NOVAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO :
UM DESAFIO EM ABERTO
Tudo começou há alguns anos, com um fato: Cinelândia, Rio de Janeiro. Meio-dia. Pessoas cruzando apressadas. No largo, um rapaz ao microfone grita aos quatro ventos notícias, denúncias, reivindicações, propostas. Justas. Necessárias. Não o ouvem. Sequer detêm o passo. Sem interesse. Sem curiosidade. Indiferença. A parábola bíblica me vem à mente: um homem saiu a semear em seu campo. Parte das sementes caiu sobre espinhos, que a sufocaram, outra parte sobre pedras, onde secaram… Onde, ali, a parte que cairia em chão fértil, capaz de fazê-la brotar?
Dias depois, um convite, que começo a transmitir: uma reunião com um tema que interessa a todos nós. Igual descaso: “Ah, nem vem! Eu não tenho mais saco pra esse negócio de reuniões, e debates, e falação… Ficar discutindo o quê? Esse blá-blá-blá não dá em nada mesmo”. Apatia? Indiferença? Desencanto?
Coincidentemente, estou nesse momento terminando para a Editora Bertrand Brasil a tradução de “A Força da Convicção”, de Jean-Claude Guillebaud, que abre a obra com uma afirmação/ constatação provocadora: “A grande metamorfose, o grande retorno – metanoia - já começou. Um novo mundo surgiu ante nossos olhos e estamos nos esforçando para nele viver. De um extremo a outro de Terra tudo parece ter mudado. Trazendo inquietação. A entrada de um novo milênio vem marcada por um medo difuso, que ainda procura palavras que consigam expressar o que provoca. Sim, pois nos faltam não só as palavras, mas também as idéias. Essa enorme movimentação antropológica representa uma dura prova para nossa capacidade de análise e afeta de imediato nossa linguagem (grifo nosso). Ameaçados, tanto interna quanto externamente, por perigos inéditos, confrontados com obscuras dominações, alarmados com violências imprevisíveis, envolvidos em mutações descontroladas, recorremos, na falta de outros, a conceitos que se tornaram frágeis. Os discursos políticos, diplomáticos ou estratégicos usam na maior parte das vezes retóricas cuja insuficiência confusamente percebemos.”
E o subtítulo da obra levanta a questão que vai permeá-la por inteiro: então, em que podemos ainda crer?
Seguindo meu hábito de fazer também a orelha dos livros que traduzo, inicio a deste com a inquietação que me perpassa: “Crer ou não crer poderia ser a dúvida de um novo Hamlet contemporâneo. De fato, os que buscam descrever o mundo em que vivemos são unânimes em apontar o desencantamento que estaria atingindo, inclusive, todas as instituições – Estado, Igrejas, Família, Escola, Justiça, etc. – e abrindo espaço a um individualismo tão exacerbado que solapa as bases da própria coesão social. Uns o chamam, alarmados, de “a era do vazio” ( será? ); outros buscam nele esboçar uma imagem (por vezes interessada ) de progresso e liberdade; terceiros se perguntam se já não há indícios (onde?) de uma “nova cultura” em gestação.
Ou será tudo isso e algo mais? Sublinhando o caos e a incerteza em que nos debatemos e os paradoxos – que parecem ser a marca de nosso tempo – essa descrença generalizada realmente ora resvala para credulidades as mais ingênuas, esoterismos, magias, superstições e crendices tolas, ora se petrifica em fundamentalismos e seitas que dão margem a atitudes das mais extremadas.
Mas, até pouco tempo atrás, as hoje chamadas de “geração da utopia” e “geração da ruptura”, isto é, todos os que lutaram por um mundo diferente e melhor, acreditavam que isso era possível: eram todos eles loucos, tolos, ou ingênuos, mesmo estando entre eles as melhores cabeças pensantes de nosso tempo?…”
É quando nos interrompe Nietzsche, vindo sussurrar baixinho ao nosso ouvido:“Todo fim é fogo e cinza, e incandescência de uma nova aurora.”
Metanoia, ecoa de novo Guillebaud. Metanóia ( meta-noein ): uma mudança fundamental na mente ou no caráter, uma conversão espiritual. Isto é, então, o fim e o princípio? Onde percebê-los? Como expressá-los? “No princípio era o Verbo”. O Verbo, que cria e esclarece: “E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita”.
Essas frases e idéias começam a martelar minha mente, em minha inquietação um ponto começa a luzir, piscante e contínuo, a despertar minha atenção. Se o homem é o “ser da linguagem”, se estamos no século da comunicação, por que estariam elas sendo vistas como algo incômodo, desnecessário e inútil? Tendo na palavra o elo e ponte permanente de meu ofício de escrever e falar, minha atenção se volta para o discurso, para a linguagem, para a pergunta que surge: que problemas estariam, então, existindo no discurso, nessa linguagem ou em sua forma de comunicação?
A partir da pergunta, vou descobrindo uma indiferença outra, menos aparente, mas igualmente preocupante: até que ponto a indiferença ( o descaso ) dos que hoje ouvem viria também da in-diferença ( da não-diferença ) dos discursos e da linguagem que os veicula?
O discurso atual
Pois no discurso político e/ou no discurso da mídia, e às vezes até em alguns dos mais bem intencionados projetos e planos de diferentes áreas, há preocupantes denominadores comuns:
- O econômico tornado eixo ou chave de tudo, o matiz econômico infiltrado até nas relações sociais e interpessoais: trata-se da questão cultural como de simples problema de distribuição de verbas; de uma questão de saúde como simples alocação de certa quantidade de remédios ou do número de leitos nos hospitais, fala-se em investir numa causa política, ou até em uma relação afetiva. A própria pessoa passa a ser vista apenas como “capital humano” e a força de trabalho humana ( man-power ) vai sendo englobada na expressão recursos humanos, que nega aos seres humanos sua existência individual para torná-los meros instrumentos de uso de um poder maior. Já houve quem dissesse, ironicamente, que hoje as boas ações já não são os gestos nobres do coração e sim as ações valorizadas na Bolsa, assim como é na Bolsa que ocorrem as chamadas crises de valores… Com menos graça, e demonstrando que não se trata de simples e inofensiva troca de palavras, cabe lembrar que os nazistas, em sua mudança diária de termos da língua alemã para sua propaganda, também usaram a expressão material humano ( menschenmateria ) e denominaram liquidação ( liquidieren ) os assassinatos cometidos como realização de lucro.
- Mas a fixação ao econômico, raiz dessa sociedade contemporânea alicerçada cada vez mais no número, acaba levando a algo que é impressionante ou até assustador: a uma forma de entrar em contato com o mundo apenas codificado em estatísticas, descrito em números, limitado ao quantitativo, ao técnico, ao que pode ser medido ou calculado, e, simultaneamente, fazendo passar por cima, ou ao largo, do que realmente acontece, criando uma relação outra com a realidade e a História, e gerando um olhar supostamente “neutro”, que não instiga mais a pensar.
Pois pensar ( a palavra vem de pensum, pendere) é sentir que é o peso das coisas que faz pender a balança para um lado ou para outro lado. Que a verdade não é um dado (algo recebido pronto) ou um fato (algo já feito), mas uma des-coberta; e para tal buscando romper com uma forma de conhecer invadida pelo interesse e pelo cálculo, para nela resgatar seu sentido original ( cognoscere=nascer com o que se conhece). Que a fixação ao econômico e ao número esquece que o texto ( de textum, tecere ) é um tecido de vários fios entrecruzados, e que palavra remete à parábola, à situação concreta que lhe dá origem. E o que estamos vendo em torno é que texto e palavra, mesmo quando não mistificados ou instrumentalizados pela propaganda, a mídia ou a política, servem apenas para enfileirar uma série de afirmações superficiais e esparsas, de “conclusões” mal alinhavadas sobre temas os mais diversos, que vão “fazendo a cabeça” da maioria ou sendo por ela repetida mecanicamente.
Quantos podem dizer que ainda sabem pensar? A preocupação com o por quê?, que busca razões ou fundamentos, com o para quê?, que indaga as finalidades do que se faz ou diz, com o será que?, que leva à busca de alternativas ou possibilidades, a escolher um rumo ou definir um objetivo – e liberdade é basicamente escolha - vêm dando lugar a um buscar ver apenas se algo é ou não “adequado”. Adequado: a palavra fala por si, com sua raiz em aequs, o igual, o uniforme, o nivelado, isto é, o que está sendo amoldado, posto dentro dos moldes ou modelos em voga, ou construído pelos interesses dos que mantêm o controle ou o poder. Com isso vemos as mesmas pessoas que são capazes de discutir apaixonadamente sobre o último jogo de futebol, ouvirem apáticas, indiferentes, ou com comentários superficiais e repetitivos as notícias das mortes diárias, dos assassinatos que já são rotina nas grandes cidades brasileiras. Morte e vida banalizadas, simples número ou estatística nos assépticos noticiários da mídia. Será que saber que 4.000 soldados americanos e cerca de 40.000 iraquianos já foram mortos nos diz o que é a guerra do Iraque?
“O fenômeno se torna menos surpreendente, porém, quando nos damos conta de que existe toda uma indústria de produção da invisibilidade e do consentimento”, na concisa e precisa definição de José Tadeu Arantes. Outros (Chomsky, por exemplo) têm igualmente denunciado esse consenso fabricado, mostrando ser deliberado e ligado ao controle social esse obscurecimento dos fatos que se considera típico do período pós-moderno. Mas as conseqüências dessa visão, e as diretrizes de ação dela decorrentes, são evidentes: submissão do social ao econômico, e do político ao técnico; desigualdades socialmente produzidas e politicamente reproduzidas; negação dos direitos de cidadania e das necessidades básicas dos excluídos; escandalosa concentração dos meios de comunicação, servindo aos interesses elitistas de uma sociedade de consumo. O que permite entender a observação da CNBB: “O povo brasileiro está vivendo em uma sociedade eticamente invertida. Uma sociedade que valoriza o capital em detrimento do ser humano. O sujeito é o capital e a pessoa humana torna-se mero instrumento para a realização deste sujeito.”
- Em nome de um alegado “realismo”, que se proclama “objetivo” e “lógico”, recorta-se a realidade para interpretá-la ou agir sobre ela, isolando artificialmente o econômico, o político, o social, o psicológico, dissociando e isolando as diferentes áreas que engloba a visão de qualquer problema humano. Instala-se uma divisão entre as chamadas ciências humanas e sociais e as ciências “puras” ou “naturais” ( como se o humano fosse não-natural, e em sua raiz, humus, não remetesse à fertilização do solo natural que fez brotar e crescer uma cultura ). Dissocia-se “cultura” da educação, da comunicação, da ciência e da tecnologia, estendendo um véu sobre o todo e mostrando apenas visões parciais da realidade, fragmentadas e estanques. O que não é gratuito: o recorte e a fragmentação servem não só à análise como à manipulação, pois é nesse espaço da interpretação que a ideologia se instala, ora insidiosa, ora descarada. “Divide para dominar”, já aconselhava Maquiavel a seu príncipe há 400 anos, pois a fragmentação tem papel importante em uma estratégia de dominação e manipulação.
- Abstraem-se, assim, as situações e os seres humanos de seu contexto natural e histórico, a linguagem se cristaliza em substantivos ou expressões abstratas e genéricas (“modernidade, produtividade, eficácia, globalização, democracia, liberdade, bem-estar, cidadania, direitos humanos etc.etc.”), ou se mantém permeada de chavões, de estatísticas, de siglas, de eufemismos e frases feitas do jargão mais vulgar, destinadas a colar nas mentes, à maneira da propaganda mercadológica, os lugares-comuns do discurso expert (“o desemprego é conseqüência inevitável da modernização…”), os mitos atuais (o “progresso tecnológico”, religião destes tempos), em repetidas e rarefeitas expressões que vão alinhavando idéias e cunhando expressões que passam a ter o valor de chaves mágicas que supostamente tudo explicariam ( a “luta contra o terrorismo” tentando legitimar guerras para a posse de matérias-primas ou o controle de áreas estratégicas ).
- Quando algum fato mais evidente ou contundente (a guinada russa, as crises mexicana e argentina), qual raio iluminando súbito desvãos cuidadosamente escondidos, desvela máscaras e situações, ou quando se trata de impor interpretações e até projetos e planos, imediatamente a linguagem se torna mais “técnica”, mais hermética, e surge outro recurso também permanente: o apelo à Autoridade ( do especialista ou do cargo de quem enuncia ), fundamento básico de uma sociedade hierarquizante, vertical e autoritária. E essa autoridade é devidamente colocada em seu elevado pedestal, para afirmar, por exemplo, que “na Bolsa a análise das convergências no sentido do equilíbrio utiliza o mesmo tipo de equações dos modelos metereológicos” – equações, obviamente, inacessíveis a nós, pobres mortais, por seu alto nível matemático, mas que vêm corroboradas por estatísticas, dados, taxas, números e somas impossíveis de serem verificadas, e que deixam no leitor ou ouvinte a sensação de que “eu não entendo nada disso, eles é que sabem e que têm que resolver…”
Com essa palavra abstrata, esta palavra esvaziada de sentido ( democracia, hoje?) esta palavra mistificada ( a transparência do mercado?…), esta palavra intelectualizada e autoritária, vão vendendo seu peixe, mesmo quando cinicamente desmentem hoje o que há dias enfaticamente afirmavam, ou quando omitem informações que os denunciariam ( não é à toa que a mídia, em todos os países, hoje se concentra em poucas mãos ).
E Pilatos faz escola
O que permite, por outro lado, que, sem má consciência nem culpa, uma maioria possa lavar as mãos, eximir-se de suas responsabilidades em relação à sociedade em que vive e seus problemas. Essa palavra esvaziada, conotada, instrumentalizada – e por isso objeto de indiferença e descrédito – pode até fazer esquecer a famosa frase de Bertrand Russell: “Nós somos, todos, responsáveis por Auschwitz. Não conseguimos evitá-lo. E o condenamos demasiado tarde”. Só que hoje, se as condenações ou as iniciativas forem tardias, se não assumirmos a responsabilidade que nos cabe diante dos problemas com que nos defrontamos, afetando a vida – ou a morte – de populações inteiras, o que pode estar em risco é a possibilidade de um futuro com horizontes para toda a humanidade.
- O que faz com que qualquer decisão de transformação implique, também no campo da informação e da comunicação, em atuar contra o processo de concentração x exclusão ou marginalização de nossa sociedade, que só é social no consumo, não o é no saber ou no poder. Não só recusando ou denunciando essas formas e linguagem, como buscando abrir caminhos que possam levar a socializar o conhecimento e estimular a inclusão. Entendendo como se deu na cultura esse processo de concentração progressiva, que atitude intelectual a ele corresponde, que modelo de relação homem-mundo estabelece, a que método corresponde tal relação. Entendendo o que é o conhecimento, e porque, hoje, ele só será realmente alternativo ou inovador se partir de uma mudança de atitude, pois só esta sendo alterada poderá transformar-se o tipo de conhecimento, abrindo espaço para a recuperação de seu sentido real. (*)
(*) Desenvolvemos esses tópicos no livro “Teatro–Espelho e Resposta”, escrito em co-autoria com Gilberto Kühner. Ed. Trampo, RJ, 1989, registrando o trabalho realizado no Morro da Mangueira, no RJ, e que foi considerado no Congresso do CEAAL, em Guanajuato, no México, um dos melhores trabalhos de ação cultural comunitária da América Latina. O trecho correspondente ao que foi aqui mencionado está reproduzido na íntegra no Anexo nº 1, ao final.
Pois o que inquieta ou impressiona é ver os que sinceramente querem ou dizem querer modificar essa (des)ordem social mistificada e manipuladora, tendo a mesma atitude intelectual ( conhecer para agir, agir para controlar, ter poder sobre ); atitude que se serve do mesmo método – dominar, pelo pensamento, determinado campo de conhecimento - interessados basicamente em definir meios, estratégias e táticas; atitude que mantém ( e até legitima) um modelo mecanicista de relação homem-mundo, que fez da lógica a medida do ser e do discurso racional sua expressão. Inquieta porque o problema da lógica não é seu discurso, este já é conseqüência e, desde o Górgias, Sócrates o explicita: a arte do discurso dá a seu possuidor “o dom de impor sua vontade à sociedade”. O problema da lógica, nem sempre evidente, é sua finalidade: o controle – da produção, da linguagem, da sociedade, do mistério. Não é por acaso que a linguagem enfatiza e propagandeia a ciência e a tecnologia, o progresso na ordem das coisas e só trata o social em termos genéricos e abstratos.
Mas, se não é o domínio das coisas, é o ser humano, a vida humana, o centro de referência dos que lutam por um mundo diferente e melhor, por que essa in-diferenciação de atitude, de método, de modelo? Estaríamos caindo na cilada da simples contestação crítica – que, ao negar, afirma dialeticamente o negado? ( Falem mal, mas falem de mim, já dizia Napoleão…) Mudam-se termos e expressões, mas permanece o econômico como eixo, tal como permanece a abstração de base, na qual a própria economia, que surgiu como gestão da casa ( eco-nomos ) perde a concretude desta casa-mundo que é hoje tudo menos morada e abrigo para a grande parte dos homens. Permanece o apelo à autoridade como forma de persuasão, o dado como prova de “exatidão” do dito. O discurso mostra igualmente um mundo apreendido através do método, da ordem, da medida: exibe-se “a lógica do capital” usando os mesmos números e as mesmas informações, trabalhando as mesmas características, mantendo por vezes uma mesma linguagem “cientificista”, embora agora falando da “nova ordem” do capital, ou afirmando publicamente que “a crise do capitalismo precisa ter solução urgente, senão, dada a mundialização do capital, ficam ameaçados todos os valores societários e democráticos e põe-se em risco o futuro das sociedades humanas” ( a frase é do megaespeculador George Soros…). Ou que se alardeie um “liberalismo solidário” ou o “compromisso com o futuro das sociedades humanas” em países que neste momento mesmo clamam racista e xenofobamente por impedimentos à imigração. Ou que de ambos os lados se afirme que esta linguagem “científica” é a do nosso século porque é preciso “demitizar” o mundo – no momento mesmo em que proliferam mitos contemporâneos ( até a própria globalização e suas vantagens), com que se supõe explicar o positivo e o negativo das coisas, sem dizer que o “progresso”, tal como se dá, é também uma desumanização. Goethe foi muito feliz ao criar seu personagem: em sua ânsia de um poder e um saber absolutos o que Fausto perde, ou vende, é sua própria alma.
I-nova-ação: um desafio
Que diferença há entre dizer os sem-terra, os sem-teto e falar em comunidades carentes ou usar o horrível termo des-favor-ecidos – que escamoteia em favor aquilo que é um direito? Será que falar em globalização, desregulamentação, flexibilização do trabalho, marginalização, cidadania, direitos humanos nos traz à mente seu significado vivo, real e humano, nos traz à consciência, por exemplo,
“…este homem velho, consumido, vencido, maltratado, esgotado, há tanto tempo aterrorizado, há tanto tempo oprimido que já nem mendiga mais. Esse olhar tão velho que a miséria incrusta até nos rostos jovens, até nos bebês. Rostos desses bebês de tantos continentes, em tempo de fome, bebês com rostos de velhos, com rostos de Auschwitz, lançados na privação, no sofrimento, na agonia imediata e que parecem saber e sempre terem sabido tudo de nossa história, mais sábios que todos sobre a ciência dos séculos, como se já tivessem experimentado tudo desse mundo que os expulsa.
Olhares de adultos pobres e de velhos pobres – mas será que ainda podemos decidir suas idades? Olhares ainda mais insustentáveis quando, como acontece, neles ainda sobrevive alguma esperança. (…….). Há alguém que revisite esse tempo de uma lentidão insidiosa durante o qual se transformou num daqueles que, embora olhados, embora escutados, não são vistos, não são ouvidos, e, mais que isso, se calam? Daqueles que ninguém “considera” nem reconhece, a não ser como fantasmas folclóricos, que não têm direito à carne das palavras, só a siglas, a espectros de palavras, ou então, a nada.”
A carne das palavras, em vez de apenas siglas, espectros de palavras, ou nada. Quando Viviane Forrester escreveu O Horror Econômico e optou por tratar assim aquelas questões, espantou a muitos por obter edições sucessivas e traduções para 12 línguas. E não faltou a crítica de intelectuais, incluso dos que se dizem seus pares:
“Os economistas reagiram relativamente pouco à publicação de O Horror Econômico e seu impacto sobre o grande público. Esse relativo silêncio permite supor, desde a desaprovação geral à indiferença, salvo o sentimento de boa parte deles, isto é, dos que se situam no mesmo terreno de Viviane Forrester, mas em outra esfera intelectual.” E é do alto dessa “outra esfera intelectual” que Jacques Généreux a critica em seu Une Raison d’esperer ( O Horror Político, Ed. Bertrand Brasil ) que, inexplicavelmente ( ?…), não obtém um décimo da repercussão de Viviane. Por que será?…
Como livrar-nos dessa herança cultural, dessa cultura que, ao instalar o “movimento anti-Natureza” ( Sartre ) gerou aquela visão das coisas, do mundo e do próprio homem, visão dualista, fragmentada, mecanicista, autoritária, refutada na teoria, mas ainda dominando um pensar que pretendeu absorver todo o existir ( Descartes ) ? Um pensar que ainda se faz por conceitos ou idéias que muitas vezes incorporaram pré-conceitos ( consciência= cum+scientia ) ou deformações ao longo do percurso ( quem hoje diria que autoridade vem de autor, isto é, aquele que gera, que fecunda, faz nascer?) Um pensar que omite ou se esquece que, como acima assinalamos, é o peso das coisas que faz a balança pender ( pensum-pendere), inclinar-se para um lado ou para o outro. Que a realidade remete à coisa concreta (res) que está à sua base. Que a palavra traz em si a parábola, a situação concreta que lhe deu origem. Que solidariedade não é mero conceito e tem à sua raiz o soldar, unir por derreter elementos e assim tornar sólido. Que companheirismo não pode ser mecânico jargão que esqueça que companheiro < cum panis, os que partilham o pão e sabem da fome quando ele deixa de ser o pão nosso de cada dia. Será que não é possível um re-trato dessa paisagem humana, que tem na linguagem seu meio de ex-pressão, trazendo para o ex-terior a pressão internamente vivida? Será que não é possível, e necessário, e urgente, mudar nossa forma de pensar, de sentir, de expressar-nos, incorporando nossos sent-idos, nosso sent-imento, que dão a nossa caminhada seu sent-ido, ou seja, seu significado e direção?
Quando fiz teatro com operários de uma fábrica e depois com favelados (décadas de 70 e 80) aprendi com eles uma maneira outra de ver e de pensar, a partir da experiência e da prática. Aprendi que um texto que diz nós é um tecido ( textum < tecere=tecer ) de múltiplos fios, e que a pergunta que cada um se fazia no debate final – o que é que EU tenho a ver com tudo que foi visto e ouvido? – entretecia diferenças e semelhanças para chegar ao ser-em-comum, a uma comun-icação que falasse de todos, por todos, para todos ( e que desvelava também a violência desta sociedade em que só fala “a voz do dono”). Compreendi por que a música, com sua carga emocional e viva, é sua mais freqüente forma de expressão, catártica e agregadora ( mesmo que por si só apenas ponto de partida, e não de chegada ou horizonte maior). Experimentei e redescobri a importância de pro-vocar, de trazer à tona, fazer surgir a voz, a palavra, e até o grito, o não-dito, o vazio, o silêncio. Reaprendi com eles, vivendo, a riqueza e valor da experiência.
Experiência < ex-per-ire, o que se extrai (ex) do caminho por (per) onde se vai. Experiência que não remete a um método e sim a uma história. Pois se o mét-od-o fala de caminho (od), fala também de distância e medida (met). Ao passo que se história (pessoal e/ou coletiva ) e sabedoria têm a mesma raiz ( que o inglês guarda em wisdom ) é porque nessa história o passado são os passos de um caminhar, de um corpo que se move, com tudo que o com-move – incluso a cultura in-corpo-rada em uma trajetória marcada por um sentido, um sentido que é não só significado, mas também orientação, direção, mesmo que não impeça a errância, o erro possível nas tentativas que marcam os passos desse humano caminhar.
Caminhar que marca cada situação concreta, cada ponto do caminho, o ponto de vista do qual se olha. É totalmente diversa, por exemplo, uma notícia dada com a aparente neutralidade e impessoalidade de um jornal impresso ou televisado – “A polícia entrou no morrro e prendeu dois traficantes” – do espanto e medo do relato da criança ou do adolescente que viu a porta de seu barraco empurrada por uma bota, viu sua casa invadida quando tomava seu café da manhã, ouviu ordens e gritos, e viu um fuzil para ele apontado. Um relato muda radicalmente quando o ponto de vista é o de quem vive a situação, sobretudo quando na condição de vítima: sua fala vem fragmentada, insegura, duvidando das intenções de quem o/a pressiona ou até mesmo machuca, tentando, ao falar, entender, dar um sentido ao que aconteceu ou acontece. Por isso não tem de imediato um nexo, uma articulação temporal ou causal, ora falando em 1ª pessoa, ora em 3ª pessoa, ora narrando, ora descrevendo, misturando dados importantes e supérfluos, aludindo a sons, cheiros, cores, ao que sua memória registrou e dá conta de uma experiência tal como foi vivida.
Mas é também por isso que Agnes Heller (“Uma Teoria da História”) enfatiza que nós precisamos contar histórias, contar o que nos aconteceu ou acontece, o que vimos ao passar hoje pela esquina da rua. ou o que vivemos alguns anos atrás: ao contar, muitas vezes estamos tentando não só expressar o que nos impressionou, ou marcou, mas também entender, dar um sentido ao que aconteceu, ao que vimos, ouvimos, vivemos. Quem fala, fala porque é um ser humano, fala para denunciar, para partilhar uma emoção, para registrar um momento, para não perder de vista o que é mais importante em determinada situação … mas fala também para saber-se e sentir-se gente.
Na experiência narrada, na situação concreta descrita, surge o ponto de vista do qual se olha. Por isso, marca um lugar a partir do qual se pode fincar o pé e tomar posição.
Um lugar que é também o lugar da fala. Diferentes movimentos sociais se iniciaram sobretudo a partir da década de 1960, ( de mulheres, de negros, de comunidades, e outros) como formas pelas quais a chamada “sociedade civil” veio buscando organizar-se, agregar-se em grupos e associações, para fazer ouvir sua voz, dar significação e força a sua expressão. Começaram perguntando-se quem sou eu? buscando re-conhecer a própria identidade. Personalizando, em vez de abstrair e generalizar, sabendo, ou intuindo, que o que digo quando falo eu, minha história própria e particular, é minha forma de chegar ao mais geral, que só o eu diz, e que o diá-logo já será a fala outra, em que se descobre o outro como socius, ou aliado, diferente e semelhante, parceiro na formação da sociedade . Tentando fazer da verdade não um dado (algo recebido pronto) ou um fato (algo já feito), mas uma des-coberta; e para tal buscando romper com a forma anterior de conhecer, invadida pelo interesse e pelo cálculo, para nela resgatar seu sentido original (cognoscere=nascer com o que se conhece). Negando-se a serem normal-izados pela retórica vigente ( e sua persuasão ) e pelo controle social que impõe papéis, comportamentos e valores – persuasão e controle que são as molas-mestras de um pseudo-conhecimento ( pseudo porque desempenha todas as funções, só não realiza nascimentos!)
Experiência que é também diferente da tecnociência e seu discurso, sobretudo o atual, que, quando não reduz ao silêncio, impede a fala, anulando-a sob um geral que atropela a diferença, ou mistificando-a em um falar por ou falar sobre, autoritário e tutorial, ou usando-a para legitimar hierarquias e dominação. Experiência que se dá, portanto, na linguagem, pela linguagem e como linguagem: é preciso falar e isto só se aprende falando. Que na linguagem e pela linguagem cada eu se insere não só em um contexto com o qual se comunica e onde também se identifica, como supera a fragilidade do instante ( é para durar que falamos ), insere-se no tempo, em um passado, que é memória – para o resgate de dimensões perdidas no caminho, juntando razão + experiência para tornar-nos humanamente inteiros – em um passado que é também história, e um futuro que é o desejo de ser mais, de suprir a própria falta ( o que muitos ainda tentam com uma acumulação ininterrupta e voraz ) e abrir-nos às descobertas do por-vir.
A sedução do novo, que o marketing explora provocando e manipulando o desejo da novidade pela novidade, revelou-se com toda a sua força na explosiva e luminosa saudação ao novo milênio. Novo é o que ainda não se conhece. Mas ao ressaltar o gesto espontâneo do processo de conhecer assinalamos também seu peso e sua gravidade: a liberdade é um caminhar que se desdobra e se revela nessa “nascimentos”. E o novo pode ser, também, um retorno às origens para buscar o sentido e significado desse caminhar.
Por isso viemos brincando com as palavras. Buscando re-des-cobrir, na palavra, sua força de re-ligação. No princípio era o Verbo. Algo que foi biblicamente válido para o Criador (“E Deus disse: faça-se a luz!”). E é igualmente válido para todos nós, criaturas, criadores, seres da linguagem, desafiados a provar que “um outro mundo é possível”.
Uma das formas possíveis: o Teatro
Essas considerações teóricas podem ser exemplificadas com tentativas já realizadas de chegar a uma forma de comunicação capaz de ser significante, expressiva e mobilizadora. Ao relembrar a experiência e a prática já vistas, o que de imediato me ocorreu também foi o show Opinião, o primeiro protesto teatral contra a ditadura militar instalada no país em 1964, e que foi considerado um espetáculo marcante e inovador. Um de meus últimos livros, Opinião, escrito em parceria com a jornalista Helena Rocha ( que levantou todo o clipping final ), por encomenda do RioArte e da Editora Relume-Dumará, retrata as décadas de 1960 a 1990 e, nela, toda a trajetória do grupo e com especial atenção, a estrutura do espetáculo, tão simples e significativo: em um palco, três pessoas, em seus trajes cotidianos, falam de suas vidas, de suas lembranças mais marcantes e cantam suas músicas. O que haveria de novo nisso? No livro o analisamos em detalhe, a partir da idéia do que significa como testemunho, do que representa um testemunho ou testemunha; de como o testemunho dramatiza todo um processo; de como a testemunha se torna agente desse processo que, se adequadamente realizado, torna-se um testemunho-de-vida, que vai trabalhar não só o lado intelectual como o lado afetivo e emocional do espectador, e vai abranger uma dimensão ética e política igualmente importante. Por sua verdade, embora tendo sido concebido como uma forma de resistência, conseguiu com ela o re-existere que traz da sombra dimensões esquecidas. Que dimensões seriam estas?
Cada evento – e sobretudo o evento dramático – resgata uma experiência original. O que vêm fazendo Grotowski, Peter Brook, Kantor e outros em sua escrita cênica é buscar essa experiência fundante em toda a sua concretude e originalidade, investigando todas e cada uma das relações teatrais – o tema, o ator, o diretor, o público – trabalhando o verbal e o não-verbal que as compõem – corpo, gesto, som, ruído, vibração, música… Kantor chega a afirmar que teatro não é um espetáculo, ou seja, algo para os olhos, a ser simplesmente “olhado”, e sim algo a ser vivido, concretamente, com as coisas acontecendo como pela primeira vez, estabelecendo com cada espectador um campo de tensões, a ser experimentado como uma ação perturbadora.
Não é exagero. Ele assim nos faz lembrar que te-atrium significa lugar de ver. De um ver que ultrapasse o olhar superficial e disperso que solicitam tantas coisas que ainda nos apresentam atualmente sob o rótulo de “teatro”. Ao longo dos séculos o teatro nos fez ver o homem em situação na cena do mundo: mostrou-nos uma Antígona se confrontando, altiva, com a arrogância do poderoso governante Creonte, denunciou os Tartufos que criam com seu cinismo e hipocrisia uma falsa consciência, fez ouvir o coro de vozes que alertam a cidade, trouxe um Prometeu capaz de aquecer e iluminar os seres humanos com o fogo de sua palavra, anunciando tempos melhores por vir.
Foi com essas preocupações e inquietação que vim também desenvolvendo, nos últimos anos, por iniciativa própria ou em resposta a solicitações recebidas, pequenos trabalhos que, visaram retratar, difundir e/ou apoiar diferentes movimentos sócio-culturais em curso. ( Cfr. a introdução de cada texto). Neles uso variadas formas teatrais, experimentando as mais diversas, e testando sua validade em apresentações realizadas nos mais diferentes lugares e momentos, em ruas ou praças, ou em escolas, universidades, associações, salões paroquiais, clubes etc., sob forma de espetáculo popular ou até mesmo como simples leitura dramatizada.
São textos que não se vêem como um produto final, mas como provocação ou abertura a debates sobre questões fundamentais – a descoberta do “outro” ( desafio trazido pelo mundo plural e diversificado da globalização ), as relações de cor, de gênero, os fundamentos históricos e políticos da sociedade atual e os diferentes mecanismos que por vezes limitam a capacidade de compreender ou de agir em favor de uma sociedade diferente, menos produtivista, intensiva, poluente, desumanizadora, a sociedade que as transformações em curso possibilitam ou exigem. A idéia de reuni-los aqui visa não só ampliar essas intenções – uma vez que os temas, situações e movimentos enfocados estão ainda em curso – como servir de sugestão, ou simples exemplificação das inúmeras formas que podem ser utilizadas para espelhar e analisar nosso momento e nossa realidade e, sobretudo, o sentido das transformações que aí se processam. Outros textos curtos, mais circunstanciais, foram aqui deixados de lado, mas apenas nos comprovaram, ao serem apresentados, a possível validade dessa forma “teatralizada” de comunicação: “Como era gostosa a minha Urna” ( ligado à Campanha das “Diretas Já”), ou “A Dívida E(x)terna”, para o Plesbiscito da Dívida realizado em 2000 etc.etc. Igual comprovação tivemos com o Programa “É por aí?”, veiculado na Rádio Tamoio/RJ e a seguir em 132 rádios católicas do país, ao longo de 2 anos, com a mesma estrutura: dramatização de uma experiência vivida ou ficcional sobre temas básicos do social ( desemprego, participação ou omissão, direitos ou “favores”, conflitos de gerações, as diferentes formas de violência invisível e cotidiana pelas quais é possível destruir o “outro” sem que haja uma gota de sangue ou um gesto mais ostensivo e brutal etc.etc.), seguidas de debates abertos a respeito e de depoimentos de especialistas da área em foco.
Formas de comunicação que são, portanto, empregadas em nome de uma finalidade maior: a de incentivar as pessoas a pensar por si e a acreditar em si mesmas. Formas de comunicação que todos nós, criadores, seres da linguagem, estamos desafiados a inventar para buscar superar a rigidez da apatia e do desencanto. Pois se teatro é transgressão e consciência ( tão bom se isto não fosse tantas vezes esquecido! ) é necessariamente algo capaz de levar a um des-envolvimento, a uma forma de livrar-nos de uma maneira cristalizada de ver e pensar, a buscar uma outra atitude, trabalhando no sentido acima apontado para superar o que ora nos limita, e a fazer ver e/ou inventar o mundo novo e melhor que nossa falta e nosso desejo nos fazem sonhar e buscar.

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