O VAMPIRO – FIGURA EMBLEMÁTICA DE NOSSO TEMPO ?

A “ruptura” iniciada na década de 60, e que deu nome a toda uma geração, iria levar à metanoia, transformação total de mentalidade ou caráter, com que se definiu o período.

Mas, como lembra Nietszche, “Todo fim é fogo e cinza, e incandescência de uma nova aurora.” Fim e princípio coexistindo, na ficção vai se desenhando, com presença cada vez maior em livros, filmes, vídeos e peças (em 37 países!) a figura do vampiro. Cabe, então, perguntar: Por que o vampiro? E por que a antes hedionda imagem do mal e da destruição, ora surge com características novas e atraentes? Que relações teriam essas características com o tempo em que vivemos?

A primeira, evidente em todas as obras, é o seu Poder. Não o poder, verbo que todos nós conjugamos – eu posso, nós podemos – mas o Poder, maiusculado e substantivado, sinônimo de domínio e controle, desdobrado em (as aspas serão sempre citações literais) “poderes fora do comum”, que o tornam “capaz de prever fatos”, de “ler pensamentos, desejos, necessidades e intenções” e assim “entrar no outro”, ou seja, poder manipulá-lo. Pois o objetivo declarado desse Poder é “dominar as almas fracas”, de cuja energia, sugando, se apossa, “a fim de ter e fazer ter (ter, palavra-chave de nosso tempo) o que quiser, quanto e quando quiser”. Ele próprio o declara: “Estou falando é de Poder. Você tentou de tudo e nada a satisfez. Mas existe algo fora de seu alcance, algo de que você precisa desesperadamente e não tem. É justamente o que lhe ofereço. Poder. Vida Eterna. E sensações que nunca teve na vida……Posso fazer qualquer coisa …Você não tem idéia do que sou capaz… ( em Diários do Vampiro, livro que  deu origem à série da TV.)Também na Série Crepúsculo o vampiro  Edward vai “abrir a Bella um universo novo”, e “transformar o rumo de sua vida.” 

De fato, é com as armas do Poder que o vampiro age. Com as armas atuais do Poder: a produção, a sedução, a cooptação, a manipulação. A produção: “Tudo em nossa sociedade é produzido”, lembra Baudrillard. Não apenas como fruto de uma tecnologia que ampliou infinitamente as possibilidades de gerar “produtos”, tornados “mercadorias” e, como tal, definidoras da própria noção de “valor”. Mas produção também no sentido etimológico do termo (pro-ducere= aparecer, dar visibilidade). O vampiro atual tem atributos socialmente valorizados em nossos dias: além de poderoso, é rico, fisicamente bonito, desejável e sedutor (como o são o Edward de Stephenie Meyer, e o Louis, o Armand ou o Marius de Anne Rice). Se a luz do Sol era fatal para o vampiro antigo, o atual dela se apropria para ter brilho e aparecer – como o exige uma sociedade que cria e cultua “celebridades” promovidas a sedutores “modelos” de “sucesso”, e, por tal, atrativos, sobretudo aos que desejam sair do anonimato e da marginalidade. Parecer e aparecer (a aparência, a imagem) estabelecem a norma a ser adotada para ter uma identidade desenhada pela imagem produzida – que ora importa mais que a necessidade de ser. (Que o digam os políticos atuais…)  

Daí estar ligada à sedução. Etimologicamente se-ducere= apartar, afastar da via, como bem ilustra D. Juan, o sedutor exemplar: ele não quer possuir ( como o vampiro de Meyer, que só no quarto livro chega a tal), ele que conquistar, quer que o desejo dela fique nele,  quer o domínio do desejo do outro. E, para tal, vai manipular a falta (“nada a satisfaz”) da qual nasce o desejo, ou se cria a necessidade ( “algo de que você precisa desesperadamente e não tem.”)

O “É proibido proibir”, grafitado em Maio de 68 na França pelos estudantes, revelava algo que o sistema já começava a absorver e reverter a seu favor, substituindo a concepção negativa e transcendente do Poder, fundada na proibição e na lei, por uma concepção positiva, ativa, imanente, que faz, da manipulação do Desejo, uma estratégia de dominação social. Com as possibilidades ampliadas pelas novas tecnologias, as grandes corporações globalizadas passariam a elaborar e aprofundar formas não só de seduzir consumidores (e fazer dos produtos consumidos os fetiches de uma nova identidade e suposto meio de promoção social), como de provocar comportamentos, instigar necessidades, suscitar desejos de todo tipo, emocionais, sensoriais, relacionais, sexuais, estéticos etc. trazendo para o interior do indivíduo uma nova versão do Poder aderente ao Desejo. Se a transcendência da Lei (“algo fora de seu alcance”) gerava a angústia em quem sentia seu destino determinado “de fora” pelo invisível e inatingível proprietário de um “castelo” (Kafka) em que se via aprisionado, na imanência do Desejo essa angústia desaparece: o ser humano supõe ou sente como seu o que lhe é introjetado artificialmente (Por tal produção e sedução tem a mesma raiz, duc = levar a, conduzir). O modelo anterior de socialização, o trabalho, que dividia os seres humanos em classes sociais e tornava o homem “lobo do homem” (Marx), é mascarado ou recoberto por outro, fluido, sutil, introjetado: o sexual, o libidinal. E o lobisomem, aquele “homem-lobo”, ora se apresenta como “inimigo e rival” desse vampiro sedutor e doador (cfr. as obras de Meyer…), assim como a literatura gótica, de terror e mistério, ora se matiza com tons eróticos, míticos ou até religiosos…

       Produzir essa necessidade, direcionar esse desejo, é a mais completa forma de domínio e controle, pois é a submissão consentida ( como lembra o filme “Deixa ela entrar”, de Lars Van Trier), amando o vampiro a ponto de querer ou aceitar “tornar-se igual a ele”: Bella desde o início “deseja tornar-se vampira e viver eternamente com Edward”. Se a antes vítima dos vampiros, ora cooptada, se torna sua aliada, naturaliza-se esse aparente jogo de oferta e procura, em que se faz crer que tudo que se oferece  (o Poder, a Felicidade e até a Vida Eterna) é por “um ato de amor”, tal como o de quem se coloca a serviço de “alimentar a vida” daquele que se tornou amado e desejado, contribuindo, assim,  para sua “eternidade”.

 Eternidade: parar o tempo. Pois o temor maior do vampiro é “a água corrente”, símbolo do tempo e suas mudanças (Heráclito), “barreira que ele não pode atravessar”. Daí o controle/ repressão anterior, tornar-se manipulação do medo, em narrativas em que abundam os “riscos” e os “perigos”, vistos, com certo frisson, como desafios vencidos. E “Bella, quando se vê em perigo ouve a voz de Edward dentro de sua cabeça”. Tal como se dá no “Ministério da Mentira Organizada” (na feliz expressão de Landsbeg), que alicerça ou sustenta um Poder no qual a in-segurança e a des-confiança, que abalariam as relações sociais, também receberão a oferta reasseguradora dos que detêm ou alardeiam ter “poderes” para tal. ( A “guerra  ao terror” política e midiaticamente manipulada é hoje exemplo flagrante…)

Se o vampiro, esse “Outro misterioso” que “surgiu das sombras” e se apresenta sob várias e inesperadas formas, tem  características deste capitalismo globalizado que nos vampiriza;  e se ele é, por definição, um ser-em-devir, aquele que é-o-que-vai-sendo por ser mescla dos muitos “sangues” de que se nutre ( como se dá no multiculturalismo atual ), ao vermos, no último livro da série Crepúsculo que a heroína Bella está grávida,  cabe realmente perguntar: que  criatura nascerá daí? Não por temer, como nessa  obra, que a “nova criatura” por nascer venha a “representar um perigo de morte” (…) que faz “Bella tornar-se vampira” e “defensora” dos mesmos, “tirando o escudo de sua mente para que Edward ouça (até) seus pensamentos”. Mas pelo contrário,  por estarmos certos de que é essa pergunta que nos compromete com a conclusão de Guillebaud em seu belo ensaio sobre a necessária refundação do mundo atual: “O planeta Terra do futuro não está por ser descoberto: está por ser por nós criado  e inventado”.

                                                                               Maria Helena Kühner