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                                                                               Maria Helena Kühner

O filme começa de forma estranha e inusitada: closes de um rosto feminino, takes longos e cenas em câmara lenta parecem sugerir ao espectador que atente aos detalhes, pois este filme diz mais do que parece dizer à primeira vista.

Abre-se a primeira parte: cenas de um casamento, com todos os seus rituais em relação aos noivos e convidados, uma visível preocupação em ostentar luxo e riqueza, e em atender aos  melhores padrões de consumo estabelecidos para o evento. Apenas a figura um tanto fora de contexto de uma mãe da noiva mal humorada e crítica, e um pai, dela separado, para quem todas as mulheres são Betty, dão um toque um tanto dissonante. Mas a noiva repete seguidamente: “Estou feliz, estou feliz, estou feliz”, com um sorriso permanente sublinhando a frase. Frase que a ambientação e ação parecem fundamentar, pois exibem todos os fatores de sucesso da sociedade atual: ela é bonita, rica, tem uma carreira bem sucedida no aplaudido mercado da publicidade, acaba de ser promovida ao cargo de diretora da arte por um chefe que a elogia e prestigia (mesmo dela exija decisões como a de promover ou destruir um jovem e ansioso novo funcionário contratado), e está se casando com jovem igualmente bonito, promissor e que a ama. Os breves momentos em que ela se afasta e detém um olhar perdido em planeta distante ou nos milhões de galáxias do universo, ou em que se afasta de todos e se fecha em um quarto para descansar, ou em que se deixa levar por súbito impulso de fazer sexo com o jovem funcionário cujo destino está em suas mãos, parecem apenas isso: detalhes ou momentos, mesmo, frutos talvez do cansaço e do rebuliço em torno. Embora já soe estranho ouvi-la dizer, em uma dessas pausas, que “um fio de linha cinzenta sobre sua perna pode paralisar seu andar”.

A estranheza vira surpresa quando, embora ainda e sempre repetindo “Eu sorrio, eu sorrio, eu sorrio”, ela se volta para o noivo e diz que “não vai conseguir” – encerrando assim o casamento apenas iniciado. E a seguir anuncia a seu poderoso chefe – ícone típico da sociedade ali exibida com todos os seus “valores”: “Sabe o que você significa para mim? Nada. Apenas isso: nada”.

 

Na segunda parte a ação se centra na ameaça próxima, de o planeta visto no céu, e que tem o significativo nome de Melancolia, colidir com a Terra e acabar com toda a vida nela existente – que, se começou com um Big Bang, ora pode acabar do mesmo modo.

Diante dessa ameaça de Morte – presença inescapável em toda vida humana – que fazer? Tentar fugir, em escapismo inútil? Deixar-se arrasar pela “melancolia” e sua depressão suicida? Ou, com elementos buscados na natureza, construir a frágil “caverna mágica” dos afetos e emoções, e nela, unindo as mãos em solidário gesto, buscar o frágil abrigo possível?

Meio ambiente e solidariedade – é o que ainda nos resta?

Num mundo em que a aceleração de um tempo cada mais veloz e voraz deixa pouco espaço à reflexão, à parada e pouso sempre necessários, o cineasta nos coloca diante da necessidade de rever os valores que nos são oferecidos e confrontá-los com uma pergunta fundamental,  e que, em momentos e tons diversos, tem sido recorrente na trajetória da humanidade no planeta Terra: no breve espaço de nossa vida humana,  o que dá sentido à vida? O que nela é realmente importante, não para o impossível sonho humano de eternidade, de escapar da morte, mas para dar sentido e significado a esse breve tempo que chamamos Vida?

Pergunta que ainda e sempre merecem nossa atenção e reflexão.

 

             

                                                                                 Maria Helena Kühner

Em Encruzilhadas: encontros e oposições nos cordéis de Manoel Pereira Sobrinho, a autora Fabiana Coelho demonstra reais qualidades de ensaísta, ou seja, de alguém que sabe apresentar um tema com um ponto de vista próprio e bem fundamentado.

Ao falar dos folhetos de cordel desse autor ela não se limita a dar a conhecer (o que já seria válido) esse cordelista que se mostra capaz não só de criar novas histórias com temas recorrentes na oralidade nordestina, como de recriar outras, de consagrados poetas mais antigos, com nova e rica fabulação. A leitura que Fabiana faz de sua obra abrange todos os sentidos da palavra ler: ela não só recolhe ou reúne folhetos, inclusive inéditos, pertencentes ao acervo da antiga editora Luzeiro do Norte, como escolhe ou elege os 38 que serão objeto de citação, outros 26 que serão analisados, e ainda 24 mais que serão consultados, para, com esse rico material, percorrer mitos, lendas e histórias que desde os tempos mitológicos compõem o imaginário, o simbólico e o real neles expresso, e neles assinalar o que há de vivido e estruturador de todo um caminhar humano. Um caminhar visto como um espaço em movimento, sempre in-produção e in-conclusão, encruzilhadas de caminhos incertos, provisórios, levando a separações e perdas, mas também abrindo a novos caminhos.

Quatro “encruzilhadas” marcam o trabalho, os encontros e separações que desenham identidades e diferenças: de gênero (homem/mulher), de classes sociais (rico/pobre), de nações (nativo/estrangeiro), de tempos (do passado ao futuro, e entre eles, os espaços ocultos da magia e do mistério).

Na primeira, as relações as relações entre o masculino e o feminino falam de presença ( o falo que aponta, a espada que corta) e ausência ( o útero que recebe, a caverna que abriga), de sua busca de encontro e união, de superar a falta e atingir a completude, do dinamismo e instabilidade das trocas gerando paixão, casamento, união, separação, luta e/ou necessidade de véus, de máscaras, de disfarces ( guerreiras que se disfarçam em soldados, jardineiros que se travestem de mulheres), de adotar outro sexo, outro nome, outro lugar, vigiados ou pressionados pela figura onipresente do Pai – instaurador do nome, do limite, da lei, definindo espaços e papéis, e, com eles, identidades que, para superar ou modificar, obrigam os transgressores a passar por lutas, a enfrentar desafios, ou até a entrar em mundos encantados em cujas sombras e abismos feiticeiras e magos manipulam o tempo e  a linguagem. Mas Pai, rei ou senhor que tem também contra ele o tempo, o destino e…  o poeta, que subverte as possibilidades dando vida ao sonho, ao desejo e à emoção do encontro e união buscados.

Na segunda encruzilhada constrói-se um espaço cujos cortes e interdições separam a camponesa e o príncipe, o mendigo e a filha do rei. Espaço que, ao ser mostrado por alguém que está fora de seu lugar (o mendigo, o viajante disfarçado, um anti-herói) mais que personificar o Outro, desloca os limites e fronteiras entre o centro hegemônico e a margem que o isola, rompe a estrutura de classes e instaura um espaço de contradições provocando o deslocamento dos centros de poder e hegemonia, criando um ponto heterotópico e múltiplo de resistência. Resistência com armas próprias, que incorporam a malícia, a astúcia, as artimanhas, o arrancar de máscaras e o desvelamento dos discursos, com uma visão crítico-cômica que exibe o grotesco e ridículo dos que se arvoram em donos absolutos do poder e da verdade.  E abre, assim, um espaço de construção simbólica de novos significados, que, mais que falar em tensões ou das relações de classes como espaço de luta e oposição, exibe as falhas do sistema em que se alicerça a realidade e tem como armas a repressão, a coerção e o interdito de suas leis, expondo necessidades e desejos sempre negados pelo real construído e só possíveis (ainda) no espaço indefinido e contraditório dos sonhos e da poesia – nem por isso menos catártico e inspirador.

Na terceira encruzilhada, o estrangeiro imigrante, o eterno viajante, o personagem que muda de tempo e lugar criando ou revelando novos caminhos, falando de identidades nacionais ou de desterritorialização lembra que o isolamento (ilha ou subterrâneo) é prisão. Que o contato com o Outro, a abertura ao estranho e diferente, é requisito primeiro para o encontro e união, para o final feliz sempre sonhado e buscado. Que em cada fronteira há uma ponte ou passagem. Para cada prisão uma possível libertação. Que toda lei pode encontrar um possível transgressor. Que para cada estrangeiro há uma terra à espera. Que toda viagem pode ser busca/encontro de uma terra prometida. Pois os espaços transpostos ou cruzados no encontro e na diferenciação podem também gerar novas identidades ou novas comunidades.  

Na quarta encruzilhada, o cruzar dos tempos, que ora desenha o tempo linear de uma reta ou destino pré-traçados que tem um ponto ou meta final, ora a roda da fortuna em seu eterno girar trazendo em seu movimento a mudança e o imprevisível, a permanente relação de vida e morte. E, entre eles, mundos ocultos em que habitam feiticeiras, adivinhos e magos. Fazendo ver que incertezas e contradições são presença inescapável a cada novo passo. E que o tempo é paradoxal: vida e morte, movimento e repouso, eternidade e porvir.

O exame minucioso, atento e sensível dos folhetos, as citações pontuando cada aspecto mostrado não cabem em uma breve resenha que pode apenas apontar a validade da obra e fazer entender por que ganhou o Prêmio Jordão Emerenciano de Ensaio do Conselho Municipal de Cultura de Recife. Os que se interessarem por sua enriquecedora leitura podem buscá-la na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) ou em contato com a autora (bianasl@bol.com.br )– por ela autorizado.

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