Maria Helena Kühner

Em Encruzilhadas: encontros e oposições nos cordéis de Manoel Pereira Sobrinho, a autora Fabiana Coelho demonstra reais qualidades de ensaísta, ou seja, de alguém que sabe apresentar um tema com um ponto de vista próprio e bem fundamentado.

Ao falar dos folhetos de cordel desse autor ela não se limita a dar a conhecer (o que já seria válido) esse cordelista que se mostra capaz não só de criar novas histórias com temas recorrentes na oralidade nordestina, como de recriar outras, de consagrados poetas mais antigos, com nova e rica fabulação. A leitura que Fabiana faz de sua obra abrange todos os sentidos da palavra ler: ela não só recolhe ou reúne folhetos, inclusive inéditos, pertencentes ao acervo da antiga editora Luzeiro do Norte, como escolhe ou elege os 38 que serão objeto de citação, outros 26 que serão analisados, e ainda 24 mais que serão consultados, para, com esse rico material, percorrer mitos, lendas e histórias que desde os tempos mitológicos compõem o imaginário, o simbólico e o real neles expresso, e neles assinalar o que há de vivido e estruturador de todo um caminhar humano. Um caminhar visto como um espaço em movimento, sempre in-produção e in-conclusão, encruzilhadas de caminhos incertos, provisórios, levando a separações e perdas, mas também abrindo a novos caminhos.

Quatro “encruzilhadas” marcam o trabalho, os encontros e separações que desenham identidades e diferenças: de gênero (homem/mulher), de classes sociais (rico/pobre), de nações (nativo/estrangeiro), de tempos (do passado ao futuro, e entre eles, os espaços ocultos da magia e do mistério).

Na primeira, as relações as relações entre o masculino e o feminino falam de presença ( o falo que aponta, a espada que corta) e ausência ( o útero que recebe, a caverna que abriga), de sua busca de encontro e união, de superar a falta e atingir a completude, do dinamismo e instabilidade das trocas gerando paixão, casamento, união, separação, luta e/ou necessidade de véus, de máscaras, de disfarces ( guerreiras que se disfarçam em soldados, jardineiros que se travestem de mulheres), de adotar outro sexo, outro nome, outro lugar, vigiados ou pressionados pela figura onipresente do Pai – instaurador do nome, do limite, da lei, definindo espaços e papéis, e, com eles, identidades que, para superar ou modificar, obrigam os transgressores a passar por lutas, a enfrentar desafios, ou até a entrar em mundos encantados em cujas sombras e abismos feiticeiras e magos manipulam o tempo e  a linguagem. Mas Pai, rei ou senhor que tem também contra ele o tempo, o destino e…  o poeta, que subverte as possibilidades dando vida ao sonho, ao desejo e à emoção do encontro e união buscados.

Na segunda encruzilhada constrói-se um espaço cujos cortes e interdições separam a camponesa e o príncipe, o mendigo e a filha do rei. Espaço que, ao ser mostrado por alguém que está fora de seu lugar (o mendigo, o viajante disfarçado, um anti-herói) mais que personificar o Outro, desloca os limites e fronteiras entre o centro hegemônico e a margem que o isola, rompe a estrutura de classes e instaura um espaço de contradições provocando o deslocamento dos centros de poder e hegemonia, criando um ponto heterotópico e múltiplo de resistência. Resistência com armas próprias, que incorporam a malícia, a astúcia, as artimanhas, o arrancar de máscaras e o desvelamento dos discursos, com uma visão crítico-cômica que exibe o grotesco e ridículo dos que se arvoram em donos absolutos do poder e da verdade.  E abre, assim, um espaço de construção simbólica de novos significados, que, mais que falar em tensões ou das relações de classes como espaço de luta e oposição, exibe as falhas do sistema em que se alicerça a realidade e tem como armas a repressão, a coerção e o interdito de suas leis, expondo necessidades e desejos sempre negados pelo real construído e só possíveis (ainda) no espaço indefinido e contraditório dos sonhos e da poesia – nem por isso menos catártico e inspirador.

Na terceira encruzilhada, o estrangeiro imigrante, o eterno viajante, o personagem que muda de tempo e lugar criando ou revelando novos caminhos, falando de identidades nacionais ou de desterritorialização lembra que o isolamento (ilha ou subterrâneo) é prisão. Que o contato com o Outro, a abertura ao estranho e diferente, é requisito primeiro para o encontro e união, para o final feliz sempre sonhado e buscado. Que em cada fronteira há uma ponte ou passagem. Para cada prisão uma possível libertação. Que toda lei pode encontrar um possível transgressor. Que para cada estrangeiro há uma terra à espera. Que toda viagem pode ser busca/encontro de uma terra prometida. Pois os espaços transpostos ou cruzados no encontro e na diferenciação podem também gerar novas identidades ou novas comunidades.  

Na quarta encruzilhada, o cruzar dos tempos, que ora desenha o tempo linear de uma reta ou destino pré-traçados que tem um ponto ou meta final, ora a roda da fortuna em seu eterno girar trazendo em seu movimento a mudança e o imprevisível, a permanente relação de vida e morte. E, entre eles, mundos ocultos em que habitam feiticeiras, adivinhos e magos. Fazendo ver que incertezas e contradições são presença inescapável a cada novo passo. E que o tempo é paradoxal: vida e morte, movimento e repouso, eternidade e porvir.

O exame minucioso, atento e sensível dos folhetos, as citações pontuando cada aspecto mostrado não cabem em uma breve resenha que pode apenas apontar a validade da obra e fazer entender por que ganhou o Prêmio Jordão Emerenciano de Ensaio do Conselho Municipal de Cultura de Recife. Os que se interessarem por sua enriquecedora leitura podem buscá-la na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) ou em contato com a autora (bianasl@bol.com.br )– por ela autorizado.