NOSSOS DESAFIOS,  HOJE ( II )

                                                                     Maria Helena Kühner

 

Ao atingimos após-modernidade (ou modernidade baixa ou tardia), o quadro já se mostra bem diferente.

 

Na expansão do espaço a ruptura de fronteiras ampliou o espaço humano aos limites do planeta e projetou sua inserção em um espaço sideral, um cosmos de proporções infinitas. A globalização, de eixo econômico e concentrador, se ampliou o potencial de ação, também provocou desequilíbrios e crises, expôs desigualdades, exibiu a não-inclusão e a exclusão de que se fez, provocou a visibilidade e a expressão dos antes marginalizados – que, com a ampliação dos meios, da informática e da comunicação, por obra da ciência e da tecnologia, ora se fazem ouvir em todos os pontos do planeta.

 

A pluralidade e diversidade de vozes que daí decorre não só acentuam a crescente complexidade das relações, como a de pontos de vista, e apontam para um interdependência que interliga povos e nações. O que leva a uma multiculturalidade ou hibridização de culturas – que também atiça fundamentalismos e dogmatismos de várias ordens.

 

Se a busca de racionalidade do conhecimento (na ciência) e de eficiência (na produção) persiste como meios de organização e controle desse mundo acrescido em suas dimensões e complexidade, surgem também questionamentos vários. O TEMPO, antes encarnado no Cronos devorador dos próprios filhos ou a seguir apresentado como linearidade e sucessão, muda de sentido, pois lógicas que excedem a razão dão origem a rupturas e fragmentação, e, com elas, à busca de uma racionalidade alternativa, mais aberta ou mesmo contraditorial. A História deixa de ser vista como sucessão de eventos ou acontecimentos, disputas entre vencidos e vencedores por estes registrada, e voltada para o futuro e o progresso (palavras-chave da modernidade). O que induz a uma leitura outra do passado, em termos de memória, nele buscando as sendas transversas que conduziram a descaminhos e perdas, ou as clareiras inesperadas que iluminaram novos percursos.

E se Mnemósine, como lembram os gregos, é a rainha das Musas, nessa leitura  buscando bússolas para a invenção e a criação que se mostram cada vez mais urgentes e necessárias. Pois em uma ordem em que economia e seus interesses de mercado, lucro e consumo, a preocupação de ter e manter, se tornam as finalidades mesmas da ação e determinantes até das próprias relações sociais e culturais, esses mesmos interesses alicerçam apenas a repetição, a reiteração, a renovação, instrumentalizadas na mídia, no virtual, nas clonagens, nas “modas’, no reprocessamento de tudo e de todos, em suma, em um mundo em tudo é “produzido” (no sentido original do termo, de producere= fazer aparecer, tornar visível) pelos discursos, “modelando” assim até mesmo identidades e valores, padronizando e massificando.

 

Mas, se mantido apenas como um repetidor passivo, o ser humano não será capaz de enfrentar os desafios trazidos por transformações que exigem a criação, a invenão, a inovação. As grandes narrativas totalizadoras e universalizantes (que desembocaram na ilusão de um “pensamento único” e dominante) não se mostram capazes de descrever este mundo em acelerada mudança, diversificado e plural, que em tudo se mostra volátil e veloz.

O que faz surgir a exigência de uma mudança de atitude, resgatando dimensões esquecidas: a experiência ( ex-per-ire, o que se extraí do caminho por onde se vai) que faz, do passado, passos de um corpo que se move, com tudo que o com-move, registra  o ponto de vista de quem vive a situação, ou seja dela dá conta tal como foi vivida.  Ou a percepção sensível: diante de uma flor ou de uma paisagem posso apenas acolhê-las em sua realidade e beleza sem me perguntar se vão me ser “úteis” ou o que posso “fazer com” elas. Ou pela intuição apenas receber, ver, ouvir, sentir, conhecer o real em sua realidade mesma, percebê-lo como que “de dentro”, mergulhando em seu movimento, sem participação direta dos sentidos ou da razão. Ou, enfim, desligando da idéia de que “conhecer é poder”, e da cumplicidade com uma “modernização” associada ao saber tecnológico e agenciador da globalização, retornar ao sentido original do termo, fazer do conhecer um cognoscere =nascer com libertador do pensamento e visão.

 

Reinserido no mundo que cresceu em seu redor e o envolve, o ser humano sente esse entorno como seu meio ambiente, mundo-Natureza, de novo um espaço vital que seu des-envolvimento não pode destruir sob pena de destruir a si mesmo – como demonstraram os aspectos predatórios de suas ações de exploração, conquista e dominação que hoje vê como des-naturados.

 

A busca de uma religação com a Natureza é também uma religação com a sua natureza, com o que nele existe de natural, inato, espontâneo, com o corpo, com seus instintos, impulsos, sensações, com um “inconsciente” que sua ciência mesma (psicanálise) pôs em foco. Religação que resgata igualmente a necessidade dos afetos (sentimentos, emoções, estados de alma, laços que unem), e o leva a redescobrir que o humano não é apenas um ser de contatos, mas um ser de re-laç-ões, com poder de afetar e ser afetado pelo Outro. Por esse Outro acrescido em valor e importância em um mundo em que a socialização é imperativa até mesmo para a realização de tarefas que ultrapassam as possibilidades individuais; em que a pluralidade aponta para o reconhecimento e aceitação das diferenças – não mais como tentativa de legitimar pretensas “superioridades” geradoras de hierarquias e autoritarismos (patrão/empregado, homem/mulher etc.), mas como potencial de troca e crescimento; em que a ânsia de posse, domínio e controle que a tudo atropelaram ora se vê confrontada com a exigência de uma ética - que é, sobretudo, atenção ao ponto de vista do Outro e à possibilidade de conciliar organização, direitos e liberdade.

 

Religação que desloca o foco unilateral nos meios e métodos para dar atenção aos mediadores, recolocando o ser humano no centro e na cena do mundo.

Na indústria cultural, o mercado como mediador perverteu as demandas e se mostrou incapaz de criar vínculos societários geradores da necessária inovação social.  

Para os gregos a palavra scholé, de que se originou a palavra escola em todas as línguas ( al.schule, ing.school, fr.école ,etc.) não designava o lugar de aprendizagem, estudo e pesquisa que lhe deu o sentido moderno. A palavra scholé significava… ócio. Que experiência ela oferecia para dar ao ócio esse sentido e profundidade – que se mantêm na expressão ócio criador que conota o trabalho dos artistas? Por que o negócio, sua negação (nec-otium=o não-ócio) se tornou a raiz mesma de um tempo em que tudo é, e visa, apenas a produção? Será que este nosso tempo veloz e voraz não estaria novamente exigindo esse ócio, parada, vagar, re-pouso? Será que, para não sermos engolidos por esse “negócio” consumidor, não precisamos afastar-nos dos desvarios do “progresso”, do desempenho, da velocidade, das idéias fixas de dinheiro e posição social, para buscarmos uma nova Paidéia, que reúna conhecimentos, artes e formação do caráter? Pois a que esse ócio pode conduzir fala a expressão grega que define o teatro como “a escola de todos os cidadãos”, por induzir à re-flexão, a um voltar sobre si mesmo para se re-conhecer e re-ver, cidadão, seu lugar na cena do mundo.

Para um retorno à liberdade de criação humana do ser humano, que faz do próprio ser humano um projeto, não determinado, mas capaz de criar a si mesmo e definir seus caminhos. Recuperando, nesse retorno, essa força, essa energia maravilhosa que tudo movimenta e a que chamamos simplesmente de Vida.