escrita cênica dinâmica e rica, ou um espetáculo multimídia atraente e vivo. Mas pode, igualmente, gerar uma con-fusão que torna a ação dramática um mero fiapo condutor, incoerente, cheio de cortes, nós, inserções e desvios dispensáveis e indesejáveis.

Em vista do exposto, o júri, após demorados debates, discutiu caso a caso, sobretudo os que foram selecionados como “finalistas” em razão da seriedade na abordagem do(s) tema(s), da validade do material trazido, da sensibilidade, imaginação e potencial de criação demonstrados pelos autores. Mas, por fim, optou por não conceder o prêmio, considerando que:

- a premiação, e conseqüente publicação e distribuição em termos de Brasil e de América Latina, tornaria o ganhador representativo da própria dramaturgia brasileira atual voltada para a criança e o jovem, ou comprometedor para a mesma, já que há consensual reconhecimento de que não têm tal representatividade;

- e que, por isso, distinguir e premiar um texto com qualificação insuficiente seria injusto para com tantos outros autores mais qualificados que ainda buscam fazer chegar à cena obras inéditas.

Mas decidiu acatar uma sugestão de alinhavar as principais observações e comentários levantados, esperando, assim, oferecê-los aos que neles talvez se reconheçam  ou dar margem à reflexão dos muitos autores que hoje se dedicam ao teatro para a Infância e a Juventude. .

                

Texto escrito a pedido de um grupo que fala do ocorrido como fato real.  Aqui a disposição de todos os interessados em discutir relações de gênero e diversidade social. Pedimos apenas que nos seja informada quando de  sua utilização, que esta disponibilizada sem custos.                 

 O PECADO DA DIFERENÇA

                                                                                Maria Helena Kühner

 

Entra alguém correndo e gritando para todos os lados:

1 – Tem um homem morto no banheiro feminino!

VOZES ( off) – Um homem… morto?

                      - No banheiro feminino?!

1- É! Cheio de sangue! Deve ter sido assassinado!

2- ( entrando) – Um homem assassinado, no banheiro feminino? Como foi isso?

1-    Não sei! Vai  lá ver! Vão lá! Chamem a polícia!

Breve corte de luz. Reabre com policial ou investigador falando a um cliente da boate:

Cliente – O morto eu conheço, sim. Metido a gostoso, a machão. Eu mesmo já tive um pega com ele, chamei pra uma briga lá fora, porque estava se engraçando com minha namorada.

Policia – Mas você não ia assassinar ele por isso.

Cliente – Inda mais no banheiro feminino. Vai ver ele tentou assediar ou estuprar uma

                mulher…  e foi violento… ela reagiu e…

Policial – … e ela  devia ter algo cortante ou agudo, com que na briga fez cortes e

                incisões no peito e no braço, e acabou enfiando na jugular dele.

Cliente – Pô, na jugular… é um ponto vital.

Policial – Daí a hemorragia que liquidou com ele.

Cliente – Vai ver ele caiu e aí ela fugiu quando viu que o matou.

Breve corte de luz. Reabre em outro ponto, com outro policial falando a casal:

Policial – Vocês estavam aqui na hora do crime? Viram ou ouviram alguma coisa?

Homem- Estávamos. Eu venho sempre aqui. Mas a casa ‘tava lotada, e com música e burburinho fica difícil ver ou ouvir alguma coisa.

Mulher- Mas uma coisa me chamou a atenção: o nervoso de nossa vizinha de mesa, quando veio de lá, acho que do toalete, pegou a bolsa e o casaco quase derrubando a cadeira e saiu rápido, deixando na mesa o copo de bebida ainda cheio.

Policial – Sabem que é?

Mulher – É uma mulher alta, loura, bonita, bem vestida. Tava na mesa bem ao lado da

                nossa.

 Homem – Acho que já vi ela aqui algumas vezes. Mas não sei quem é, não. 

Policial – Se é cliente da casa o gerente deve saber. Vou falar com ele.

Homem – Mas acho que ele já foi. Em geral só fica até meia- noite. Depois deixa com o subgerente.

Policial – Voltamos amanhã, se for preciso. E se souberem de algo mais, por favor nos informem.

Breve corte de luz. Reabre com uma moça loura e bonita diante de um homem.

Moça – O senhor é advogado criminalista, não?

Ele - Sou. Em que posso lhe ser útil?
Moça - Eu vim procurá-lo porque eu… eu queria lhe fazer uma consulta e… e saber

              se…se pode pegar um caso, se for necessário.

Ele - Depende. A senhora está com algum problema?

Moça – Não! É… é meu irmão! É que, ontem à noite, meu irmão se envolveu em uma briga em uma boate e, para se defender, usou um canivete contra o agressor. Agora dizem que o homem morreu e… e ele está com medo de ser acusado de um crime.

Ele - Eram só os dois brigando? Não teve outros envolvidos? Ou testemunhas?

Moça – Não. Foi no toalete. Estavam só os dois.

Ele - No toalete…?

Moça – É. E foi o homem que o agrediu! Foi legítima defesa!

Ele - Mas o uso do canivete é um complicador: porte de arma.

Moça – Então ele não tinha direito de se defender?

Ele - De se defender, sim. De matar, não!

Moça – Ele não queria matar! Mas o que é que ele podia fazer? O homem o agrediu!

Ele – Ele saiu agredindo assim, sem mais nem menos? Eu preciso saber dos detalhes. Por exemplo: a arma do crime ficou no local?

Moça - Não! Trouxe! Mas será que não seria melhor ele fugir, sumir por uns tempos…

 Ele- Não. Fugir seria confissão de culpa. Temos que esperar pra ver o que acontece.

Moça – Esperar. É que é difícil ficar nessa agonia, sem saber se…

Ele - Diga a seu irmão que me procure para conversarmos. E aí vemos o que fazer, como agir.

Breve corte de luz. Reabre com policial com o Gerente.

Gerente – Sou gerente daqui há anos. E lhe garanto que não é puta, não, que em minha casa eu não permito. Eu acho que sei quem é, sim. Pela descrição é a Lorena.

Policial – Lorena…?

Gerente – É. Um traveca. Olhando a gente jura que é mulher. Teve até um cara que só descobriu na hora H e deu uma baita surra nele. Quebrou ele feio.

Policial – E sabe onde esse traveca mora?

Gerente – Sei não. Mas deve ser aqui perto, ou nesse bairro mesmo. O porteiro deve saber.

Policial – Depois do crime, alguém viu esse… essa Lorena?

Gerente – Não. Hoje ela não apareceu.

Policial - O que já pode ser sinal de culpa. Pelo sim, pelo não, vamos achar o tal traveca e levar pra investigação lá na DP.

Breve corte de luz. Reabre com rapaz de uns 30 anos diante do Advogado.

Advogado - Sua irmã me procurou, sim. E eu pedi que você viesse falar comigo. Mas…

              vocês são gêmeos?  São tão parecidos!

Ele - Doutor, eu… eu …sou ela.

Advogado -- Você… é ela?

Ele - O senhor pediu pra conversar comigo. Mas eu precisava saber se não ia me rejeitar, quando soubesse que… Sabe, eu vivo diariamente a experiência da rejeição, da exclusão. Eu precisava saber se ia me aceitar, se ia aceitar me defender. E achei que posso confiar no senhor. Além do que eu preciso muito de sua ajuda.

Advogado – Então, o primeiro passo para que eu possa ajudá-lo é ser verdadeiro. Não mentir nem omitir nada – mesmo que seja algo contra você. Do contrário irá comprometer não só você mesmo como o meu nome profissional.

Ele - Prometo ser totalmente sincero. Até porque sei que minha vida vai estar em suas

               mãos.

Advogado – Então vamos começar. Pois se estão investigando o caso, logo, logo vão

              chegar a você.  Preciso saber de tudo, sobre você e sobre essa briga.

              Breve corte de luz, para a Delegacia, onde dois policiais conversam.

1-    Esse traveca vai se dar mal… Dar cabo de um cara rico, conhecido, bem situado…

2 – A família está no meu pé. Já telefonaram vinte vezes, mandaram o advogado deles e tudo. Querem porque querem pegar quem matou e meter atrás das grades.

1-      O morto pode ser importante, mas, pelo que eu soube, era também um bom filho da puta. Vai ver foi até execução, a mando de algum outro figurão ou de alguém a quem ele prejudicou.

2 – E não interessa abrir isso. Por isso abafaram o caso. Não saiu uma nota nos jornais, reparou?

1 – E o obituário era só elogios…

2 – Mas isso não explica porque iam mandar um traveca fazer o serviço. Só se era pra desmoralizar o morto, mostrar com quem ele estava andando…

             Alguém entrando:

- Consegui! Tá aqui o nome e o endereço dele! É a umas três quadras daqui!

1- Então vamos lá, caçar o pássaro antes que ele levante vôo!

                Corte  para o escritório do Advogado:

Lorena - Eu tenho pavor de ser preso, Doutor Paulo. Como eu lhe disse, eu morei um tempo em Belo Horizonte e lá, numa batida policial nos bares, à noite, alguém disse que eu era um travesti e eu fui preso. Na delegacia o Delegado me botou numa cela separada, dizendo aos outros que ele “ia me usar pra fazer uma limpeza no bairro”.  Me usar… Ele me usou, sim… Todas as noites eles dizia que “ia dar um bordejo comigo” para eu lhe apontar todas as putas, travestis, traficantes e bandidos, que eu devia conhecer todos muito bem, já que era da mesma laia. Que o sonho dele era “meter toda essa corja atrás as grades, ou se pudesse, até eliminar essa raça toda!” Hipócrita! Cínico! Com esse discurso moralista me metia no carro, algemado, e me levava… pra uma mata perto. E ali ele me usava e abusava de todas as maneiras. Com ele aprendi o que é sadismo, vi até onde o sadismo pode chegar, como é que alguém pode ter prazer em dominar, humilhar, espezinhar um outro que não é um animal nem uma coisa, que é um ser humano igual a ele! Mas no fim de uns dias eu acho que ele viu nos olhares e meios sorrisos dos demais que já estava soando esquisita aquela sua “investigação”. E eu também tinha conseguido passar por um cara que foi solto um recado para minha irmã, e ela foi à delegacia com um advogado. E me soltaram. Mas eu tenho muito medo de ser preso. Se me pegarem…

Advogado - Ande com o número de meu celular. É um direito seu ligar para seu advogado.

Ele - Um direito meu? Mas… eles vão respeitar esse direito?

Advogado – Isso eles respeitam, sim. Me ligue.

              Corte para a Delegacia. O Advogado diante do Delegado.

Advogado - Sou advogado dele. Vim pagar a fiança e pedir sua soltura.

Delegado - Ele ainda não está liberado.

Advogado— Mas não pode ficar preso. Ele é apenas suspeito, sem culpa formada. E além do mais é réu primário, não tem sequer antecedentes criminais.

              Entra alguém trazendo Lorena, ar aflito.

Lorena- Dr. Paulo! Que bom que o senhor veio!

Advogado-- Eu disse que aceitaria defendê-lo, não disse? Então vou acompanhar tudo, passo a passo.

Delegado – Ele não pode sair da cidade, nem mudar de endereço. E tem que estar à disposição, se for intimado a vir prestar esclarecimentos.

Advogado - Estamos sabendo. Se formos chamados, eu mesmo virei com ele.

              Os dois, saindo.

Advogado –  O caso irá a julgamento.

Lorena – Daqui a quanto tempo?

Advogado – Meses, no mínimo. Vou tentar acelerar o processo, para que a audiência ocorra o mais rápido possível. Mas não vai ser fácil, desde já lhe previno que não vai ser fácil.

Corte de luz. Reabre para sala de Audiência de um Tribunal de Júri: Juiz, Promotor, Adv. de Defesa e Réu  (Jurados visíveis ou não). Julgamento em curso.

Juiz – Com a palavra o Dr. Promotor.

Promotor- Este julgamento de hoje, a meu ver, será simples e rápido.  O que temos hoje, aqui, mais uma vez, é um caminho que se mostra cada vez mais comum e freqüente: a moda hoje é chamarem de “opção sexual” a um desvio que leva da anormalidade à libertinagem, ao desregramento, ao desrespeito às regras e normas da sociedade constituída, e, rapidamente, passa dessa anormalidade à ilegalidade e ao crime. É exatamente o que vemos neste caso: um travesti que quer por força ser mulher se achou no direito de usar um toalete feminino e, ao ser interpelado por isso, reagiu matando! E agora cinicamente pretende que seu ato seja considerado legítimo e defensável! Ou seja, quer que, além de tolerar que ele desrespeite a moral e os bons costumes, tenhamos ainda que tolerar que ele faça o que lhe der na cabeça, violando todas as regras, todas as normas e todas as leis, sem que nada lhe seja cobrado! Se tolerarmos isso, o preço de nossa tolerância será muito alto: será o mesmo que premiar a imoralidade e o vício, o mesmo que rasgar todas as leis que alicerçam nossa sociedade e nos levar ao caos social! Por isso estou certo de que os digníssimos membros do Júri verão no réu o que ele realmente é – um homicida cínico e libertino, frio e deliberado – e como tal o julguem e o condenem como ele merece!

Juiz – Com a palavra o Dr. Advogado de Defesa para a réplica.

Advogado – É curioso o Snr. Promotor não ter uma palavra sequer para a atitude brutal do agressor, que obrigou o Réu a tentar se defender. A Justiça, bem o sabemos, tem como símbolo uma balança com dois pratos, cujo equilíbrio se busca para que a Justiça se faça. Por que livrar o agressor de qualquer culpa e ignorar que o Réu agiu em defesa própria? Também não hesita em desviar o foco da questão: o que está em questão não é a pessoa do Réu – do qual o Snr. Promotor tenta dar de antemão uma imagem preconcebidamente negativa – e sim um ato seu e as circunstâncias em que se deu e pelas quais ele deve ser julgado.

Mas, ao fazê-lo, também acaba de demonstrar como a linguagem pode ser usada para, manipulando as palavras e dando ao Réu rótulos e adjetivos que o desqualificam (“desvio, anormalidade, libertino, cínico”), tentar distorcer a realidade e influir na mente dos que ouvem para fazer ver as coisas como ele quer que as vejam, e assim fazer pensarem como ele. Não vamos cair nessa cilada, que elimina nosso senso crítico e nossa capacidade de avaliar e julgar. Por exemplo, ele fala em normalidade, normas. Normas ou regras não são princípios ou valores imutáveis, como o são a Justiça e o Direito. Pelo contrário, as normas variam com o tempo, o lugar ou os interesses que as criaram. No Oriente Médio reina a poligamia, e é “normal” um sultão ter inúmeras mulheres. Já nas Ilhas Trobiand, como demonstra a antropóloga Margaret Mead, a “norma” é a poliandria, cabendo a cada mulher ter vários maridos. E aqui no Ocidente a norma é a monogamia – pelo menos em teoria…

Promotor - Meretíssimo, não vamos ficar em uma discussão infindável sobre conceitos e palavras dos quais o Dr. Advogado parece ter uma noção, digamos eufemisticamente, um tanto “pessoal”, que não é a minha nem a da sociedade em que vivemos. Eu sou um homem prático, não quero discussões filosóficas ou lingüísticas, e por isso sugiro passarmos aos fatos. E para isso gostaria de interrogar… o próprio réu.

             A um gesto do Juiz, o Réu se dirige ao banco das testemunhas e o Promotor dele se aproxima. 

Promotor- Você tem mãe? Tem família?

Réu – Minha mãe já morreu. Tenho uma irmã.

Promotor- Ah, sua mãe já morreu… De desgosto, talvez, de ver o filho tornar-se um pervertido, cair na degeneração que o levou ao rime.

Advogado – Protesto! O Snr. Promotor não tem direito de ofender o Réu!

Juiz - Deferido. Modere seu tom, Snr. Promotor.

Promotor- O senhor considera “normal” ser um travesti? Não achou outro jeito de ganhar a vida?

 Advogado – Protesto!

Réu – Pode deixar. Eu respondo. Eu não “ganho a vida” como travesti. Eu trabalho. Tenho uma profissão. Eu sou cabeleireiro.

Promotor – (riso de deboche) Ah, ah, ah…. Cabeleireiro… Só podia ser,…

Réu -  E sou considerado um bom profissional por minhas clientes. Tenho prazer em pentear cabelos femininos. Em embelezar com eles o rosto de uma mulher. Uma cliente minha, que é psicanalista, diz que é mecanismo de projeção, que eu me vejo nas mulheres que cuido e embelezo.

Promotor- Uma psicanalista… E o que ela diria aqui de seu ato? Foi raiva, inveja do sexo masculino? Vingança das vezes que lhe bateram ou xingaram? Sim, porque matar alguém só porque o interpelou por estar desrespeitando (para o Adv.) as normas hoje e aqui vigentes, sendo homem e indo a um banheiro feminino, é um ato que não se explica a não ser por ódio, vingança, culpa ou outras razões – como deve ser o seu caso.

Réu – Não! Eu estava me defendendo! A agressão partiu dele!

Promotor- – E você foi apenas “a vítima inocente”… Ah! Sei… Mas, mesmo sabendo que será a sua versão dos fatos, pois o morto não pode mais falar, poderia então nos contar o que aconteceu naquele toalete feminino que o levou a matar seu suposto agressor?

Réu – Quando entrei no toalete feminino ele veio atrás de mim: ”Hei, que negócio é esse? A boneca se acha no direito de entrar no banheiro de mulheres? Hein?” Meteu a mão no meu peito e começou a me empurrar e a xingar: “Não respeita ninguém, viadinho? Não respeita nada, seu imoral? Acha que só porque é uma bicha louca pode fazer o que quer, curtir com a cara da gente? Pois eu te mostro que não! Eu acabo contigo, te quebro, te arrebento aqui mesmo!” Eu dizia “Pare! Espere! Pare! Eu saio! Eu saio! PÁRA!” Mas ele não me ouvia, continuava me empurrando e gritando que “gente como eu não devia existir, que era um acinte à sociedade” e que “ia me dar uma lição!” Quando meteu a mão aberta no meu rosto e desceu pro pescoço apertando como se quisesse me estrangular eu… eu perdi a cabeça. Puxei o canivete e comecei a dar golpes no ar, a tentar atingir o braço dele, o peito, o corpo, onde fosse, para fazê-lo parar! Levei um susto quando ele deu um grito, Ai! e vi um jorro de sangue sair de seu pescoço e começar a escorrer. Ele parou, eu também parei. E quando vi que ele ia cair, ou desmaiar, me apavorei e saí correndo. No dia seguinte soube pelo porteiro da morte. E a partir daí não tive mais um minuto de sossego…

  Promotor - Como vemos, Snrs. Jurados, que houve homicídio é, então, algo inegável, fato confesso.  E os fatos falam por si: de um lado, alguém que foi um tanto grosseiro ou mal-educado, talvez, mas do outro, um ataque à mão armada que causou morte.  Não sei como o Réu ainda pretende fazer-se passar por “um bom profissional” sendo alguém que, como transviado e assassino, se mostra duplamente nocivo à sociedade em que vive. E que por tal deve ser afastado, e definitivamente, se acaso, do convívio social.

Advogado – Meretíssimo, se me permite… Mais uma vez comprovamos que o Dr. Promotor se esforça em confundir pessoa e ato, e em dar aos jurados uma pré-concebida imagem negativa do Réu. Gostaria de chamar como testemunha a psicanalista citada, a quem ele procurou logo após o ocorrido. Para vermos o que ela tem a dizer.

Promotor - Concordo. Veremos o que ela diz de sua perversão – pois embora o ilustre Defensor evite usar a palavra é evidente que foi essa perversão o leitmotiv, a causa primeira do crime.  

Advogado – Já que ela é recorrentemente lembrada, embora o ilustre Promotor diga que também não lhe agrada a expressão que eu uso, gostaria de antes perguntar ao Réu: como surgiu sua opção sexual ?

Réu – Minha irmã conta que, quando eu tinha 4 anos de idade, eu não gostava de brincar com os meninos, dizia que eles eram brutos, que só queriam brincar de guerra, de bandido, de briga… Que eu preferia brincar com as meninas, de casinha, de colorir, cortar e colar, de desenhar vestidos para as bonecas delas… E então eles me chamavam de “Mariquinha”, me empurravam, me expulsavam de todas as brincadeiras. Eu não entendia, ficava magoado, chorava… E isso ainda piorava tudo. Quando eu contava em casa, meu pai me batia, me mandava voltar para a rua e brigar com eles, e se eu chorava dizendo que não ia, me batia ainda mais e gritava que ele era um desgraçado, que esperara tanto um filho homem e lhe nascera “isso”… Dizem que a infância é a fase mais feliz da vida. A minha, pelo que me lembro, foi um inferno…  Eu não sabia o que fazer, não sabia como lidar com isso, com essa maneira diferente de ser, de sentir… Que só anos e anos depois eu iria entender, mesmo que eu ainda não saiba explicar por quê essa diferença. Mas então, quando vim do interior para a capital, onde ninguém me conhecia, decidi me travestir de mulher. Que eu me sentia mulher, eu me sinto mulher…

Advogado – Obrigado. Sem mais perguntas. Gostaria agora que ouvíssemos, como testemunha, a psicanalista mencionada, a Dra. Mariana de Góes.

         Breve corte. Reabre com a Dra. No banco de testemunhas.

Advogado – Doutora, como a Sra. deve ter visto, o Sr. Promotor se empenha em seu discurso em eliminar as circunstâncias em que se deu o fato, a agressão de que o Réu foi vítima e o forçou a uma defesa legítima, marcada embora pelo descontrole emocional a que foi induzido, e levando a resultados imprevistos, mas de forma alguma desejados ou intencionais. Eu lhe pergunto: tem algum fundamento a relação que o Snr. Promotor insiste em sublinhar e apontar como leimotiv do ato?

Doutora – Não. Como a moral define o conjunto de práticas de costumes e padrões de conduta vigentes, em uma sociedade que se organizou com base na proibição e no interdito, ou seja, uma sociedade que se organizou repressoramente, como é o caso da nossa, as condutas ligadas ao sexo são sempre objeto de fácil apelo moralizante. Mas essa “pré-determinação” de cunho moral que o Snr. Promotor insiste em estabelecer não existe em absoluto. Como vejo que o Snr. Defensor gosta de ir à raiz das palavras, lembro que a palavra perversão vem de per-vertere, ou seja, designa apenas o ato de verter por, de dar passagem a, sem direção pré-fixada. Todo sujeito tem uma quantidade de energia sexual, a libido, que, tal como a fome no organismo, busca satisfazer-se procurando os objetos nos quais vai investir essa energia. Na infância, por não ter ainda uma identidade, a criança dirige seus desejos para qualquer objeto, desorganizadamente, sendo por isso considerada “perverso polimorfa”. Ou seja, ninguém “nasce” heterossexual, ou homossexual, ou bissexual. Nasce apenas com essa pulsão que vai levá-lo a escolher depois seus objetos por um ato de vontade. E nossa vontade, nosso querer, como já foi também amplamente afirmado, é movida tanto por nossos valores e nossa razão quanto por nossos impulsos e nosso desejo. Por isso varia de sujeito para sujeito, de acordo com as diferenças de sua formação, as circunstâncias de seu desenvolvimento, as identificações, projeções, alienações, recalques vividos etc. A direção do desejo de cada um vai ser singular e única, diferenciada e marcada por sua história pessoal. E todo sujeito pode tornar-se homo ou hetero em qualquer momento de sua vida.

Advogado – E isso tem influência em sua conduta, em seus atos futuros?

Douora – Também não de forma simples ou linear, e muito menos pré-determinada, como quer fazer crer o Snr. Promotor. O que acontece é que todos nós vemos a realidade com os olhos das experiências vividas e as lembranças de ações passadas. O cotidiano, sempre redescoberto, tem por bússola e guia os mapas de caminhos percorridos. A memória é um fator crucial nas futuras ações de todo ser humano. Em sua busca de companhia, de afeto, das relações a que todo ser humano tem direito, as experiências vividas pelo Réu deixaram fundas marcas. Marcas que explicam a reação instintiva que teve ao ver-se agredido: primeiro, uma reação de afastamento e fuga – a mais habitual em quem vive seguidamente a rejeição, depois tentando acalmar o agressor com palavras, e por fim de defesa, usando os meios a seu alcance.

Advogado – Sem mais perguntas. Obrigado, Doutora.

Juiz – Podemos passar às considerações finais.

Promotor – Meretíssimo, Snrs. Jurados, de minha parte nada mais tenho a  acrescentar. A Moral, as Leis, a Justiça, a Religião são muito claras quando dizem: “Não matarás”! É um interdito que não se pode querer escamotear com palavras vãs e discursos ocos. Por tudo que ouvimos o Réu é culpado de homicídio doloso qualificado, e por tal peço que seja condenado a 30 anos de prisão, sem direito a condicional.

Advogado – Há décadas nossa sociedade vem lutando para abolir preconceitos que, como a palavra mesma diz, são idéias pré-concebidas, sem fundamento, que não resistem a uma análise inteligente. E que tiveram farto exemplo em todas as colocações feitas pelo Sr. Promotor. Outra será, temos certeza, a visão do Júri. Se o Direito considera os elementos internos (como a intenção, o desejo, os aspectos emocionais) é para levar em conta em que medida esses elementos concorreram para a prática de atos externos. Ou seja, o Direito se exige minimanente ético. E Ética é a responsabilidade para com o Outro, é perceber e buscar entender o ponto de vista do Outro, é aceitar o outro enquanto Outro, igual e diferente. Estou certo de que o Júri terá esse comportamento ético, levando em consideração todas as circunstâncias apontadas, desde a injusta provocação da vítima até o estado emocional em que se deu a reação do Réu. Pois só assim conseguiremos que se faça Justiça, e que possamos um dia chegar à sociedade mais aberta, mais livre e mais solidária que todos nós desejamos.

             Corte breve, reabre com Juiz dirigindo-se ao representante do Júri:

Juiz- Os Snrs. Jurados chegaram a um veredicto?

        – Chegamos, Meretíssimo. Homicídio culposo, sem intenção de matar.

Juiz – Então, pelo Artigo 121 do Código Penal, o Réu está condenado a 15 anos de prisão, sem direito a condicional nos cinco primeiros anos.         

           De seu lugar o Réu se volta, em pânico crescente, para o Advogado:

Réu – Dr. Paulo, entendo que me condenem, mas, pelo amor de Deus, peça para não deixar que me botem num presídio masculino, numa cela com um bando de homens que pensam como esse Promotor, que eu já sei o que vou passar com eles, vão me surrar, vão acabar comigo, vão…

Advogado – Sim, mas… você não pode ir para um presídio feminino.

Réu – Pelo amor de Deus, fale com o Juiz, fale com ele, explique… ou me mate de uma vez, eu prefiro morrer, eu não vou aguentar, eu não posso, eu …

Advogado - Calma. Eu vou falar com o Juiz. (para ele) Meretísimo, pode me conceder

          um instante?

Juiz – Sim. O que deseja?

          O Advogado se aproxima dele e lhe fala em voz baixa, foco marcando atrás o rosto ansioso do Réu.

Juiz – (erguendo-se) O que quer é impossível, Doutor. Não existe um “presídio especial” para travestis e gays.

Advogado - Mas ele pode ficar em cela separada, como os que têm curso superior. Isto é possível!

Juiz - E ele é formado em que? Na “universidade da vida”?

Advogado – A lei não pode ser inflexível e desumana. Ela tem de ser interpretada para indicar o caminho mais certo, para…

Juiz- (corta) – Quer me dar lições, Doutor? Faça concurso e venha para o meu lugar. Enquanto isso não acontece, não há o que discutir: pela lei ele é um cidadão do sexo masculino e como tal será por mim tratado.

- E se acontecer o que ele teme… senhor responde pelas consequências?

            Corte de luz. Reabre com alguém entrando em outro ponto onde agora está o Advogado:

- Dr. Paulo! Dr. Paulo! O travesti… Aconteceu! Aconteceu o que ele temia! Assim que foi posto na cela com uns 30 caras partiram todos pra cima dele! E ele foi agredido, xingado, estuprado, espancado, e acabaram enfiando nele um cabo de vassoura que arrebentou ele todo por dentro! Hemorragia interna! Morreu a caminho do hospital!

Advogado (revoltado) – Ele sabia que isso ia acontecer! Sabia que seria brutalizado até a morte! Um assassinato! (Pausa. Vira-se para a platéia) E deste assassinato, quem é culpado? O Juiz, os jurados, os presidiários… ou toda a sociedade, com seus preconceitos e sua in-diferença?…

 

                         Luz se fecha em resistência sobre sua figura imóvel e sua pergunta.

                                                                 FIM

 

NOVAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO : 

                                    UM DESAFIO EM ABERTO

                                                                              

Tudo começou há alguns anos, com um fato: Cinelândia, Rio de Janeiro. Meio-dia. Pessoas cruzando apressadas. No largo, um rapaz ao microfone grita aos quatro ventos notícias, denúncias, reivindicações, propostas. Justas. Necessárias. Não o ouvem. Sequer detêm o passo. Sem interesse. Sem curiosidade. Indiferença. A parábola bíblica me vem à mente: um homem saiu a semear em seu campo. Parte das sementes caiu sobre espinhos, que a sufocaram, outra parte sobre pedras, onde secaram… Onde, ali, a parte que cairia em chão fértil, capaz de fazê-la brotar?

Dias depois, um convite, que começo a transmitir: uma reunião com um tema que interessa a todos nós. Igual descaso: “Ah, nem vem! Eu não tenho mais saco pra esse negócio de reuniões, e debates, e falação… Ficar discutindo o quê? Esse blá-blá-blá não dá em nada mesmo”. Apatia? Indiferença? Desencanto?

Coincidentemente, estou nesse momento terminando para a Editora Bertrand Brasil a tradução de “A Força da Convicção”, de Jean-Claude Guillebaud, que abre a obra com uma afirmação/ constatação provocadora: “A grande metamorfose, o grande retorno – metanoia - já começou. Um novo mundo surgiu ante nossos olhos e estamos nos esforçando para nele viver. De um extremo a outro de Terra tudo parece ter mudado. Trazendo inquietação. A entrada de um novo milênio vem marcada por um medo difuso, que ainda procura palavras que consigam expressar o que provoca. Sim, pois nos faltam não só as palavras, mas também as idéias. Essa enorme movimentação antropológica representa uma dura prova para nossa capacidade de análise e afeta de imediato nossa linguagem (grifo nosso). Ameaçados, tanto interna quanto externamente, por perigos inéditos, confrontados com obscuras dominações, alarmados com violências imprevisíveis, envolvidos em mutações descontroladas, recorremos, na falta de outros, a conceitos que se tornaram frágeis. Os discursos políticos, diplomáticos ou estratégicos usam na maior parte das vezes retóricas cuja insuficiência confusamente percebemos.” 

E o subtítulo da obra levanta a questão que vai permeá-la por inteiro: então, em que podemos ainda crer?

Seguindo meu hábito de fazer também a orelha dos  livros que traduzo, inicio a deste com a inquietação que me perpassa: “Crer ou não crer poderia ser a dúvida de um novo Hamlet contemporâneo. De fato, os que buscam descrever o mundo em que vivemos são unânimes em apontar o desencantamento que estaria atingindo, inclusive, todas as instituições – Estado, Igrejas, Família, Escola, Justiça, etc. – e abrindo espaço a um individualismo tão exacerbado que solapa as bases da própria coesão social.  Uns o chamam, alarmados, de “a era do vazio” ( será? ); outros buscam nele esboçar uma imagem  (por vezes interessada ) de progresso e liberdade; terceiros se perguntam se já não há indícios (onde?) de uma “nova cultura” em gestação.

Ou será tudo isso e algo mais? Sublinhando o caos e a incerteza em que nos debatemos e os paradoxos – que parecem ser a marca de nosso tempo – essa descrença generalizada realmente ora resvala para credulidades as mais ingênuas, esoterismos, magias, superstições e crendices tolas, ora se petrifica em fundamentalismos e seitas que dão margem a atitudes das mais extremadas.

Mas, até pouco tempo atrás, as hoje chamadas de “geração da utopia” e “geração da ruptura”, isto é, todos os que lutaram por um mundo diferente e melhor, acreditavam que isso era possível: eram todos eles loucos, tolos, ou ingênuos, mesmo estando entre eles as melhores cabeças pensantes de nosso tempo?…”

É quando nos interrompe Nietzsche, vindo sussurrar baixinho ao nosso ouvido:“Todo fim é fogo e cinza, e incandescência de uma nova aurora.” 

Metanoia, ecoa de novo Guillebaud. Metanóia ( meta-noein ): uma mudança fundamental na mente ou no caráter, uma conversão espiritual. Isto é, então, o fim e o princípio? Onde percebê-los? Como expressá-los? “No princípio era o Verbo”. O Verbo, que cria e esclarece: “E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita”.

Essas frases e idéias começam a martelar minha mente, em minha inquietação um ponto começa a luzir, piscante e contínuo, a despertar minha atenção. Se o homem é o “ser da linguagem”, se estamos no século da comunicação, por que estariam elas sendo vistas como algo incômodo, desnecessário e inútil? Tendo na palavra o elo e ponte permanente de meu ofício de escrever e falar, minha atenção se volta para o discurso, para a linguagem, para a pergunta que surge: que problemas estariam, então, existindo no discurso, nessa linguagem ou em sua forma de comunicação?

A partir da pergunta, vou descobrindo uma indiferença outra, menos aparente, mas igualmente preocupante: até que ponto a indiferença ( o descaso ) dos que hoje ouvem viria também da in-diferença ( da não-diferença ) dos discursos e da linguagem que os veicula?

 

O discurso atual

Pois no discurso político e/ou no discurso da mídia, e às vezes até em alguns dos  mais bem intencionados projetos e planos de diferentes áreas, há preocupantes  denominadores comuns:

-          O econômico tornado eixo ou chave de tudo, o matiz econômico infiltrado até nas relações sociais e interpessoais: trata-se da questão cultural como de simples problema de distribuição de verbas; de uma questão de saúde como simples alocação de certa quantidade de remédios ou do número de leitos nos hospitais, fala-se em investir numa causa política, ou até em uma relação afetiva. A própria pessoa passa a ser vista apenas como “capital humano” e a força de trabalho humana ( man-power ) vai sendo englobada na expressão recursos humanos, que nega aos seres humanos sua existência individual para torná-los meros instrumentos de uso de um poder maior. Já houve quem dissesse, ironicamente, que hoje as boas ações já não são os gestos nobres do coração e sim as ações valorizadas na Bolsa, assim como é na Bolsa que ocorrem as chamadas crises de valores… Com menos graça, e demonstrando que não se trata de simples e inofensiva troca de palavras, cabe lembrar que os nazistas, em sua mudança diária de termos da língua alemã para sua propaganda, também usaram a expressão material humano ( menschenmateria ) e denominaram liquidação ( liquidieren ) os assassinatos cometidos como realização de lucro.

-  Mas a fixação ao econômico, raiz dessa sociedade contemporânea alicerçada cada vez mais no número, acaba levando a algo que é impressionante ou até assustador: a uma forma de entrar em contato com o mundo apenas codificado em estatísticas, descrito em números, limitado ao quantitativo, ao técnico, ao que pode ser medido ou calculado, e, simultaneamente, fazendo passar por cima, ou ao largo, do que realmente acontece, criando uma relação outra com a realidade e a História, e gerando um olhar supostamente “neutro”, que não instiga mais a pensar.

Pois pensar ( a palavra vem de pensum, pendere) é sentir que é o peso das coisas que faz pender a balança para um lado ou para  outro lado. Que a verdade não é um dado (algo recebido pronto) ou um fato (algo já feito), mas uma des-coberta; e para tal buscando romper com uma forma de conhecer invadida pelo interesse e pelo cálculo, para nela resgatar seu sentido original ( cognoscere=nascer com o que se conhece). Que a fixação ao econômico e ao número esquece que o texto ( de textum, tecere ) é um tecido de vários fios entrecruzados, e que palavra remete à parábola, à situação concreta que lhe dá origem. E o que estamos vendo em torno é que texto e palavra, mesmo quando não mistificados ou instrumentalizados pela propaganda, a mídia ou a política, servem apenas para enfileirar uma série de afirmações superficiais e esparsas, de “conclusões” mal alinhavadas sobre temas os mais diversos, que vão “fazendo a cabeça” da maioria ou sendo por ela repetida mecanicamente.

Quantos podem dizer que ainda sabem pensar? A preocupação com o por quê?, que busca razões ou fundamentos, com o para quê?, que indaga as finalidades do que se faz ou diz, com o será que?, que leva à busca de alternativas ou possibilidades, a escolher um rumo ou definir um objetivo – e liberdade é basicamente escolha -  vêm dando lugar a um buscar ver apenas se algo é ou não “adequado”. Adequado: a palavra fala por si, com sua raiz em aequs, o igual, o uniforme, o nivelado, isto é, o que está sendo amoldado, posto dentro dos moldes ou modelos em voga, ou construído pelos interesses dos que mantêm o controle ou o poder. Com isso vemos as mesmas pessoas que são capazes de discutir apaixonadamente sobre o último jogo de futebol, ouvirem apáticas, indiferentes, ou com comentários superficiais e repetitivos as notícias das mortes diárias, dos assassinatos que já são rotina nas grandes cidades brasileiras. Morte e vida banalizadas, simples número ou estatística nos assépticos noticiários da mídia.  Será que saber que 4.000 soldados americanos e cerca de 40.000 iraquianos já foram mortos nos diz  o que é a guerra do Iraque? 

          “O fenômeno se torna menos surpreendente, porém, quando nos damos conta de que existe toda uma indústria de produção da invisibilidade  e do consentimento”, na concisa e precisa definição de José Tadeu Arantes. Outros  (Chomsky, por exemplo) têm igualmente denunciado esse consenso fabricado, mostrando ser deliberado e ligado ao controle social esse obscurecimento dos fatos que se considera típico do período pós-moderno. Mas as conseqüências dessa visão, e as diretrizes de ação dela decorrentes, são evidentes: submissão do social ao econômico, e do político ao técnico; desigualdades socialmente produzidas e politicamente reproduzidas; negação dos direitos de cidadania e das necessidades básicas dos excluídos; escandalosa concentração dos meios de comunicação, servindo aos interesses elitistas de uma sociedade de consumo. O que permite entender a observação da CNBB: “O povo brasileiro está vivendo em uma sociedade eticamente invertida. Uma sociedade que valoriza o capital em detrimento do ser humano. O sujeito é o capital e a pessoa humana torna-se mero instrumento para a realização deste sujeito.”

- Em nome de um alegado “realismo”, que se proclama “objetivo” e “lógico”, recorta-se a realidade para interpretá-la ou agir sobre ela, isolando artificialmente o econômico, o político, o social, o psicológico, dissociando e isolando as diferentes áreas que engloba a visão de qualquer problema humano. Instala-se uma divisão entre as chamadas ciências humanas e sociais e as ciências “puras” ou “naturais” ( como se o humano fosse não-natural, e em sua raiz, humus, não remetesse à fertilização do solo natural que fez brotar e crescer uma cultura ). Dissocia-se “cultura” da educação, da comunicação, da ciência e da tecnologia, estendendo um véu sobre o todo e mostrando apenas visões parciais da realidade, fragmentadas e estanques. O que não é gratuito: o recorte e a fragmentação servem não só à análise como à manipulação, pois é nesse espaço da interpretação que a ideologia se instala, ora insidiosa, ora descarada.  “Divide para dominar”, já aconselhava Maquiavel a seu príncipe há 400 anos, pois a fragmentação tem papel importante em uma estratégia de dominação e manipulação.

- Abstraem-se, assim, as situações e os seres humanos de seu contexto natural e histórico, a linguagem se cristaliza em substantivos ou expressões abstratas e genéricas (“modernidade, produtividade, eficácia, globalização, democracia, liberdade, bem-estar, cidadania, direitos humanos etc.etc.”), ou se mantém permeada de chavões, de estatísticas, de siglas, de eufemismos e frases feitas do jargão mais vulgar, destinadas a colar nas mentes, à maneira da propaganda mercadológica, os lugares-comuns do discurso expert (“o desemprego é conseqüência inevitável da modernização…”), os mitos atuais (o “progresso tecnológico”, religião destes tempos), em repetidas e rarefeitas expressões que vão alinhavando idéias e cunhando expressões que passam a ter o valor de chaves mágicas que supostamente tudo explicariam ( a “luta contra o terrorismo” tentando legitimar guerras para a posse de matérias-primas ou o controle de áreas estratégicas ). 

- Quando algum fato mais evidente ou contundente (a guinada russa, as crises mexicana e argentina), qual raio iluminando súbito desvãos cuidadosamente escondidos, desvela máscaras e situações, ou quando se trata de impor interpretações e até projetos e planos,  imediatamente a linguagem se torna mais “técnica”, mais hermética, e surge outro recurso também permanente:  o apelo à Autoridade ( do especialista ou do cargo de quem enuncia ), fundamento básico de uma sociedade hierarquizante, vertical e autoritária. E essa autoridade é devidamente colocada em seu elevado pedestal, para afirmar, por exemplo, que “na Bolsa a análise das convergências no sentido do equilíbrio utiliza o mesmo tipo de equações dos modelos metereológicos” – equações, obviamente, inacessíveis a nós, pobres mortais, por seu alto nível matemático, mas que vêm corroboradas por estatísticas, dados, taxas, números e somas impossíveis de serem verificadas, e que deixam no leitor ou ouvinte a sensação de que “eu não entendo nada disso, eles é que sabem e que têm que resolver…”

Com essa palavra abstrata, esta palavra esvaziada de sentido ( democracia, hoje?) esta palavra mistificada ( a transparência do mercado?…), esta palavra intelectualizada e autoritária, vão vendendo seu peixe, mesmo quando cinicamente desmentem hoje o que há dias enfaticamente afirmavam, ou quando omitem informações que os denunciariam ( não é à toa que a mídia, em todos os países, hoje se concentra em poucas mãos ).

 

E Pilatos faz escola

O que permite, por outro lado, que, sem má consciência nem culpa, uma maioria possa lavar as mãos, eximir-se de suas responsabilidades em relação à sociedade em que vive e seus problemas. Essa palavra esvaziada, conotada, instrumentalizada – e por isso objeto de indiferença e descrédito – pode até fazer esquecer a famosa frase de Bertrand Russell: “Nós somos, todos, responsáveis por Auschwitz. Não conseguimos evitá-lo. E o condenamos demasiado tarde”. Só que hoje, se as condenações ou as iniciativas forem tardias, se não assumirmos a responsabilidade que nos cabe diante dos problemas com que nos defrontamos, afetando a vida – ou a morte – de populações inteiras, o que pode estar em risco é a possibilidade de um futuro com horizontes para toda a humanidade.  

- O que faz com que qualquer decisão de transformação implique, também no campo da informação e da comunicação, em atuar contra o processo de concentração x exclusão ou marginalização de nossa sociedade, que só é social no consumo, não o é no saber ou no poder. Não só recusando ou denunciando essas formas e linguagem, como buscando abrir caminhos que possam levar a socializar o conhecimento e estimular a inclusão.  Entendendo como se deu na cultura esse processo de concentração progressiva, que atitude intelectual a ele corresponde, que modelo de relação homem-mundo estabelece, a que método corresponde tal relação. Entendendo o que é o conhecimento, e porque, hoje, ele só será realmente alternativo ou inovador se partir de uma mudança de atitude, pois só esta sendo alterada poderá transformar-se o tipo de conhecimento, abrindo espaço para a recuperação de seu sentido real. (*)

(*) Desenvolvemos esses tópicos no livro “Teatro–Espelho e Resposta”, escrito em co-autoria com Gilberto Kühner. Ed. Trampo, RJ, 1989, registrando o trabalho realizado no Morro da Mangueira, no RJ, e que foi considerado no Congresso do CEAAL, em Guanajuato, no México, um dos melhores trabalhos de ação cultural comunitária da América Latina. O trecho correspondente ao que foi aqui mencionado está reproduzido na íntegra no Anexo nº 1, ao final.

Pois o que inquieta ou impressiona é ver os que sinceramente querem ou dizem querer modificar essa (des)ordem social mistificada e manipuladora, tendo a mesma atitude intelectual   ( conhecer para agir, agir para controlar, ter poder sobre ); atitude que se serve do mesmo método – dominar, pelo pensamento, determinado campo de conhecimento -  interessados basicamente em definir meios, estratégias e táticas; atitude que mantém ( e até legitima) um modelo mecanicista de relação homem-mundo, que fez da lógica a medida do ser e do discurso racional sua expressão. Inquieta porque o problema da lógica não é seu discurso, este já é conseqüência e, desde o Górgias, Sócrates o explicita: a arte do discurso dá a seu possuidor “o dom de impor sua vontade à sociedade”. O problema da lógica, nem sempre evidente, é sua finalidade: o controle – da produção, da linguagem, da sociedade, do mistério. Não é por acaso que a linguagem enfatiza e propagandeia a ciência e a tecnologia, o progresso na ordem das coisas e só trata o social em termos genéricos e abstratos.

Mas, se não é o domínio das coisas, é o ser humano, a vida humana, o centro de referência dos que lutam por um mundo diferente e melhor, por que essa in-diferenciação de atitude, de método, de modelo? Estaríamos caindo na cilada da simples contestação crítica – que, ao negar, afirma dialeticamente o negado? ( Falem mal, mas falem de mim, já dizia Napoleão…) Mudam-se termos e expressões, mas permanece o econômico como eixo, tal como permanece a abstração de base, na qual a própria economia, que surgiu como gestão da casa ( eco-nomos ) perde a concretude desta casa-mundo que é hoje tudo menos morada e abrigo para a grande parte dos homens. Permanece o apelo à autoridade como forma de persuasão, o dado como prova de “exatidão” do dito. O discurso mostra igualmente um mundo apreendido através do método, da ordem, da medida: exibe-se “a lógica do capital” usando os mesmos números e as mesmas informações, trabalhando as mesmas características, mantendo por vezes uma mesma linguagem “cientificista”, embora agora falando da “nova ordem” do capital, ou afirmando publicamente que “a crise do capitalismo precisa ter solução urgente, senão, dada a mundialização do capital, ficam ameaçados todos os valores societários e democráticos e põe-se em risco o futuro das sociedades humanas” ( a frase é do megaespeculador George Soros…). Ou que se alardeie um “liberalismo solidário” ou o “compromisso com o futuro das sociedades humanas” em países que neste momento mesmo clamam  racista e xenofobamente por impedimentos à imigração.  Ou que de ambos os lados se afirme que esta linguagem “científica” é a do nosso século  porque é preciso “demitizar” o mundo – no momento mesmo em que proliferam mitos contemporâneos ( até a própria globalização e suas vantagens), com que se supõe explicar o positivo e o negativo das coisas, sem dizer que o “progresso”, tal como se dá, é também uma desumanização. Goethe foi muito feliz ao criar seu personagem: em sua ânsia de um poder e um saber absolutos o que Fausto perde, ou vende, é sua própria alma.

 

I-nova-ação: um desafio

Que diferença há entre dizer os sem-terra, os sem-teto e falar em comunidades carentes ou usar o horrível termo des-favor-ecidos – que escamoteia em favor aquilo que é um direito? Será que falar em globalização, desregulamentação, flexibilização do trabalho, marginalização, cidadania, direitos humanos nos traz à mente seu significado vivo, real e humano, nos traz à consciência, por exemplo,

“…este homem velho, consumido, vencido, maltratado, esgotado, há tanto tempo aterrorizado, há tanto tempo oprimido que já nem mendiga mais. Esse olhar tão velho que a miséria incrusta até nos rostos jovens, até nos bebês. Rostos desses bebês de tantos continentes, em tempo de fome, bebês com rostos de velhos, com rostos de Auschwitz, lançados na privação, no sofrimento, na agonia imediata e que parecem saber e sempre terem sabido tudo de nossa história, mais sábios que todos sobre a ciência dos séculos, como se já tivessem experimentado tudo desse mundo que os expulsa.

Olhares de adultos pobres e de velhos pobres – mas será que ainda podemos decidir suas idades? Olhares ainda mais insustentáveis quando, como acontece, neles ainda sobrevive alguma esperança. (…….). Há alguém que revisite esse tempo de uma lentidão insidiosa durante o qual se transformou num daqueles que, embora olhados, embora escutados, não são vistos, não são ouvidos, e, mais que isso, se calam? Daqueles que ninguém “considera” nem reconhece, a não ser como fantasmas folclóricos, que não têm direito à carne das palavras, só a siglas, a espectros de palavras, ou então, a nada.”

A carne das palavras, em vez de apenas siglas, espectros de palavras, ou nada. Quando Viviane Forrester escreveu O Horror Econômico e optou por tratar assim aquelas questões, espantou a muitos por obter edições sucessivas e traduções para 12 línguas. E não faltou a crítica de intelectuais, incluso dos que se dizem seus pares:

“Os economistas reagiram  relativamente pouco à publicação de O Horror Econômico e seu impacto sobre o grande público. Esse relativo silêncio permite supor,  desde a desaprovação geral à indiferença, salvo o sentimento de boa parte deles, isto é, dos que se situam no mesmo terreno de Viviane Forrester, mas em outra esfera intelectual.” E é do alto dessa “outra esfera intelectual” que Jacques Généreux a critica em seu Une Raison d’esperer ( O Horror Político, Ed. Bertrand Brasil ) que, inexplicavelmente ( ?…), não obtém um décimo da repercussão de Viviane. Por que será?…

Como livrar-nos dessa herança cultural, dessa cultura que, ao instalar o “movimento anti-Natureza” ( Sartre ) gerou aquela visão das coisas, do mundo e do próprio homem, visão dualista, fragmentada, mecanicista, autoritária, refutada na teoria, mas ainda dominando um pensar que pretendeu absorver todo o existir ( Descartes ) ? Um pensar que ainda se faz por conceitos ou idéias que muitas vezes incorporaram pré-conceitos ( consciência= cum+scientia ) ou deformações ao longo do percurso ( quem hoje diria que autoridade vem de autor, isto é, aquele que gera, que fecunda, faz nascer?) Um pensar que omite ou se esquece que, como acima assinalamos, é o peso das coisas que faz a balança pender ( pensum-pendere), inclinar-se para um lado ou para o outro. Que a realidade remete à coisa concreta (res) que está à sua base. Que a palavra traz em si a parábola, a situação concreta que lhe deu origem. Que solidariedade não é mero conceito e tem à sua raiz o soldar, unir por derreter elementos e assim tornar sólido. Que companheirismo não pode ser mecânico jargão que esqueça que companheiro < cum panis, os que partilham o pão e sabem da fome quando ele deixa de ser o pão nosso de cada dia. Será que não é possível um re-trato dessa paisagem humana, que tem na linguagem seu meio de ex-pressão, trazendo para o ex-terior a pressão internamente vivida? Será que não é possível, e necessário, e urgente, mudar nossa forma de pensar, de sentir, de expressar-nos, incorporando nossos sent-idos, nosso sent-imento, que dão a nossa caminhada seu sent-ido, ou seja, seu significado e direção?

Quando fiz teatro com operários de uma fábrica e depois com favelados (décadas de 70 e 80) aprendi com eles uma maneira outra de ver e de pensar, a partir da experiência e da prática. Aprendi que um texto que diz nós é um tecido ( textum < tecere=tecer ) de múltiplos fios, e que a pergunta que cada um se fazia no debate final – o que é que EU tenho a ver com tudo que foi visto e ouvido? – entretecia diferenças e semelhanças para chegar ao ser-em-comum, a uma comun-icação que falasse de todos, por todos, para todos ( e que desvelava também a violência desta sociedade em que só fala “a voz do dono”). Compreendi por que a música, com sua carga emocional e viva, é sua mais freqüente forma de expressão, catártica e agregadora ( mesmo que por si só apenas ponto de partida, e não de chegada ou horizonte maior). Experimentei e redescobri a importância de pro-vocar, de trazer à tona, fazer surgir a voz, a palavra, e até o grito, o não-dito, o vazio, o silêncio. Reaprendi com eles, vivendo, a riqueza e valor da experiência.

Experiência < ex-per-ire, o que se extrai (ex) do caminho por (per) onde se vai. Experiência que não remete a um método e sim a uma história. Pois se o mét-od-o fala de caminho (od), fala também de distância e medida (met). Ao passo que se história  (pessoal e/ou coletiva ) e sabedoria têm a mesma raiz ( que o inglês guarda em wisdom ) é porque nessa história o passado são os passos de um caminhar, de um corpo que se move, com tudo que o com-move – incluso a cultura in-corpo-rada em uma trajetória marcada por um sentido, um sentido que é não só significado, mas também orientação, direção, mesmo que não impeça a errância, o erro possível nas tentativas que marcam os passos desse humano caminhar.

Caminhar que marca cada situação concreta, cada ponto do caminho, o ponto de vista do qual se olha. É totalmente diversa, por exemplo, uma notícia dada com a aparente neutralidade e impessoalidade de um jornal impresso ou televisado – “A polícia entrou no morrro e prendeu dois traficantes” – do espanto e medo do relato da criança ou do adolescente que viu a porta de seu barraco empurrada por uma bota, viu sua casa invadida quando tomava seu café da manhã, ouviu ordens e gritos, e viu um fuzil para ele apontado. Um relato muda radicalmente quando o ponto de vista é o de quem vive a situação, sobretudo quando na condição de vítima: sua fala vem fragmentada, insegura, duvidando das intenções de quem o/a pressiona ou até mesmo machuca, tentando, ao falar, entender, dar um sentido ao que aconteceu ou acontece. Por isso não tem de imediato um nexo, uma articulação temporal ou causal, ora falando em 1ª pessoa, ora em 3ª pessoa, ora narrando, ora descrevendo, misturando dados importantes e supérfluos, aludindo a sons, cheiros, cores, ao que sua memória registrou e dá conta de uma experiência tal como foi vivida

Mas é também por isso que Agnes Heller (“Uma Teoria da História”) enfatiza que nós precisamos contar histórias, contar o que nos aconteceu ou acontece, o que vimos ao passar hoje pela esquina da rua. ou o que vivemos alguns anos atrás: ao contar, muitas vezes estamos tentando não só expressar o que nos impressionou, ou marcou, mas também entender, dar um sentido ao que aconteceu, ao que vimos, ouvimos, vivemos. Quem fala, fala porque é um ser humano, fala para denunciar, para partilhar uma emoção, para registrar um momento, para não perder de vista o que é mais importante em determinada situação … mas fala também para saber-se e sentir-se gente.

Na experiência narrada, na situação concreta descrita, surge o ponto de vista do qual se olha. Por isso, marca um lugar a partir do qual se pode fincar o pé e tomar posição.

Um lugar que é também o lugar da fala. Diferentes movimentos sociais se iniciaram sobretudo a partir da década de 1960,  ( de mulheres, de negros, de comunidades, e outros) como formas pelas quais a chamada “sociedade civil” veio buscando organizar-se, agregar-se em grupos e associações, para fazer ouvir sua voz, dar significação e força a sua expressão. Começaram perguntando-se quem sou eu? buscando re-conhecer a própria identidade. Personalizando, em vez de abstrair e generalizar, sabendo, ou intuindo, que o que digo quando falo eu, minha história própria e particular, é minha forma de chegar ao mais geral, que só o eu diz, e que o diá-logo já será a fala outra, em que se descobre o outro como socius, ou aliado, diferente e semelhante, parceiro na formação da sociedade . Tentando fazer da verdade não um dado (algo recebido pronto) ou um fato (algo já feito), mas uma des-coberta; e para tal buscando romper com a forma anterior de conhecer, invadida pelo interesse e pelo cálculo, para nela resgatar seu sentido original  (cognoscere=nascer com o que se conhece). Negando-se a serem normal-izados pela retórica vigente ( e sua persuasão ) e pelo controle social que impõe papéis, comportamentos e valores – persuasão e controle que são as molas-mestras de um pseudo-conhecimento ( pseudo porque desempenha todas as funções, só não realiza nascimentos!)

Experiência que é também diferente da tecnociência e seu discurso, sobretudo o atual, que, quando não reduz ao silêncio, impede a fala, anulando-a sob um geral que atropela a diferença, ou mistificando-a em um falar por ou falar sobre, autoritário e tutorial, ou usando-a para legitimar hierarquias e dominação. Experiência que se dá, portanto, na linguagem, pela linguagem e como linguagem: é preciso falar e isto só se aprende falando. Que na linguagem e pela linguagem cada eu se insere não só em um contexto com o qual se comunica e onde também se identifica, como supera a fragilidade do instante ( é para durar que falamos ), insere-se no tempo, em um passado, que é memória – para o resgate de dimensões perdidas no caminho, juntando razão + experiência para tornar-nos humanamente inteiros – em um passado que é também história, e um futuro que é o desejo de ser mais, de suprir a própria falta ( o que muitos ainda tentam com uma acumulação ininterrupta e voraz ) e abrir-nos às descobertas do por-vir.

A sedução do novo, que o marketing explora provocando e manipulando o desejo da novidade pela novidade, revelou-se com toda a sua força na explosiva e luminosa saudação ao novo milênio. Novo é o que ainda não se conhece. Mas ao ressaltar o gesto espontâneo do processo de conhecer assinalamos também seu peso e sua gravidade: a liberdade é um caminhar que se desdobra e se revela nessa “nascimentos”. E o novo pode ser, também, um retorno às origens para buscar o sentido e significado desse caminhar.

Por isso viemos brincando com as palavras. Buscando re-des-cobrir, na palavra, sua força de re-ligação. No princípio era o Verbo. Algo que foi biblicamente válido para o Criador (“E Deus disse: faça-se a luz!”). E é igualmente válido para todos nós,  criaturas, criadores, seres da linguagem, desafiados a provar que “um outro mundo é possível”.

 

Uma das formas possíveis: o Teatro

Essas considerações teóricas podem ser exemplificadas com tentativas já realizadas de chegar a uma forma de comunicação capaz de ser significante, expressiva e mobilizadora. Ao relembrar a experiência e a prática já vistas, o que de imediato me ocorreu também foi o show Opinião, o primeiro protesto teatral contra a ditadura militar instalada no país em 1964, e que foi considerado um espetáculo marcante e inovador. Um de meus últimos livros, Opinião, escrito em parceria com a jornalista Helena Rocha ( que levantou todo o clipping final ), por encomenda do RioArte e da Editora Relume-Dumará, retrata as décadas de 1960 a 1990 e, nela, toda a trajetória do grupo e com especial atenção, a estrutura do espetáculo, tão simples e significativo: em um palco, três pessoas, em seus trajes cotidianos, falam de suas vidas, de suas lembranças mais marcantes e cantam suas músicas. O que haveria de novo nisso? No livro o analisamos em detalhe, a partir da idéia do que significa como testemunho, do que representa um testemunho ou testemunha; de como o testemunho dramatiza todo um processo; de como a testemunha se torna agente desse processo que, se adequadamente realizado, torna-se um testemunho-de-vida, que vai trabalhar não só o lado intelectual como o lado afetivo e emocional do espectador, e vai abranger uma dimensão ética e política igualmente importante. Por sua verdade, embora tendo sido concebido como uma forma de resistência, conseguiu com ela o re-existere que traz da sombra dimensões esquecidas. Que dimensões seriam estas?

Cada evento – e sobretudo o evento dramático – resgata uma experiência original. O que vêm fazendo Grotowski, Peter Brook, Kantor e outros em sua escrita cênica é buscar essa experiência fundante em toda a sua concretude e originalidade, investigando todas e cada uma das relações teatrais – o tema, o ator, o diretor, o público – trabalhando o verbal e o não-verbal que as compõem – corpo, gesto, som, ruído, vibração, música… Kantor chega a afirmar que teatro não é um espetáculo, ou seja, algo para os olhos, a ser simplesmente “olhado”, e sim algo a ser vivido, concretamente, com as coisas acontecendo como pela primeira vez, estabelecendo com cada espectador um campo de tensões, a ser experimentado como uma ação perturbadora

Não é exagero. Ele assim nos faz lembrar que te-atrium significa lugar de ver. De um ver que ultrapasse o olhar superficial e disperso que solicitam tantas coisas que ainda nos apresentam atualmente sob o rótulo de “teatro”. Ao longo dos séculos o teatro nos fez ver o homem em situação na cena do mundo: mostrou-nos uma Antígona se confrontando, altiva, com a arrogância do poderoso governante Creonte, denunciou os Tartufos que criam com seu cinismo e hipocrisia uma falsa consciência,  fez ouvir o coro de vozes que alertam a cidade, trouxe um Prometeu capaz de aquecer e iluminar os seres humanos com o fogo de sua palavra, anunciando tempos melhores por vir.

Foi com essas preocupações e inquietação que vim também desenvolvendo, nos últimos anos, por iniciativa própria ou em resposta a solicitações recebidas, pequenos trabalhos que, visaram retratar, difundir e/ou apoiar diferentes movimentos sócio-culturais em curso. ( Cfr. a introdução de cada texto). Neles uso variadas formas teatrais, experimentando as mais diversas, e testando sua validade em apresentações realizadas nos mais diferentes lugares e momentos, em ruas ou praças, ou em escolas, universidades, associações, salões paroquiais, clubes etc., sob forma de espetáculo popular ou até mesmo como simples leitura dramatizada.

 São textos que não se vêem como um produto final, mas como provocação ou abertura a debates sobre questões fundamentais – a descoberta do “outro” ( desafio trazido pelo mundo plural e diversificado da globalização ), as relações de cor, de gênero, os fundamentos históricos e políticos da sociedade atual e os diferentes mecanismos que por vezes limitam a capacidade de compreender ou de agir em favor de uma sociedade diferente, menos produtivista, intensiva, poluente, desumanizadora, a sociedade que as transformações em curso possibilitam ou exigem.  A idéia de reuni-los aqui visa não só ampliar essas intenções – uma vez que os temas, situações e movimentos enfocados estão ainda em curso – como servir de sugestão, ou simples exemplificação das inúmeras formas que podem ser utilizadas para espelhar e analisar nosso momento e nossa realidade e, sobretudo, o sentido das transformações que aí se processam. Outros textos curtos, mais circunstanciais, foram aqui deixados de lado, mas apenas nos comprovaram, ao serem apresentados, a possível validade dessa forma “teatralizada” de comunicação: “Como era gostosa a minha Urna” ( ligado à Campanha das “Diretas Já”), ou “A Dívida E(x)terna”, para o Plesbiscito da Dívida realizado em 2000 etc.etc. Igual comprovação tivemos com o Programa “É por aí?”, veiculado na Rádio Tamoio/RJ e a seguir em 132 rádios católicas do país, ao longo de 2 anos, com a mesma estrutura: dramatização de uma experiência vivida ou ficcional sobre temas básicos do social ( desemprego, participação ou omissão, direitos ou “favores”, conflitos de gerações, as diferentes formas de violência invisível e cotidiana pelas quais é possível destruir o “outro” sem que haja uma gota de sangue ou um gesto mais ostensivo e brutal etc.etc.), seguidas de debates abertos a respeito e de depoimentos de especialistas da área em foco.

Formas de comunicação que são, portanto, empregadas em nome de uma finalidade maior: a de incentivar as pessoas a pensar por si e a acreditar em si mesmas. Formas de comunicação que todos nós, criadores, seres da linguagem, estamos desafiados a inventar para buscar superar a rigidez da apatia e do desencanto. Pois se teatro é transgressão e consciência ( tão bom se isto não fosse tantas vezes esquecido! ) é necessariamente algo capaz de levar a um des-envolvimento, a uma forma de livrar-nos de uma maneira cristalizada de ver e pensar, a buscar uma outra atitude, trabalhando no sentido acima apontado para superar o que ora nos limita, e a fazer ver e/ou inventar o mundo novo e melhor que nossa falta e nosso desejo nos fazem sonhar e buscar.

O VAMPIRO – FIGURA EMBLEMÁTICA DE NOSSO TEMPO ?

A “ruptura” iniciada na década de 60, e que deu nome a toda uma geração, iria levar à metanoia, transformação total de mentalidade ou caráter, com que se definiu o período.

Mas, como lembra Nietszche, “Todo fim é fogo e cinza, e incandescência de uma nova aurora.” Fim e princípio coexistindo, na ficção vai se desenhando, com presença cada vez maior em livros, filmes, vídeos e peças (em 37 países!) a figura do vampiro. Cabe, então, perguntar: Por que o vampiro? E por que a antes hedionda imagem do mal e da destruição, ora surge com características novas e atraentes? Que relações teriam essas características com o tempo em que vivemos?

A primeira, evidente em todas as obras, é o seu Poder. Não o poder, verbo que todos nós conjugamos – eu posso, nós podemos – mas o Poder, maiusculado e substantivado, sinônimo de domínio e controle, desdobrado em (as aspas serão sempre citações literais) “poderes fora do comum”, que o tornam “capaz de prever fatos”, de “ler pensamentos, desejos, necessidades e intenções” e assim “entrar no outro”, ou seja, poder manipulá-lo. Pois o objetivo declarado desse Poder é “dominar as almas fracas”, de cuja energia, sugando, se apossa, “a fim de ter e fazer ter (ter, palavra-chave de nosso tempo) o que quiser, quanto e quando quiser”. Ele próprio o declara: “Estou falando é de Poder. Você tentou de tudo e nada a satisfez. Mas existe algo fora de seu alcance, algo de que você precisa desesperadamente e não tem. É justamente o que lhe ofereço. Poder. Vida Eterna. E sensações que nunca teve na vida……Posso fazer qualquer coisa …Você não tem idéia do que sou capaz… ( em Diários do Vampiro, livro que  deu origem à série da TV.)Também na Série Crepúsculo o vampiro  Edward vai “abrir a Bella um universo novo”, e “transformar o rumo de sua vida.” 

De fato, é com as armas do Poder que o vampiro age. Com as armas atuais do Poder: a produção, a sedução, a cooptação, a manipulação. A produção: “Tudo em nossa sociedade é produzido”, lembra Baudrillard. Não apenas como fruto de uma tecnologia que ampliou infinitamente as possibilidades de gerar “produtos”, tornados “mercadorias” e, como tal, definidoras da própria noção de “valor”. Mas produção também no sentido etimológico do termo (pro-ducere= aparecer, dar visibilidade). O vampiro atual tem atributos socialmente valorizados em nossos dias: além de poderoso, é rico, fisicamente bonito, desejável e sedutor (como o são o Edward de Stephenie Meyer, e o Louis, o Armand ou o Marius de Anne Rice). Se a luz do Sol era fatal para o vampiro antigo, o atual dela se apropria para ter brilho e aparecer – como o exige uma sociedade que cria e cultua “celebridades” promovidas a sedutores “modelos” de “sucesso”, e, por tal, atrativos, sobretudo aos que desejam sair do anonimato e da marginalidade. Parecer e aparecer (a aparência, a imagem) estabelecem a norma a ser adotada para ter uma identidade desenhada pela imagem produzida – que ora importa mais que a necessidade de ser. (Que o digam os políticos atuais…)  

Daí estar ligada à sedução. Etimologicamente se-ducere= apartar, afastar da via, como bem ilustra D. Juan, o sedutor exemplar: ele não quer possuir ( como o vampiro de Meyer, que só no quarto livro chega a tal), ele que conquistar, quer que o desejo dela fique nele,  quer o domínio do desejo do outro. E, para tal, vai manipular a falta (“nada a satisfaz”) da qual nasce o desejo, ou se cria a necessidade ( “algo de que você precisa desesperadamente e não tem.”)

O “É proibido proibir”, grafitado em Maio de 68 na França pelos estudantes, revelava algo que o sistema já começava a absorver e reverter a seu favor, substituindo a concepção negativa e transcendente do Poder, fundada na proibição e na lei, por uma concepção positiva, ativa, imanente, que faz, da manipulação do Desejo, uma estratégia de dominação social. Com as possibilidades ampliadas pelas novas tecnologias, as grandes corporações globalizadas passariam a elaborar e aprofundar formas não só de seduzir consumidores (e fazer dos produtos consumidos os fetiches de uma nova identidade e suposto meio de promoção social), como de provocar comportamentos, instigar necessidades, suscitar desejos de todo tipo, emocionais, sensoriais, relacionais, sexuais, estéticos etc. trazendo para o interior do indivíduo uma nova versão do Poder aderente ao Desejo. Se a transcendência da Lei (“algo fora de seu alcance”) gerava a angústia em quem sentia seu destino determinado “de fora” pelo invisível e inatingível proprietário de um “castelo” (Kafka) em que se via aprisionado, na imanência do Desejo essa angústia desaparece: o ser humano supõe ou sente como seu o que lhe é introjetado artificialmente (Por tal produção e sedução tem a mesma raiz, duc = levar a, conduzir). O modelo anterior de socialização, o trabalho, que dividia os seres humanos em classes sociais e tornava o homem “lobo do homem” (Marx), é mascarado ou recoberto por outro, fluido, sutil, introjetado: o sexual, o libidinal. E o lobisomem, aquele “homem-lobo”, ora se apresenta como “inimigo e rival” desse vampiro sedutor e doador (cfr. as obras de Meyer…), assim como a literatura gótica, de terror e mistério, ora se matiza com tons eróticos, míticos ou até religiosos…

       Produzir essa necessidade, direcionar esse desejo, é a mais completa forma de domínio e controle, pois é a submissão consentida ( como lembra o filme “Deixa ela entrar”, de Lars Van Trier), amando o vampiro a ponto de querer ou aceitar “tornar-se igual a ele”: Bella desde o início “deseja tornar-se vampira e viver eternamente com Edward”. Se a antes vítima dos vampiros, ora cooptada, se torna sua aliada, naturaliza-se esse aparente jogo de oferta e procura, em que se faz crer que tudo que se oferece  (o Poder, a Felicidade e até a Vida Eterna) é por “um ato de amor”, tal como o de quem se coloca a serviço de “alimentar a vida” daquele que se tornou amado e desejado, contribuindo, assim,  para sua “eternidade”.

 Eternidade: parar o tempo. Pois o temor maior do vampiro é “a água corrente”, símbolo do tempo e suas mudanças (Heráclito), “barreira que ele não pode atravessar”. Daí o controle/ repressão anterior, tornar-se manipulação do medo, em narrativas em que abundam os “riscos” e os “perigos”, vistos, com certo frisson, como desafios vencidos. E “Bella, quando se vê em perigo ouve a voz de Edward dentro de sua cabeça”. Tal como se dá no “Ministério da Mentira Organizada” (na feliz expressão de Landsbeg), que alicerça ou sustenta um Poder no qual a in-segurança e a des-confiança, que abalariam as relações sociais, também receberão a oferta reasseguradora dos que detêm ou alardeiam ter “poderes” para tal. ( A “guerra  ao terror” política e midiaticamente manipulada é hoje exemplo flagrante…)

Se o vampiro, esse “Outro misterioso” que “surgiu das sombras” e se apresenta sob várias e inesperadas formas, tem  características deste capitalismo globalizado que nos vampiriza;  e se ele é, por definição, um ser-em-devir, aquele que é-o-que-vai-sendo por ser mescla dos muitos “sangues” de que se nutre ( como se dá no multiculturalismo atual ), ao vermos, no último livro da série Crepúsculo que a heroína Bella está grávida,  cabe realmente perguntar: que  criatura nascerá daí? Não por temer, como nessa  obra, que a “nova criatura” por nascer venha a “representar um perigo de morte” (…) que faz “Bella tornar-se vampira” e “defensora” dos mesmos, “tirando o escudo de sua mente para que Edward ouça (até) seus pensamentos”. Mas pelo contrário,  por estarmos certos de que é essa pergunta que nos compromete com a conclusão de Guillebaud em seu belo ensaio sobre a necessária refundação do mundo atual: “O planeta Terra do futuro não está por ser descoberto: está por ser por nós criado  e inventado”.

                                                                               Maria Helena Kühner  

Venho aqui anunciar que três peças radiofônicas, das seis contempladas pela premiação Roquette Pinto, já foram gravadas. Sempre um locutor e uma locura apresentam cada uma das obras. São elas:

Mãe D´Água, de de Raimundo Alberto Guedes, de Belém do Pará.

Locutor - Hoje, teremos “Mãe d´Agua”, de Raimundo Alberto Guedes, de Belém do Para. Raimundo Alberto escreve desde 1971, tendo já recebido inúmeros prêmios em concursos ou com as encenações de suas peças “Os Mansos da Terra”, “ Os Homens e os Lobos”, “Zama – uma Aquarela Amazônica” ou “Águas de Oxalá”. Todas elas marcadas pelo lirismo, a poesia e a solidariedade para com os personagens que descreve.

Locutora - A Amazônia é sempre lembrada pela beleza e importância de sua floresta e de seus rios. Mas poucos sabem algo das populações beira-rio, de seus sonhos e de suas lutas. Ou dos índios que também aí vivem, e marcam a cultura local com seus costumes e suas lendas. É de toda essa gente que a peça “Mãe d´Água” vai falar.

João Paneiro, de Tácito Borralho e Josias Sobrinho, de São Luis do Maranhão.

Locutor - Hoje, teremos “João Paneiro”, de Tácito Borralho e Josias Sobrinho, de São Luis do Maranhão, acrescido de dois episódios de “O Cavaleiro do Destino”. Tácito Borralho é um dos mais importantes autores teatrais do Maranhão. Em parceria com Josias Sobrinho, montou o LABORARTE, onde há anos desenvolvem um trabalho de pesquisa e revalorização da cultura popular – que é também objeto de sua atual tese de doutoramento na Univ. de São Paulo.

Locutora - A peça de hoje tem por eixo um mito muito presente na cultura maranhense: o da Serpente de muitas faces que rodeia a ilha. A Serpente ora é a guardiã encantada da poesia popular e sonhos infantis, ora a besta fera do Apocalipse, arquétipo do mal, ora ainda, unindo o universo lendário e a realidade vivida, o símbolo dos males que afetam a vida da população local. Na narrativa, o homem que assume seu destino e se dispõe a enfrentar os testes que o porão à prova, vai acabar encontrando a barca encantada da lenda de Dom Sebastião, que um dia virá libertar o povo desse males.  Ou seja, fala do homem maranhense e seu destino mágico, refletindo a tradição cultural regional e discutindo o projeto político do fazer e do ser maranhense em termos de povo e origem.

Mangueira é, de Maria Helena Kühner, peça resultante de um trabalho realizado com moradores da favela da Mangueira, no RJ.

Locutor - Hoje, teremos “Mangueira é”, de Maria Helena Kühner, do RJ. Maria Helena tem 29 livos publicados, de peças para adultos e crianças, ensaios, contos e pesquisas., pelo quais já recebeu 24 premiações. Sua permanente preocupação com o social a levou a este trabalho, realizado com moradores da Mangueira, no RJ, buscando mostrar como vive, sente, pensa e sonha uma comunidade que está entre as mais representativas de uma população favelada que abrange mais de 20% da população do RJ.

Locutora – Construir uma peça a partir dos próprios personagens, ou seja, dos próprios habitantes do morro em foco, foi iniciativa pioneira – que hoje, felizmente, vem se tornando mais comum. Mangueira é sempre lembrada por sua famosa Escola de Samba. Mas poucos sabem algo da população que aí vivem, da Mangueira-realidade, da Mangueira-favela, da Mangueira povo-que-vive-nela. É esse outro lado que vamos também retratar na peça que se segue.

Fui contemplada com o Prêmio Roquette Pinto para gravação de seis peças radiofônicas a serem levadas nas rádios públicas de todo o país. Dou a notícia porque quero partilhar com vocês a alegria de poder assim divulgar autores de seis diferentes regiões do país, mostrar a riqueza de nossas raízes culturais e a diversidade de realidades sociais e linguagens.

Foram selecionados  autores de vários estados, do Acre ao Rio Grande do Sul, esboçando uma panorâmica histórica e um perfil sócio-cultural deste multifacetado país. Uma breve introdução antes de cada leitura informará sobre o autor, a obra, e sobre o período e tema em questão

Nossa história e nossa realidade tornam-se, assim, não uma fria sucessão de dados, fatos e figuras, mas algo vivo e vivido, tal como é sentido, pensado e sofrido por aqueles mesmos que viveram ou vivem os fatos, ou pelos que, ao registrá-los, tiveram a preocupação de revivê-los emocionada, afetiva e/ou criticamente na cena. Sem necessidade de maiores comentários, neles se evidencia que a história de um país é feita por todos nós – pois os chamados “heróis” são apenas seres humanos como nós que se conscientizaram de sua responsabilidade social e em seu nome lutaram para e pelo bem de todos.

Também nossas raízes culturais aí ficam bem expressas, ao se comprovar, ao vivo,  como as raízes indígenas, as raízes ibéricas, as matrizes afro e a influência de imigrantes de diferentes nacionalidades se mesclaram para criar nossa rica e diversificada cultura.

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