Entrevista sobre o Teatro para  a Juventude e a Infância

 – Qual a importância do teatro na formação socioeducativa de jovens entre 15 e 25 anos?

 Bem, a primeira coisa que me ocorre diante de sua pergunta é que a faixa jovem, hoje, está sendo compreendida como abrangendo dos 15 aos 29 anos. É o que diz o Plano Nacional da Juventude, de 2004, nela incluindo os que vêem prolongados seus anos de estudo e/ou adiada sua inserção no mercado de trabalho. E a Conferência Nacional da Juventude, que em 2006 reuniu 58 organizações jovens, comprovando o extraordinário crescimento dessa faixa na última década. Crescimento que levou à criação de uma Secretaria Nacional da Juventude,  voltada exclusivamente para a necessidade de convocar, valorizar e estimular iniciativas que tenham por foco os interesses, preocupações e desafios atuais dos jovens, por considerá-los  fator de crescimento, de realização social e cultural. E de 2007 para cá vem dando margem a uma série de pesquisas que visam traçar o Perfil da Juventude Brasileira Atual e os temas a ela e por ela relacionados, alguns eles  surpreendendo os pesquisadores (educação, inclusão social, trabalho, (des)emprego, violência, segurança, oportunidades, capacitação, criação e expressão  etc.etc.) Na resposta a sua primeira pergunta estaria esboçada, creio eu, a importância possível do teatro para essa fase. E para um mundo que está mergulhando cada vez mais em uma excludente e massificadora “bobalização”, a inquietação e busca do jovem, estimuladas, podem abrir – e abrirão, tenho certeza – caminhos novos.

 – Quais os principais obstáculos para se formar uma plateia fidelizada de jovens nas salas de espetáculo? Que ações poderiam ser feitas para reverter esse cenário? 

 A identificação do jovem com a linguagem teatral, seu significado e suas possibilidades. Um exemplo significativo neste sentido seria o que ocorreu nas décadas de 60 e 70, em que cresceu incrivelmente o número de grupos teatrais universitários e secundaristas em todo o país, por terem encontrado no teatro uma forma de expressão e manifestação capaz e  expressar as profundas mudanças que aconteciam nos relacionamentos, nos comportamentos, nas atitudes, princípios e valores ( algo de que Maio de 68 e Woodstock foram marcos), e a que aqui no Brasil se acrescentou serem uma forma de luta contra a censura e a repressão da ditadura.

Hoje, é curioso notar, vem crescendo o número de jovens que se inscrevem em cursos livres de teatro, ou que fazem teatro, inclusive em comunidades, ou que estão indo a espetáculos ditos para “adultos”. Eu, que vou muito a festivais de teatro de todo o país, tenho visto aumentar significativamente o número de grupos jovens, em curiosas e muitas vezes bem sucedidas encenações, de linguagem inovadora e expressiva. 

Também nos mais de 500 texos que li nos dois últimos anos, na qualidade de membro do júri de concursos nacionais de dramaturgia, é impressionante ( mesmo quando nem sempre resultando em textos bons dramaturgicamente), a variedade temática e a diversidade de questões abordadas – amor, morte, meio ambiente, trabalho, preservação do planeta, ou escolar, o jogo, o mistério, os preconceitos, as relações familiares e sociais etc. Ou a busca de renovação da linguagem cênica com o resgate do imaginário, da fantasia, da afetividade, do lirismo e de um humor lúdico muito próximo, por vezes, da visão crítico-cômica da cultura popular, de diferentes raízes (indígenas, ibéricas, africanas) à qual são acrescentados elementos novos e criativos capazes de fazer emergir sua teatralidade, seu humor, sua inversão de foco/ visão da realidade, sua síntese narrativa. Ou a manifestação das mais variadas modalidades de escrita cênica e incluindo a fusão de diferentes linguagens, ora com a inserção de traços narrativos, resgatando a palavra em sua oralidade e valor expressivo, ora gerando um espetáculo multimídia, com projeções, vídeos, animação, ou com inserção de formas animadas  (juntando bonecos e atores), de técnicas circenses, ou de dança, música e linguagem gestual /corporal como elementos ativos da expressão, ou fazendo do ator um performer, centrado em sua presença física e autobiograficamente estabelecendo uma relação pessoal e direta com os objetos cênicos e a situação em foco. Mesmo não sabendo, obviamente, a idade dos inscritos, essa busca inovadora e renovadora, acredito, poderá vir a levar a uma nova relação com o público, com o papel do ator, e levar o jovem a “redescobrir “ o teatro e a linguagem, tão específica, do palco.

 – Quais os agentes facilitadores para a formação de plateia de jovens?

 Poucas têm sido ainda as ações desenvolvidas com esses objetivos ou preocupações, de atingir especificamente essa faixa etária, de realizar uma política cultural coerente e consistente em termos de alcançar /mobilizar esses segmentos sociais, de levar-lhes material – espetáculos, leituras encenadas, oficinas, debates, seminários, palestras, publicações, sites na Internet etc – que representem o trabalho permanente e progressivo exigido por toda e qualquer ação cultural que se pretenda verdadeira e eficiente, e não apenas um mero conjunto de eventos visando à recreação de um público consumidor e passivo.

Mas é caminhando que se faz o caminho, já dizia  Antonio Machado em expressão que se tornou lugar-comum pela verdade que encerra. Conscientes de que os velhos mapas e cartas que guiavam os seres humanos pela vida individual e coletiva não mais representam a paisagem na qual nos movemos e que não sabemos ainda aonde nos levará nossa viagem, “cabe a todos nós trabalhar para que o mundo que vem ressurgindo dos escombros seja um mundo melhor, mais justo e mais viável.” ( Eric Hosbsbawn, in A Era dos Extremos).

– E no caso de crianças de 3 a 15 anos, que benefícios ela trará a seu desenvolvimento?

 Para a geração de nossas avós, a criança era uma Chapeuzinho Vermelho que, para entrar na floresta do mundo, recebia da mãe instruções severas quanto ao caminho a seguir, e do qual não deveria se desviar de forma alguma, sob pena de encontrar “o lobo” ( instintos, a sexualidade); e, se desobedecesse e fosse “comida” pelo lobo, para ser “salva”, precisaria novamente da interferência de “caçador” masculino e adulto capaz de livrá-la do mal. Uma releitura canadense atual, mostraria uma Chapeuzinho jovem e “moderna” querendo ‘comer’ um assustado lobo que dela foge espavorido…

Hoje, a criança tem um contato direto com a realidade, vê televisão, vai a cinema, ao teatro, lê livros, revistas, histórias em quadrinhos, freqüenta escolas maternais, tem contato com grupos da mesma idade, etc.etc. Isso pode trazer maior riqueza de experiências, maior variedade de imagens, maiores oportunidades de confronto, diversidade de pontos de vista…Mas também a deixa mais vulnerável. E seu des-envolvimento exigirá que nela cresça esse potencial de que falamos que o teatro é capaz de mobilizar.

 – Como você avalia a qualidade das atuais produções para crianças no Brasil? O que caracteriza um espetáculo como sendo de qualidade?

Se o que a criança vê, ouve e sente é por ela vivido como uma experiência e é a soma dessas experiências que dá as bases de seu desenvolvimento potencial, venho sentindo falta de trabalhos com maior riqueza, de ver um cavalinho que pode ser azul e um mendigo que pode ser Deus, de um lenço ou um jornal que podem ser personagens, de um barquinho que vai descobrindo o mundo e os outros em uma viagem que o levará ao mar aberto da vida, enfim, de peças que deêm maior força ao imaginário de uma criança que, ainda e sempre dividida entre o prazer, a fantasia, a imaginação e a realidade que a cerca, enfrenta hoje maiores desafios. Fazer pouco da criança, achando que para ela qualquer coisa serve, que um nariz de clown e algumas gracinhas, tombos, encontrões etc. para elas bastam; levar a criança ao consumismo, à repetição, à passividade, à imitação mecânica são coisas que já têm sido seguidamente criticadas como vícios que vêm matando o que o teatro pode ter de melhor.

Um teatro de qualidade é o ainda continue sendo, de fato, teatro, isto é, algo com aquelas características que acabamos de mencionar como capazes de trazer algo mais à criança que o assiste. /

 

 

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                            O PESO DA DIFERENÇA

                                                   (baseado em fato real)

                                                                                Maria Helena Kühner                  

 

 

Entra alguém correndo e gritando para todos os lados:

1 – Tem um homem morto no banheiro feminino!

VOZES ( off) – Um homem… morto?

                      – No banheiro feminino?!

1É! Cheio de sangue! Deve ter sido assassinado!

2– ( entrando) – Um homem assassinado, no banheiro feminino? Como foi isso?

1-   Não sei! Vai lá ver! Vão lá! Chamem a polícia!

Breve corte de luz. Reabre com policial ou investigador falando a um cliente da boate:

Cliente – O morto eu conheço, sim. Metido a gostoso, a machão. Eu mesmo já tive um pega com ele, chamei pra uma briga lá fora, porque estava se engraçando com minha namorada.

Policia – Mas você não ia assassinar ele por isso.

Cliente – Inda mais no banheiro feminino. Vai ver ele tentou assediar ou estuprar  

             uma  mulher…  e foi violento… ela reagiu e…

Policial – … eela  devia ter algo cortante ou agudo, com que na briga fez cortes e

                incisões no peito e no braço, e acabou enfiando na jugular dele.

Cliente – Pô, na jugular… é um ponto vital.

Policial – Daí a hemorragia que liquidou com ele.

Cliente – Vai ver ele caiu e aí ela fugiu quando viu que o matou.

Breve corte de luz. Reabre em outro ponto, com outro policial falando a casal:

Policial – Vocês estavam aqui na hora do crime? Viram ou ouviram alguma coisa?

Homem- Estávamos. Eu venho sempre aqui. Mas a casa ‘tava lotada, e com música e burburinho fica difícil ver ou ouvir alguma coisa.

Mulher- Mas uma coisa me chamou a atenção: o nervoso de nossa vizinha de mesa, quando veio de lá, acho que do toalete, pegou a bolsa e o casaco quase derrubando a cadeira e saiu rápido, deixando na mesa o copo de bebida ainda cheio.

Policial – Sabem que é?

Mulher – Éuma mulher alta, loura, bonita, bem vestida. Tava na mesa bem ao

                lado da nossa.

 Homem – Acho que já vi essa mulher aqui algumas vezes. Mas não sei quem é,

                não.

Policial – Se é cliente da casa o gerente deve saber. Vou falar com ele.

Homem – Mas acho que ele já foi. Em geral só fica até meia- noite. Depois deixa   

               com o subgerente.

Policial – Voltamos amanhã, se for preciso. E se souberem de algo mais, por

               favor nos informem.

       Breve corte de luz. Reabre com uma moça loura e bonita diante de um

Moça – O senhor é advogado criminalista, não?

Ele – Sou. Em que posso lhe ser útil?
Moça – Eu vim procurá-lo porque eu… eu queria lhe fazer uma consulta e… e

           saber se…se pode pegar um caso, se for necessário.

Ele – Depende. A senhora está com algum problema?

Moça – Não! É… é meu irmão! É que, ontem à noite, meu irmão se envolveu em uma briga em uma boate e, para se defender, usou um canivete contra o agressor. Agora dizem que o homem morreu e… e ele está com medo de ser acusado de um crime.

Ele – Eram só os dois brigando? Não teve outros envolvidos? Ou testemunhas?

Moça – Não. Foi no toalete. Estavam só os dois.

Ele – No toalete…?

Moça – É. E foi o homem que o agrediu! Foi legítima defesa!

Ele – Mas o uso do canivete é um complicador: porte de arma.

Moça – Então ele não tinha direito de se defender?

Ele – De se defender, sim. De matar, não!

Moça – Ele não queria matar! Mas o que é que ele podia fazer? O homem o agrediu!

Ele – Ele saiu agredindo assim, sem mais nem menos? Eu preciso saber dos detalhes. Por exemplo: a arma do crime ficou no local?

Moça – Não! Trouxe! Mas será que não seria melhor ele fugir, sumir por uns tempos…

 Ele- Não. Fugir seria confissão de culpa. Temos que esperar pra ver o que acontece.

Moça – Esperar. É que é difícil ficar nessa agonia, sem saber se…

Ele – Diga a seu irmão que me procure para conversarmos. E aí vemos o que fazer, como agir.

Breve corte de luz. Reabre com policial com o Gerente.

Gerente – Sou gerente daqui há anos. E lhe garanto que não é puta, não, que em minha casa eu não permito. Eu acho que sei quem é, sim. Pela descrição é a Lorena.

Policial – Lorena…?

Gerente – É. Um travesti. Olhando a gente jura que é mulher. Teve até um cara que só descobriu na hora H e deu uma baita surra nele. Quebrou ele feio.

Policial – E sabe onde esse traveca mora?

Gerente – Sei não. Mas deve ser aqui perto, ou nesse bairro mesmo. O porteiro deve saber.

Policial – Depois do crime, alguém viu esse… essa Lorena?

Gerente – Não. Hoje ela não apareceu.

Policial – O que já pode ser sinal de culpa. Pelo sim, pelo não, vamos achar o tal traveca e levar pra investigação lá na DP.

       Breve corte de luz. Reabre com rapaz de uns 30 e poucos anos diante do

                                  Advogado.

Advogado – Sua irmã me procurou, sim. E eu pedi que você viesse falar comigo. Mas…  vocês são gêmeos?  São tão parecidos!

Ele – Doutor, eu… eu …sou ela.

Advogado –– Você… é ela?

Ele – O senhor pediu pra conversar comigo. Mas eu precisava saber se não ia me rejeitar, quando soubesse que… Sabe, eu vivo diariamente a experiência da rejeição, da exclusão. Eu precisava saber se ia me aceitar, se ia aceitar me defender. E achei que posso confiar no senhor. Além do que eu preciso muito de sua ajuda.

Advogado – Então, o primeiro passo para que eu possa ajudá-lo é ser verdadeiro. Não mentir nem omitir nada – mesmo que seja algo contra você. Do contrário irá comprometer não só você mesmo como o meu nome profissional.

Ele – Prometo ser totalmente sincero. Até porque sei que minha vida vai estar em suas mãos.

Advogado – Então vamos começar. Pois se estão investigando o caso, logo, logo vão chegar a você.  Preciso saber de tudo, sobre você e sobre essa briga.

       Breve corte de luz, para a Delegacia, onde dois policiais conversam.

1-   Esse traveca vai se dar mal… Dar cabo de um cara rico, conhecido, bem situado…

2 – A família está no meu pé. Já telefonaram vinte vezes, mandaram o advogado deles e tudo. Querem porque querem pegar quem matou e meter atrás das grades.

1-     O morto pode ser importante, mas, pelo que eu soube, era também um bom filho da puta. Vai ver foi até execução, a mando de algum outro figurão ou de alguém a quem ele prejudicou.

2 – E não interessa abrir isso. Por isso abafaram o caso. Não saiu uma nota nos jornais, reparou?

1 – E o obituário era só elogios…

2 – Mas isso não explica porque iam mandar um traveca fazer o serviço. Só se era pra desmoralizar o morto, mostrar com quem ele estava andando…

             Alguém entrando:

Consegui! Tá aqui o nome e o endereço dele! É a umas três quadras daqui!

1- Então vamos lá, caçar o pássaro antes que ele levante vôo!

            Corte  para o escritório do Advogado:

Lorena – Eu tenho pavor de ser preso, Doutor Paulo. Como eu lhe disse, eu morei um tempo em Belo Horizonte e lá, numa batida policial nos bares, à noite, alguém disse que eu era um travesti e eu fui preso. Na delegacia o Delegado me botou numa cela separada, dizendo aos outros que ele “ia me usar pra fazer uma limpeza no bairro”.  Me usar… Ele me usou, sim… Todas as noites eles dizia que “ia dar um bordejo comigo para eu  apontar todas as putas, travestis, traficantes e bandidos, que eu devia conhecer todos muito bem, já que era da mesma laia”. Que o sonho dele era “meter toda essa corja atrás as grades, ou se pudesse, até eliminar essa raça toda!” Hipócrita! Cínico! Com esse discurso moralista me metia no carro, algemado, e me levava… pra uma mata perto. E ali ele me usava e abusava de todas as maneiras. Com ele aprendi o que é sadismo, vi até onde o sadismo pode chegar, como é que alguém pode ter prazer em dominar, humilhar, espezinhar um outro que não é um animal nem uma coisa, que é um ser humano igual a ele! Mas no fim de uns dias eu acho que ele viu nos olhares e meios sorrisos dos demais que já estava soando esquisita aquela sua “investigação”. E eu também tinha conseguido passar por um cara que foi solto um recado para minha irmã, e ela foi à delegacia com um advogado. E me soltaram. Mas eu tenho muito medo de ser preso. Se me pegarem…

Advogado – Ande com o número de meu celular. É um direito seu ligar para seu advogado.

Ele – Um direito meu? Mas… eles vão respeitar esse direito?

Advogado – Isso eles respeitam, sim. Me ligue.

            Corte para a Delegacia. O Advogado diante do Delegado.

Advogado – Sou advogado dele. Vim pagar a fiança e pedir sua soltura.

Delegado – Ele ainda não está liberado.

Advogado— Masnão pode ficar preso. Ele é apenas suspeito, sem culpa formada. E além do mais é réu primário, não tem sequer antecedentes criminais.

              Entra alguém trazendo Lorena, ar aflito.

Lorena– Dr. Paulo! Que bom que o senhor veio!

Advogado-– Eu disse que aceitaria defendê-lo, não disse? Então vou acompanhar tudo, passo a passo.

Delegado – Ele não pode sair da cidade, nem mudar de endereço. E tem que estar à disposição, se for intimado a vir prestar esclarecimentos.

Advogado – Estamos sabendo. Se formos chamados, eu mesmo virei com ele.

              Os dois, saindo.

Advogado – O caso irá a julgamento.

Lorena – Daqui a quanto tempo?

Advogado – Meses, no mínimo. Vou tentar acelerar o processo, para que a audiência ocorra o mais rápido possível. Mas não vai ser fácil, desde já lhe previno que não vai ser fácil.

Corte de luz. Reabre para sala de Audiência de um Tribunal de Júri: Juiz, Promotor, Adv. de Defesa e Réu (Jurados visíveis ou não). Julgamento em curso.

Juiz – Com a palavra o Dr. Promotor.

Promotor- Este julgamento de hoje, a meu ver, será simples e rápido.  O que temos hoje, aqui, mais uma vez, é um caminho que se mostra cada vez mais comum e freqüente: a moda hoje é chamarem de “opção sexual” a um desvio que leva da anormalidade à libertinagem, ao desregramento, ao desrespeito às regras e normas da sociedade constituída, e, rapidamente, passa dessa anormalidade à ilegalidade e ao crime. É exatamente o que vemos neste caso: um travesti que quer por força ser mulher se achou no direito de usar um toalete feminino e, ao ser interpelado por isso, reagiu matando! E agora cinicamente pretende que seu ato seja considerado legítimo e defensável! Ou seja, quer que, além de tolerar que ele desrespeite a moral e os bons costumes, tenhamos ainda que tolerar que ele faça o que lhe der na cabeça, violando todas as regras, todas as normas e todas as leis, sem que nada lhe seja cobrado! Se tolerarmos isso, o preço de nossa tolerância será muito alto: será o mesmo que premiar a imoralidade e o vício, o mesmo que rasgar todas as leis que alicerçam nossa sociedade e nos levar ao caos social! Por isso estou certo de que os digníssimos membros do Júri verão no réu o que ele realmente é – um homicida cínico e libertino, frio e deliberado – e como tal o julguem e o condenem como ele merece!

Juiz – Com a palavra o Dr. Advogado de Defesa para a réplica.

Advogado – É curioso o Snr. Promotor não ter uma palavra sequer para a atitude brutal do agressor, que obrigou o Réu a tentar se defender. A Justiça, bem o sabemos, tem como símbolo uma balança com dois pratos, cujo equilíbrio se busca para que a Justiça se faça. Por que livrar o agressor de qualquer culpa e ignorar que o Réu agiu em defesa própria? Também não hesita em desviar o foco da questão: o que está em questão não é a pessoa do Réu – do qual o Snr. Promotor tenta dar de antemão uma imagem preconcebidamente negativa – e sim um ato seu e as circunstâncias em que se deu e pelas quais ele deve ser julgado.

Mas, ao fazê-lo, também acaba de demonstrar como a linguagem pode ser usada para, manipulando as palavras e dando ao Réu rótulos e adjetivos que o desqualificam (“desvio, anormalidade, libertino, cínico”), tentar distorcer a realidade e influir na mente dos que ouvem para fazer ver as coisas como ele quer que as vejam, e assim fazer pensarem como ele. Não vamos cair nessa cilada, que elimina nosso senso crítico e nossa capacidade de avaliar e julgar. Por exemplo, ele fala em normalidade, normas. Normas ou regras não são princípios ou valores imutáveis, como o são a Justiça e o Direito. Pelo contrário, as normas variam com o tempo, o lugar ou os interesses que as criaram. No Oriente Médio reina a poligamia, e é “normal” um sultão ter inúmeras mulheres. Já nas Ilhas Trobiand, como demonstra a antropóloga Margaret Mead, a “norma” é a poliandria, cabendo a cada mulher ter vários maridos. E aqui no Ocidente a norma é a monogamia – pelo menos em teoria…

Promotor – Meretíssimo, não vamos ficar em uma discussão infindável sobre conceitos e palavras dos quais o Dr. Advogado parece ter uma noção, digamos eufemisticamente, um tanto “pessoal”, que não é a minha nem a da sociedade em que vivemos. Eu sou um homem prático, não quero discussões filosóficas ou lingüísticas, e por isso sugiro passarmos aos fatos. E para isso gostaria de interrogar… o próprio réu.

             A um gesto do Juiz, o Réu se dirige ao banco das testemunhas e o Promotor dele se aproxima. 

Promotor- Você tem mãe? Tem família?

Réu – Minha mãe já morreu. Tenho uma irmã.

Promotor- Ah, sua mãe já morreu… De desgosto, talvez, de ver o filho tornar-se um pervertido, cair na degeneração que o levou ao rime.

Advogado – Protesto! O Snr. Promotor não tem direito de ofender o Réu!

Juiz – Deferido. Modere seu tom, Snr. Promotor.

Promotor- O senhor considera “normal” ser um travesti? Não achou outro jeito de ganhar a vida?

 Advogado – Protesto!

Réu – Pode deixar. Eu respondo. Eu não “ganho a vida” como travesti. Eu trabalho. Tenho uma profissão. Eu sou cabeleireiro.

Promotor – (riso de deboche) Ah, ah, ah… Cabeleireiro… Só podia ser,…

Réu – E sou considerado um bom profissional por minhas clientes. Tenho prazer em pentear cabelos femininos. Em embelezar com eles o rosto de uma mulher. Uma cliente minha, que é psicanalista, diz que é mecanismo de projeção, que eu me vejo nas mulheres que cuido e embelezo.

Promotor- Uma psicanalista… E o que ela diria aqui de seu ato? Foi raiva, inveja do sexo masculino? Vingança das vezes que lhe bateram ou xingaram? Sim, porque matar alguém só porque o interpelou por estar desrespeitando (para o Adv.) as “normas” hoje e aqui vigentes, sendo homem e indo a um banheiro feminino, é um ato que não se explica a não ser por ódio, vingança, culpa ou outras razões – como deve ser o seu caso.

Réu – Não! Eu estava me defendendo! A agressão partiu dele!

Promotor- – E você foi apenas “a vítima inocente”… Ah! Sei… Mas, mesmo sabendo que será a sua versão dos fatos, pois o morto não pode mais falar, poderia então nos contar o que aconteceu naquele toalete feminino que o levou a matar seu suposto agressor?

Réu – Quando entrei no toalete feminino ele veio atrás de mim: ”Hei, que negócio é esse? A boneca se acha no direito de entrar no banheiro de mulheres? Hein?” Meteu a mão no meu peito e começou a me empurrar e a xingar: “Não respeita ninguém, viadinho? Não respeita nada, seu imoral? Acha que só porque é uma bicha louca pode fazer o que quer, curtir com a cara da gente? Pois eu te mostro que não! Eu acabo contigo, te quebro, te arrebento aqui mesmo!” Eu dizia “Pare! Espere! Pare! Eu saio! Eu saio! PÁRA!” Mas ele não me ouvia, continuava me empurrando e gritando que “gente como eu não devia existir, que eu era um acinte à sociedade” e que “ia me dar uma lição!” Quando meteu a mão aberta no meu rosto e desceu pro pescoço, apertando, apertando, como se quisesse me estrangular eu… eu perdi a cabeça. Puxei o canivete e comecei a dar golpes no ar, a tentar atingir o braço dele, o peito, o corpo, onde fosse, para fazê-lo parar! Levei um susto quando ele deu um grito, Ai! e vi um jorro de sangue sair de seu pescoço e começar a escorrer. Ele parou, eu também parei. E quando vi que ele ia cair, ou desmaiar, me apavorei e saí correndo. No dia seguinte soube pelo porteiro da morte. E a partir daí não tive mais um minuto de sossego…

  Promotor – Como vemos, Snrs. Jurados, que houve homicídio é, então, algo inegável, fato confesso.  E os fatos falam por si: de um lado, alguém que foi um tanto grosseiro ou mal-educado, talvez, mas do outro, um ataque à mão armada que causou morte.  Não sei como o Réu ainda pretende fazer-se passar por “um bom profissional” sendo alguém que, como transviado e assassino, se mostra duplamente nocivo à sociedade em que vive. E que por tal deve ser afastado, e definitivamente, se acaso, do convívio social.

Advogado – Meretíssimo, se me permite… Mais uma vez comprovamos que o Dr. Promotor se esforça em confundir pessoa e ato, e em dar aos jurados uma pré-concebida imagem negativa do Réu. Gostaria de chamar como testemunha a psicanalista citada, a quem ele procurou logo após o ocorrido. Para vermos o que ela tem a dizer.

Promotor – Concordo. Veremos o que ela diz de sua perversão – pois embora o ilustre Defensor evite usar a palavra é evidente que foi essa perversão o leitmotiv, a causa primeira do crime.  

Advogado – Já que ela é recorrentemente lembrada, embora o ilustre Promotor diga que também não lhe agrada a expressão que eu uso, gostaria de antes perguntar ao Réu: como surgiu sua opção sexual ?

Réu – Minha irmã conta que, quando eu tinha 4 anos de idade, eu não gostava de brincar com os meninos, dizia que eles eram brutos, que só queriam brincar de guerra, de bandido, de briga… Que eu preferia brincar com as meninas, de casinha, de colorir, cortar e colar, de desenhar vestidos para as bonecas delas… E então eles me chamavam de “Mariquinha”, me empurravam, me expulsavam de todas as brincadeiras. Eu não entendia, ficava magoado, chorava… E isso ainda piorava tudo. Quando eu contava em casa, meu pai me batia, me mandava voltar para a rua e brigar com eles, e se eu chorava dizendo que não ia, me batia ainda mais e gritava que ele era um desgraçado, que esperara tanto um filho homem e lhe nascera “isso”… Dizem que a infância é a fase mais feliz da vida. A minha, pelo que me lembro, foi um inferno…  Eu não sabia o que fazer, não sabia como lidar com isso, com essa maneira diferente de ser, de sentir… Que só anos e anos depois eu iria entender, mesmo que eu ainda não saiba explicar por quê essa diferença. Mas então, quando vim do interior para a capital, onde ninguém me conhecia, decidi me travestir de mulher. Que eu me sentia mulher, eu me sinto mulher…

Advogado – Obrigado. Sem mais perguntas. Gostaria agora que ouvíssemos, como testemunha, a psicanalista mencionada, a Dra. Mariana de Góes.

                   Breve corte. Reabre com a Dra. no banco de testemunhas.

Advogado – Doutora,como a Sra. deve ter visto, o Sr. Promotor se empenha em seu discurso em eliminar as circunstâncias em que se deu o fato, a agressão de que o Réu foi vítima e o forçou a uma defesa legítima, marcada embora pelo descontrole emocional a que foi induzido, e levando a resultados imprevistos, mas de forma alguma desejados ou intencionais. Eu lhe pergunto: tem algum fundamento a relação que o Snr. Promotor insiste em sublinhar e apontar como leimotiv do ato?

Doutora – Não. Como a moral define o conjunto de práticas de costumes e padrões de conduta vigentes,  em uma sociedade que se organizou com base na proibição e no interdito, ou seja, uma sociedade que se organizou repressoramente, como é o caso da nossa, as condutas ligadas ao sexo são sempre objeto de fácil apelo moralizante. Mas essa “pré-determinação” de cunho moral que o Snr. Promotor insiste em estabelecer não existe em absoluto. Como vejo que o Snr. Defensor gosta de ir à raiz das palavras, lembro que a palavra perversão vem de per-vertere, ou seja, designa apenas oatode verter por, de dar passagem a, sem direção pré-fixada. Todo sujeito tem uma quantidade de energia sexual, a libido, que, tal como a fome no organismo, busca satisfazer-se procurando os objetos nos quais vai investir essa energia. Na infância, por não ter ainda uma identidade, a criança dirige seus desejos para qualquer objeto, desorganizadamente, sendo por isso considerada “perverso polimorfa”. Ou seja, ninguém “nasce” heterossexual, ou homossexual, ou bissexual. Nasce apenas com essa pulsãoque vai levá-lo a escolher depois seus objetos por um ato de vontade. E nossa vontade, nosso querer, como já foi também amplamente afirmado, é movida tanto por nossos valores e nossa razão quanto por nossos impulsos e nosso desejo. Por isso varia de sujeito para sujeito, de acordo com as diferenças de sua formação, as circunstâncias de seu desenvolvimento, as identificações, projeções, alienações, recalques vividos etc. A direção do desejo de cada um vai ser singular e única, diferenciada e marcada por sua história pessoal. E todo sujeito pode tornar-se homo ou hetero em qualquer momento de sua vida.

Advogado – E isso tem influência em sua conduta, em seus atos futuros?

Doutora –Também não de forma simples ou linear, e muito menos pré-determinada, como quer fazer crer o Snr. Promotor. O que acontece é que todos nós vemos a realidade com os olhos das experiências vividas e as lembranças de ações passadas. O cotidiano, sempre redescoberto, tem por bússola e guia os mapas de caminhos percorridos. A memória é um fator crucial nas futuras ações de todo ser humano. Em sua busca de companhia, de afeto, das relações a que todo ser humano tem direito, as experiências vividas pelo Réu deixaram fundas marcas. Marcas que explicam a reação instintiva que teve ao ver-se agredido: primeiro, uma reação de afastamento e fuga – a mais habitual em quem vive seguidamente a rejeição, depois tentando acalmar o agressor com palavras, e por fim de defesa, usando os meios a seu alcance.

Advogado – Sem mais perguntas. Obrigado, Doutora.

Juiz – Podemos passar às considerações finais.

Promotor – Meretíssimo, Snrs. Jurados, de minha parte nada mais tenho a  acrescentar. A Moral, as Leis, a Justiça, a Religião são muito claras quando dizem: “Não matarás”! É um interdito que não se pode querer escamotear com palavras vãs e discursos ocos. Por tudo que ouvimos o Réu é culpado de homicídio doloso qualificado, e por tal peço que seja condenado a 30 anos de prisão, sem direito a condicional.

Advogado – Há décadas nossa sociedade vem lutando para abolir preconceitos que, como a palavra mesma diz, são idéias pré-concebidas, sem fundamento, que não resistem a uma análise inteligente. E que tiveram farto exemplo em todas as colocações feitas aqui pelo Sr. Promotor. Outra será, temos certeza, a visão do Júri. Se o Direito considera os elementos internos (como a intenção, o desejo, os aspectos emocionais) é para levar em conta em que medida esses elementos concorreram para a prática de atos externos. Ou seja, o Direito não pode deixar de ser ético. E Ética é a responsabilidade para com o Outro, é perceber e buscar entender o ponto de vista do Outro, é aceitar o outro enquanto Outro, igual e diferente. Estou certo de que o Júri terá esse comportamento ético, levando em consideração todas as circunstâncias apontadas, desde a injusta provocação da vítima até o estado emocional em que se deu a reação do Réu. Pois só assim conseguiremos que se faça Justiça, e que possamos um dia chegar à sociedade mais aberta, mais livre e mais solidária que todos nós desejamos.

             Corte breve, reabre com Juiz dirigindo-se ao representante do Júri:

Juiz- Os Snrs. Jurados chegaram a um veredicto?

        – Chegamos, Meretíssimo. Homicídio culposo, sem intenção de matar.

Juiz – Então, pelo Artigo 121 do Código Penal, o Réu está condenado a 15 anos de prisão, sem direito a condicional nos cinco primeiros anos.         

           De seu lugar o Réu se volta, em pânico crescente, para o Advogado:

Réu – Dr. Paulo, entendo que é justo que me condenem pela morte dele, mas, pelo amor de Deus, peça para não deixar que me botem num presídio masculino, numa cela com um bando de homens que pensam como esse Promotor, que eu já sei o que vou passar com eles, sei que vão me surrar, vão acabar comigo, vão…

Advogado – Sim, mas… você não pode ir para um presídio feminino.

Réu – Pelo amor de Deus, fale com o Juiz, fale com ele, explique… ou me mate de uma vez, eu prefiro morrer, eu não vou aguentar, eu não posso, eu …

Advogado – Calma. Eu vou falar com o Juiz. (para ele) Meretísimo, pode me conceder um instante?

Juiz – Sim. O que deseja?

          O Advogado se aproxima dele e lhe fala em voz baixa, foco marcando atrás o rosto ansioso do Réu.

Juiz – (erguendo-se) O que quer é impossível, Doutor. Não existe um “presídio especial” para travestis e gays.

Advogado – Mas ele pode ficar em cela separada, como os que têm curso superior. Isto é possível!

Juiz – (irônico) E ele é formado em que? Na “universidade da vida”?

Advogado – A lei não pode ser inflexível e desumana. Ela tem de ser interpretada para indicar o caminho mais certo, para…

Juiz– (corta) – Quer me dar lições, Doutor? Faça concurso e venha para o meu lugar. Enquanto isso não acontece, não há o que discutir: pela lei ele é um cidadão do sexo masculino e como tal será por mim tratado.

– E se acontecer o que ele teme… senhor responde pelas consequências?

       

Corte de luz. Reabre com alguém entrando em outro lugar onde agora está o Advogado:

Dr. Paulo! Dr. Paulo! O travesti… Aconteceu! Aconteceu o que ele temia! Assim que foi posto na cela com uns 30 caras partiram todos pra cima dele! E ele foi agredido, xingado, estuprado, espancado, e acabaram enfiando nele um cabo de vassoura que arrebentou ele todo por dentro! Hemorragia interna! Morreu a caminho do hospital!

Advogado (revoltado) – Ele sabia que isso ia acontecer! Sabia que seria brutalizado até a morte! Um assassinato!

  1. Vira-se para a platéia

E deste assassinato, quem é culpado? O Juiz, os jurados, os presidiários… ou toda a sociedade, com seus preconceitos e sua in-diferença?…

 

         Luz se fecha em resistência sobre sua figura imóvel e sua pergunta.

 

                                                

 

 

 

Quando eu nasci ela já devia ter uns 40 aos. Ou mais. Ou menos. Indefinível a idade daquela figura sempre igual. A primeira imagem que me vem ao lembrá-la é a de uma mulher miúda, franzina, deslizando pela casa, silenciosa, e sem fazer o mínimo ruído. Cinzento ou negro era sempre o vestido jogado sobre o corpo magro e reto, qual roupa pendurada num cabide. Cabelos também cinzentos, grisalhos. Nunca os vi soltos. Ficavam presos, sempre, em um coque seguro por algo que parecia um lápis enfiado na nuca. Acho que era seu primeiro gesto ao acordar: prender os cabelos. Segurar os fios para não se deixarem levar por algum vento de fora. Assegurar sua imobilidade. Sua contenção. E a de sua dona. Ou portadora. Porque ela não parecia dona de nada. Nem de si mesma. Seus passos miúdos, os pés metidos em pantufas de lã, nem mereciam o eco dos corredores sempre prontos a denunciar, ruidosos, o correr dos meninos pelas tábuas do chão. Topar com ela vindo por um deles ao cair da noite era para mim, menina, o susto de um encontro com um fantasma, uma sombra. Era o que parecia: uma sombra, não gente. Ou uma sombra de gente. Esgueirando-se pelos cantos. Apequenando-se. Parecendo pedir desculpas por estar ali. Ou até por existir.

Por isso meu espanto naquele dia. Ou meu encanto. Não sei nem dizer. Quebrar-se aquela imagem primeira e única foi como ver um espelho se estilhaçando em mil pedaços. Cada um refletindo uma luz nova. Um brilho claro, inesperado naquela sombra humana. Mais que um brilho. Um som. Inédito. Imprevisto. Um choro. Sentido. Vivo. Um chorar que sacudia seus ombros em movimento inusitado. Não deu logo por minha presença, imobilizada pela perplexidade. Um minuto? Dois? Não sei. Súbito ergueu os olhos. Me viu. A mão correu, rápida, a enxugar os fios d’água descendo pelas faces. O olhar, desconcertado, desviou-se. E a minha pergunta “Que foi que houve, tia? Está chorando? ” teve resposta ainda com-movida pelo choro: “Ele a traiu! E ela confiava tanto nele!” Eu engasgada, sem entender – quem traíra quem? E por que isso era tão importante? – e minha mudez lhe dando tempo para, hesitante, aos arrancos, ir tentando explicar, mostrando o rádio: ”Na novela. A Avelina. O Jorge era tudo que ela tinha na vida. E ele a largou por outra. Não deu valor a ela. Desprezou seu amor. E a abandonou. Sozinha no mundo. Agora o que é que ela vai fazer da vida?” Admirada de vê-la falar tanto e se comover a ponto de chorar – coisa que eu nunca tinha visto -, eu não disse nada. Anos depois, relembrando aquele momento único, singular, que por vezes repassava diante de mim ao olhar para ela, de novo e sempre contida, quieta e muda, eu me perguntava: Será que é por isso que ela lê tanto e ouve seguidamente música e o rádio? E ainda hoje me pergunto: como seria viver assim, só de emoções de outros, emprestadas, sugando de personagens de ficção amores e ódios, prazeres e medos, vivências alheias, uma vida ilusória, irreal, apenas imaginada ou projetada em personas com as quais, à falta de uma vida própria, se identificava? Onde as próprias fantasias e desejos e sonhos e alegrias e mágoas que todo ser humano carrega dentro de si? Impossível que não os tivesse. Ou que simplesmente os afogasse no marasmo de sua vida sem horizontes. Um dia, curiosa, perguntei a minha mãe: “Tia Filhinha nunca teve algum namorado, algum apaixonado na vida? Por que não se casou?” A resposta de minha mãe foi simples e cortante: “Não. Cidade pequena, os namoros são sabidos. E os pretendentes são poucos. Ela nunca teve ninguém, não”.

Tia Filhinha. Só agora me dou conta: nem nome teve. Só vim saber seu nome quando, já adulta, encontrei por acaso sua certidão de óbito. Ironia cruel: só vir a ter nome na morte. Primogênita de uma família de 11 irmãos, o tratamento de “filhinha” dado por mãe carinhosa acabou sendo seu nome, por todos usados para chamá-la ou dela falar. Filhinha. Alcunha contradizendo seu encargo e função, cedo assumidos, de cuidar de irmãos menores cujo número crescia a cada ano. Sem direito a um nome próprio. Sem direito a uma vida própria. A um tempo só seu. Ou a conviver mais consigo mesma. Como seria esse viver e conviver em uma pequena cidade do interior que fotos me mostraram ter apenas o grande Largo do Chafariz com o palácio do governo, o colégio das feiras, o quartel e as casas das autoridades, uma rua com residências de comerciantes e funcionários, e outra rua, a do mercado, onde se armazenava o necessário à subsistência? Minha mãe contava que, sendo elas as únicas mulheres em meio a nove irmãos homens, quando muito novas podiam ainda subir com eles nas árvores do largo, jogar bola, pular carniça, mas assim que chegavam à idade escolar e entravam para o colégio de freiras começavam a ter que aprender “o comportamento que convém a uma moça bem-educada e de boa família”: ser recatada, discreta, fazer as orações da manhã, da tarde, da noite, se confessar semanalmente, não faltar à missa aos domingos. Confissão. Pecado. Termo recorrente. Ameaçando as fantasias da imaginação teimosa e fértil. Estabelecendo normas e regras. Rígidas. Exigentes. Vigilantes e atentas a pecadores e a pecados. Pecados pelos quais o padre perguntava, incisivo, em cada confissão semanal. Lembrando que não só em ações se peca, mas até em palavras e pensamentos. O que essa couraça ou armadura construída dia a dia vem a ser para o corpo e o sangue que correm pelas veias pedindo vida, com seu inovar e renovar essencial? 

Os irmãos homens, ao crescer, iam para a cidade grande. Ou para a capital. Ou até para o exterior. Estudar, fazer cursos, escolher uma profissão, traçar seus rumos de vida. As mulheres ficavam ali, Penélopes silenciosas tecendo os minutos de uma espera sem fim, sem aceno de esperança ou mostra de um possível desespero. Suas agulhas, ponteiros de um tempo recorrente, circular, em perpétuo e vazio retorno, um tempo sempre igual, sem mudanças, sem contornos novos na linha de um horizonte imóvel. Vida feita de ausências, da falta de um Ulisses, onipresente. Ainda não, ou talvez nunca vindo ou visto. Mas razão de seu destino feminino e único, de ser um dia esposa e mãe. Um dia a irmã mais nova se casa com um militar sediado por um tempo na cidade e colega de um de seus irmãos. Mas Tia Filhinha, aos 25 anos solteira, já se tornara uma “solteirona”. A quem só restaria o ficar vivendo, de favor, em casa da irmã e do cunhado. Vivendo? E isso é vida?

Teria sido mesmo assim a vida das mulheres ao longo de outras gerações? Para nós, mulheres de hoje, soa absurda a ideia de que até um século atrás só raramente a mulher tivesse estudo superior, um trabalho, uma profissão, vida própria e independente. Mas era o que acontecia.  As mulheres que viveram a ruptura de princípios, valores, comportamentos e atitudes que marcou as décadas de 60 e 70 em diante, na época não tiveram talvez visão total do imenso salto qualitativo que isso representou para a Mulher. Sabiam apenas  que estavam quebrando 2.500 anos de silêncio ao dar fala à mulher. Que a imagem-modelo que Hécuba apresentava às Troianas – “Uma boca silenciosa, um rosto sempre sereno, eis o que eu oferecia a meu marido” – era uma imagem de submissão, de repressão, de dependência. Que queriam mudar, dando à Mulher não só voz e fala própria e o estímulo a fazer-se ouvir, como substituindo a submissão pelo companheirismo, a repressão pela manifestação e ação, a dependência pela liberdade de decisão e escolhas de vida. Mas saber não é viver. Mesmo naquelas décadas, em uma geração próxima, de apenas 30 ou 40 anos antes, ainda predominavam aqueles padrões seculares. Não. Não. E Não. Só muito depois vim a compreender o que pode ter sido uma vida vivida como negação permanente. Repressão. Não ousar o gesto, não ousar a palavra, não ousar a ação, a atitude que pudessem merecer qualquer reparo ou reprovação. Não ousar. Nunca. Nada. Sequer exteriorizar e expressar o afeto mais fundo que pudesse sentir dentro de si.

O afeto. O pouco SIM vivido em sua vida. O afeto que em criança eu não conseguiria explicar, nem perceber talvez. Sabia apenas que ela se tornara minha babá. O que parecia natural a todos, ela cuidar da filha caçula e única menina de uma irmã com 4 filhos. Afinal, era sua obrigação retribuir a casa e comida que recebia. Hoje eu sei ter sido um presente, uma presença viva em sua vida. O seu SIM único e ansiado. Mesmo que, ainda e sempre, vida vivida apenas através de, por outra, para outra. Mas ao ocupá-la o dia todo, quando menor. Ao correr para ela ao vê-la, gritando, alegre: Tia! Ao pular em seu pescoço, ou sentar em seu colo e abraçá-la, havia em seu desajeitado abraço de retorno um SIM agradecido à vida. Como se o Filhinha que lhe dava nome fosse em verdade meu. Como se eu é que fosse para ela a filhinha sonhada. Que a vida lhe negara. E que mais uma vez tomava emprestada.

Mas, à medida que eu crescia fui descobrindo outra faceta sua. De início, apenas entrevista. A de uma Tia que sabia muitas histórias. Que a cada noite tinha uma história nova pra contar. Ou a reinventar. Mudando cenas. Introduzindo personagens novas. Imitando falas. Invertendo situações. Nessas histórias tudo era possível. E as alterações se sucediam, provocando a imaginação, puxando os fios da criação, da invenção, suscitando comentários, despertando o senso crítico, a reflexão. Já adolescente, um dia em que eu me queixava da mesmice e da chatice da escola, ela me contou. Contou que um dia seu pai fora falar com a Madre Superiora do colégio que não queria que sua filha fosse obrigada a confessar e comungar. Que, sendo positivista e maçon, ele achava que religião deve ser escolha e decisão pessoal. As alunas terem aulas de religião ele admitia, era uma forma de conhecimento. Mas obrigar a seguir uma religião era contra seus princípios e ele pedia que a filha fosse dispensada disso. A Madre disse que se ela não obedecesse ao mandado seria expulsa da escola. E ele respondeu simplesmente que então a considerasse já excluída. Sem escola, o pai passara a lhe dar livros. Sem ordem ou escolha. Lia tudo que lhe caía nas mãos. Começou a pedir livros emprestados aos vizinhos. A seu pedido, os irmãos da capital e do exterior também lhe enviavam livros. E ela se tornou autodidata. E leitora voraz. 

    E assim também me abriria um horizonte maior. E me daria uma bússola para meu incessante caminhar. Apontando um norte, o horizonte sempre aberto. Sem pré-traçar caminhos. Mas instigando a abri-los com meus passos. À imaginação e invenção acrescentava aprofundar a reflexão crítica. A parada e o pouso. Quando eu pensava ter chegado a uma conclusão, ela daí puxava uma nova pergunta. Em um questionar permanente. Que me ensinava a pensar por conta própria. E me preparava para os movimentos que nos anos 60 e 70 eu viria a viver e estavam transformando o mundo, aqui e alhures. Mas um questionar que eu às vezes sentia atingir pontos seus sensíveis e dolorosos, mesmo sem jamais transformá-los em queixa ou acusação a terceiros. Por exemplo, a desigualdade homem-mulher. Não entrou nos chavões, depois tão repetidos, sobre a sociedade patriarcal, machista, misógina e seus preconceitos que alicerçam atitudes e comportamentos. Deteve-se a discutir a noção, em foco na época, dos direitos humanos como base para construir uma sociedade mais aberta e livre. E buscou a visão chinesa do Yin e Yang, que atribui ao feminino o ser passivo, noturno, intuitivo, mergulho e interiorização, descida em profundidade. Mas enfatizando que, assim como o Sol e a Lua, o dia e a noite, a luz e a sombra se conjugam em nosso tempo humano, todo ser, homem ou mulher, deve equilibrar dentro de si as duas energias, para ser inteiro e presente no mundo. (Como, ao que eu já intuía ou percebia, lhe doía não poder ser). Seduziam-na muito as biografias, não só de personalidades que deixaram marcas, mas também as histórias de vidas anônimas, sementes e raízes subterrâneas que sustentam o tronco e a copa das civilizações surgidas ao longo dos tempos.  Histórias, sabedoria. Experiências vividas. Talvez pelo muito que leu, ouviu, repensou e me transmitiu antecipava noções emergentes e hoje correntes, desvelando a riqueza das trocas, a beleza da diversidade e da pluralidade. Razão por que raras vezes dela ouvi um Eu, exceto para ressaltar um ponto de vista particular. O nós precedia a maior parte dos verbos em que se conjugavam o afeto por gente – sobretudo pelos pequeninos, pelos excluídos e marginalizados -, e as esperanças de um mundo futuro aberto a todos.

Aquela mulher que eu, menina, vira magrinha e frágil, com o passar dos anos foi me comprovando que pequenos frascos podem realmente conter, concentrado, um perfume capaz de aromatizar o ar em torno. Se déssemos vez e voz a esses excluídos e silenciados, o quanto teriam a dizer! Hoje, lembrando com carinho sua figura, me pergunto: o que ela deve ter vivido e sofrido com essa contradição tão aguda, tendo dentro uma vida interior pulsante e rica, e sendo forçada a uma vida externa represada, silenciada, cerceada, dependente?

Hoje, quando ouço a expressão histórias de vida, me pergunto: é possível uma vida sem história? Uma biografia que seja apenas um traço fino e cinzento numa página em branco? Onde o verso, o avesso dessa página, onde certamente foi ficando gravado – bio-grafos, registro de vida – tudo que foi vivido, sentido, sofrido, pensado, desejado, sonhado?

Hoje eu creio que é quase impossível dizer exatamente quem é um ser humano. Não só porque em uma humanidade composta por bilhões de seres humanos, é espantoso saber que cada um é único, singular, irrepetível. E compreendo que, mesmo quando ultrapassamos as aparências, cada ser humano é tão profundo que quem julgue conhecê-lo em seu fundo mais fundo não pode afirmar que ele não seja mais capaz de vir a surpreender.

Hoje eu gostaria apenas de dizer a ela: Tia Adelaide, talvez você não saiba, mas a mulher que eu hoje sou – e que talvez seja a que você gostaria de ter sido – deve muito a você. Muito obrigada, Tia Adelaide.

 

A MORDAÇA                          

                                                                          A meus filhos Denise, Eduardo e Gilberto.,

                                                                                     

Conseguira! O corpo, exausto, se cola à porta às suas costas, os olhos se fecham, cansados. A porta, trancada. Alívio. Boa, a sensação de ter escapado, conseguido. De poder enfim respirar, descansar o corpo arquejante da fuga e da corrida. Os olhos cerrados, gratos de não precisar mais olhar para trás e em torno, de adivinhar sombras e ameaças. Ali estava a salvo. A porta se fechando era escudo, anteparo, entrada no abrigo acolhedor. Abrigo. Distantes os gritos dos cães e as mãos dos senhores. Distante, a ameaça presente no grito companheiro que ainda ressoa doídamente em seu interior : Suma! Desapareça! Se te pegam, é o fim!

O fim. Tantas vezes pensado. Possível. Pressentido. Sabido. Ilusão: saber não é viver. Vida tem sangue e som, estala e grita. Antes apenas sabia. Sabia  o que era ser uma caça, caçada, buscada. Ouvira os latidos seguidos dos cães que, de rastos, coleira fechada nas mãos dos senhores, farejavam as presas por eles buscadas. Sabia de tantos, caçados e apanhados, corpos despedaçados nos dentes dos cães. E, súbito, ela própria agora vivendo o tornar-se caça, presa caçada – uma a mais.

    A raiva impulsiona pés e movimentos: não me pegarão! Escaparei, como outros – a lembrança anima, a alegria de enganá-los faz sorrir. Escaparei.Rápido.

Não há tempo a perder. E os pés se lançam à corrida. Corrida sem pausa ou parada, o olhar atento a estradas possíveis, procura incessante de atalhos, picadas, mapeando territórios em busca de rios e fontes com a sede funda de todos os que caminham, apenas um respirar mais longo para sentir o ar em torno e logo o pensamento de novo faiscando na mente e acendendo o estopim de alarme: ficar ali é morte certa, infalível  Não serei apanhada, banquete dos senhores! Pés já quase alados, avanços, recuos, rodeios, fuga necessária, criar distância, distância, distância. Dis – tân – cia. Poucos ainda os que já se dão conta, em mudo espanto, dessa humana caçada, caças e caçadores trocando papéis, invertendo posições, claro-escuro, mata e clareira, fuga e liberdade, vida – ou morte.

Vida. Agora está só. Só, mas livre. O silêncio dói nos ouvidos. Vai à janela: morros, árvores, mata, o escuro da noite recortando suas silhuetas caladas, gigantes imóveis contra o fundo céu noturno. Só, sob um céu estrelado. Em criança se perguntava quem acendia assim o céu: lá em cima as estrelas que conhece, o Cruzeiro do Sul, as Três Marias, o Escorpião, o Centauro, Aldebarã – esperança de aurora. Quantos estariam agora, de outros lugares, olhando este mesmo céu? Na memória o olhar espantado e interrogante das crianças diante daquele mundo novo e violento que lhe abrem, tão diferente do até então vivido: prender você, mãe? Mas você não é bandida! dissera o menor. Como explicar que às vezes bandidos são os que prendem e não os que são presos? Explicar essa outra história, diversa das que antes ouviam, história em que os personagens são brutalmente reais e o final nem sempre feliz? Só. Sensação de quietude, imobilidade. Solidão encontrada. Paz. Respira longo e fundo o ar limpo em torno, repousada. O horizonte existe, mesmo além, muito além.

Vida. Escapara. Só, mas viva. Súbito, agitação frenética a invade, necessidade de sentir a vida, corrente, sangue nas veias, pulsação. Movimentação rápida,  ansiosa e dispersa,  fechar janelas arrumar a casa mãos lutando com janelas que emperram cadeados que não se trancam luzes que ainda não sabe como e onde se apagam troca desnecessária e mecânica do lugar dos objetos andar mexer agitar-se até a parada gritada pelo corpo extenuado.

Desaba no sofá.  O lampião sobre a lareira é um olho aceso na penumbra, criando um jogo dançante de luzes e sombras. Sua própria figura, uma sombra entre outras, forma inerte, peça de mobília, um objeto a mais. Começa a falar sozinha. E sua própria voz lhe soa estranha, como se fosse de uma outra pessoa. Mas se não havia ninguém ali. Sente sede e vai em busca de água. Água. Ruído da água caindo no copo e… o que é isto? um outro ruído. Fraco, mas audível, passos leves, sorrateiros no som trazido pelo ar. Atenta, enrijece o corpo, perscrutando o espaço em torno. Havia alguém, sim, com certeza. Na sala ou no quarto ao lado. Hesita um instante, em espera, mas decide-se e caminha para lá. Nada. Volta, intrigada: ouviu ruídos, tem certeza. Senta-se novamente, em atenta espera. Dos cantos escuros da sala crescem sussurros, as sombras parecem trocar palavras, a sensação é de que está sendo espreitada, de haver em cada canto um par de olhos à espreita. Será que estava presa em uma armadilha, que a tinham seguido e… Não sabia de onde vinha aquele olhar invisível, mas sabia sua presença. Uma presença. Ergue-se novamente e resolve vasculhar a casa. Acende todas as luzes. Luz clara invade o aposento. Começa a percorrer toda a casa, vasculha aposento por aposento, abre armários, remexe gavetas, quadros e fotos nas paredes. Nada, coisas inertes, paradas. Mas apenas se detém – a presença, de novo, tão próxima e envolvente que quase sente seu sopro na nuca. Mas não há nada, viu que não há nada. É só ter calma, controlar-se. Apagar a luz. E dormir.

Noite insone, ouvindo o agudo silêncio em redor. Pensamentos redemoinhando na mente, folhas soltas que a violência vivida levanta e agita. O que sou o que faço o que fiz para que porquê o que quero o que posso por que não sou mais simples ou menos inquieta porquê  porquê  porquê.

Detém-se. De novo, aquela  estranha e indefinível sensação de presenças na casa. Presenças, audíveis, quase palpáveis. Controla-se: restos da fuga e da perseguição, das notícias sabidas dos companheiros que… Respira fundo um ar frio que lhe dói nos pulmões. Tem que  se controlar. Ter calma. Amanhã estará bem. E recomeçará a escrever.

Dia claro. Ninhos no telhado explicam os ruídos noturnos: andorinhas. Ri de si mesma. O horizonte existe. E é azul.

Escrever. Diante da página em branco, esta certeza existe: é sua escolha e compromisso. Seu impulso de sempre. Seu ofício maior e mais querido. Escrever. Reassegurar-se naquele contato sempre amoroso com a página em branco, à espera. Seguir em frente. Falar. Registrar. Transmitir. Comunicar. Comunicar: vital. Trabalhando, oficineira teimosa, essa matéria impalpável e única – a palavra – apelo e desafio, sedução e entrave, elo que liga, desliga, religa. Escrever. Re-ligar. Sua religião: a energia amorosa da união pelo verbo. Escrever, escrever, escre… A sensação da presença atrás é tão forte que o corpo se vira num repente: ninguém. Respira fundo o ar leve e tranqüilo em volta.

A página em branco renova seu mudo convite à mão, que volta a escrever, a escrever, a… Súbito, sur…presa! Pelas costas, sem fuga ou defesa, sente-se atingida e num choque brutal sente a mordaça. A mordaça que lhe é posta com gana e violência, e vai sendo apertada, apertada até o limite, tanto que suas mãos que se erguem, tateantes e ansiosas, não conseguem tirar. Susto. Espanto. Surpresa. Presa! O corpo livre, as mãos abertas, mas… a mordaça. Impressentidos, invisíveis, haviam conseguido chegar até ela. E agora, a mordaça. Dura, vedando boca e nariz, impede o ar de que  precisa, trazê-lo a seus pulmões, dando anima e vida a seu corpo, esse ar de que necessita, tanto, esse ar que sempre inspirou e expirou sem cessar, que lhe alimenta o interior e lhe sai pela boca, que é seiva e razão de sua vida – esse ar que agora não circula, não pode circular, cortado, seiva estancada pela mordaça interposta, impeditiva, assassina, letal.

O ar, cada vez menos, rarefeito, respiração presa, cortada, difícil. Ar pouco, não ilude os pulmões que pedem mais, mais, mais – sem conseguir. Respiração pelo buraco de uma agulha. O corpo, fole cansado do esforço de tentar, os olhos se fechando, estonteados até com o esforço de ver, de prever: quanto tempo isso vai durar?   Quanto tempo esse corte, angústia e sufocação? Quanto tempo  antes que o ar se acabe de todo?. O tempo é curto. O momento é este. Se o ar lhe faltar de todo será a morte. O fim.                                                                                                                                                                                                                                                                                              

 O corpo, exausto, pede pouso e parada, sentindo o peso de cada mínimo gesto. Os olhos se fecham, a mente se concentra, atenta – que fazer? – as mãos tateiam os nós cegos, fechados, fora de seu poder desatar – que fazer? – os pensamentos disparam, céleres, confusos, tem que fazer algo – que fazer?- o ar cada vez mais rarefeito não chega aos pulmões que redobram o esforço, tentando puxar, sugar, conseguir algum sopro de ar que não vem. Exausta, sente, entontecida, que os olhos se estreitam, a mordaça apertada, asfixiante, não deixa passar um mínimo de ar, não dá espaço para a entrada daquele ar que os pulmões agoniados reclamam, ar…ar…ar…! Morrer assim, com tanto ainda por dizer, por fazer? Deus, raiz de todo dar, de alguém que doou seu sangue por…

Sangue. De onde esse estranho gosto de sangue na boca? É sangue, sim. Úmido. Quente. Sangue. De onde? Atenta, sente na boca algo novo, despertando-lhe o gosto, provocando sua língua e paladar. Reabre os olhos, aguça os sentidos, atenta, sente os dentes que se cerram, movimento involuntário, sensação de dor. Mas alívio. Retorna o gosto quente e algo miúdo, corpúsculo de carne, agora desliza em sua boca. Atenta mais, e mais, até que percebe: comendo os próprios lábios, cavava abertura entre a mordaça e a boca, dando passagem ao ar, alimento. Retoma o gesto, agora consciente, deliberado.

E alimentada de si mesma, em comunhão consigo, começa a respirar.

                                                                            Brasil, 1968.          Após o AI-5 –                                    

                                                                         Ato Institucional nº5 da ditadura militar.

 

 

FLASH  DO COTIDIANO

 Conto ou não conto?  E o que é que eles têm a ver com isso? Será que vale a pena contar, que vai lhes causar surpresa, espanto, alguma reação, ou que vão  simplesmente achar que já viram esse filme, não há nada de novo no que digo, e que…

Susto! Nem vi quando ela entrou. Mas agora que está aqui, parada, à minha frente … eu vou ter que contar.

Deveria começar do início. Como faz a maioria. E como acontece na vida real, onde as coisas têm princípio, meio e fim. Mas nas coisas contadas hoje em dia isso já não se usa, dizem que essa ‘linearidade’ está superada. E, além disso, ela já está ali. Me olhando, me esperando. Parece que ela adivinhou minha hesitação, minha dúvida, porque antes mesmo de qualquer gesto ou palavra minha já começou a falar:

  – Cheguei adiantada, antes da hora, não?  Mas já estava aqui e já tinha dito algo, mas você estava tão ensimesmado, tão mergulhado em suas reflexões ou meditações que nem… Mas eu não aguento mais, eu tenho que falar e alguém tem que ouvir antes que…  que aconteça algo pior. Eu não sei se vão entender, ou me julgar, ou me culpar, ou se nem querem saber por que e como foi que…

 A voz dela foi sumindo, me soando distante, eu só via agora aquele rosto, um rosto aflito, ansioso, os olhos inquietos, perturbados, a voz saindo aos arrancos, a fala fragmentada, o rictus da boca distorcendo os traços de um rosto que já foi mais bonito, mas que ainda conservava , ou devia conservar quando tranquilo e alegre, como de  hábito, algum atrativo e sedução. Mas que neste momento…

 – .. e sabe quando um dia você se olha no espelho e se dá conta …se dá conta de que… de que isso não pode e não deve ser assim, que isso não pode mais continuar, que eu tinha que… eu tinha que fazer alguma coisa, nem que fosse…nem que fosse tentar o que fiz…nem que fosse… pra pagar depois o preço… pra ter o castigo… Quando criança eu sempre fui rebelde, no colégio diziam que eu era ‘mal comportada’… embora eu nunca tenha entendido bem o que era isso… se era porque eu ria das outras meninas que andavam sempre em fila e abaixavam a cabeça e se calavam quando ouviam um sssshhh! exigindo silêncio e riam pra dentro e não diziam o que sentiam e o que pensavam, se é que pensavam o que diziam ou tinham algo pensado ou não pensado a dizer. Minha mãe, eu achava que era de outra geração, da geração em que a mulher é só costela de algum Adão, braço direito de um homem, filha, esposa, mãe, dona de casa, jamais dona de si mesma, jamais com uma vida própria, vontade própria, sonhos, desejos, fantasias – quem não tem? – trancados em um baú dos ossos escondido em algum sótão de seu corpo e vida. Colocada sob o rótulo de ‘prendas domésticas’, ela própria domesticada, sem vez e sem voz, aprendendo a seguir os comandos de seus deveres e obrigações – casa, tanque, cozinha, fogão, feira, mercado, leva criança pro colégio, busca criança no colégio, ouve o marido, obedece ao que ele manda, pede dinheiro para as compras, ouve, passiva, sua reclamação dos gastos e sua ordem de fazer mais economia, ouve rádio, costura, faz tricô, crochê, não tem amigas ou talvez uma ou outra, vizinha, a quem queixar suas dores ou contar as travessuras dos filhos ou suas notas altas no colégio, e só sai pra ir à missa, e uma ou outra visita levando a filha junto, pois o marido não quer que ela saia sozinha. Ah! Eu jurei, jurei que não seria assim, que minha vida seria diferente, que eu ia estudar e trabalhar e ser independente e…

 Olhei-a mais detidamente: não, não era uma figura ou personagem nova ou diferente, era também apenas mais uma de toda uma geração. Uma geração outra, é verdade, que abrira seu espaço, se tornara mais livre e independente, capaz de ter e assumir escolhas próprias.

 – … não, não foi pra isso que estudei, fiz cursos, concursos, entrevistas, passei por dezenas de escritórios, aguentei salários pequenos e atrasados, almocei sanduíches, acumulei no currículo datas e nomes e firmas e cargos e funções de dar inveja a  muita gente, aguentei chefes ordenando ‘fique ali naquela mesa do canto’, e ’hoje temos reunião às 18 h, não pode sair no horário’, e ‘leve pra casa os formulários, que não devem ser vistos pelos outros’ e ‘preciso disso pronto amanhã cedo’, e ‘amanhã mande chamar o bombeiro que a pia do banheiro está entupida’ e entra dia e sai dia, entra ano e sai ano a mesma coisa, telefone, computador, compromissos, relatórios, hora extra, tudo igual, mesas, gavetas, papéis, ordens, chefias, prazos, projetos, arquivos, cheques, máquinas, só mudando o rótulo recepcionista, datilografa, arquivista, programadora, secretária, gerente, produtora executiva e os negócios do patrão prosperando e minhas despesas e dívidas crescendo, e o dinheiro sempre acabando antes do fim do mês e o entusiasmo de cada cargo novo logo sumindo e a dupla, tripla jornada, trabalho, casa, filhos, me esgotando, me exaurindo,  até que…até…

Não, não é assim que quero apresentá-la e descrevê-la, não é assim que quero que a vejam, e também não vou permitir que fique fazendo catarse às minhas custas. O que vou contar perde o interesse e credibilidade se ela for vista só nesses traços genéricos e só por seu ângulo pessoal. Não. Ela se queixa assim, agora e sempre, apenas porque quer que quem agora a vê e ouve a entenda e fique a  seu favor. Quer atrair para ela a atenção, ser a protagonista, a personagem principal. Mas se sou eu que vou contar o ocorrido, vou fazer ver também que ela não é só essa figura que descreve, que ela se tornou de fato uma mulher decidida, que no trabalho também dá ordens, e é querida e respeitada, que é por suas qualidades que ocupa seu cargo atual, que pelos padrões atuais de nossa sociedade é considerada uma mulher bem sucedida, que chegou aos 40 anos ainda jovem e bonita, que anda bem vestida, tem um bom emprego, comprou um belo apartamento e o decorou a seu gosto, tem seu carro, casa de veraneio, namorou e casou com quem quis, tem amigas, sai, passeia, se diverte e…

Pronto. Bastou falar nele e ele entrou em cena. O outro personagem dessa história. Chegando também sem me pedir licença, entrando assim, impondo sua presença e voz.  Pensava que ele fosse um desses caras famosos e ricos que olham pra você de cima, com ar arrogante, como se você fosse um zero à esquerda, mas não, olha só, ele veio com um sorriso aberto, a mão estendida… Pra ser um bom narrador eu deveria descrever toda a variada fauna humana que o rodeia, sua elegância, e extravagâncias que eu não imaginava antes de conhecê-lo. Mas deixo isso por conta de quem me ouve, ou vai me ouvir.

Vou ter que controlá-los, senão vão começar a discutir, precipitar a ação e o que eu contar ou disser depois vai ficar deturpado e sem sentido. Olha só, ele já começou. E sei que ela não vai ouvir calada, que vai também querer falar. Vai surgir um conflito, com certeza.  Vamos ouvir o diálogo, e o que dizem ou o que têm a dizer sobre o que ocorrido, agora que já  

 – Está se queixando de que, hein? As mulheres adoram se fazer de vítimas! Mas se alguém tem razão de queixa aqui sou eu. Ou melhor, mais que razão de queixa, razão de mais, de bem mais.

– Você…? Queixar-se…? Não sei de que, é um executivo falado, faz o que quer da sua vida e dos outros, nada se faz na empresa sem sua presença, seu aval, sua assinatura, tem um salário invejável, fora as bonificações e os lucros,  convive com os figurões mais importantes do país, tem carros e motoristas à disposição, come e bebe em restaurantes de luxo, quando viaja…

-… quando viajo, fico nos melhores hotéis, as mulheres  me cercam, os homens me adulam. Sou peça básica na empresa, sim, e na própria engrenagem social. Não nego. Mas…

– Só não tem tempo para a mulher e os filhos…

– Você é que não vê que tudo isso também cansa, desgasta, que estamos a cada instante obrigados a tomar decisões que não podem ter erro, pois delas dependem negócios que afetarão a vida de muitos, que temos que provar, demonstrar, exibir seguidamente nossa criatividade e empreendedorismo, que chega um momento em que nos perguntamos se temos mesmo alguma amizade ou amor, ou se só nos veem com um imenso cifrão, que atrai olhares e interesses de muitos, ou como um cofre em que vão apenas buscar dinheiro. E a cada dia estamos arriscados a sumir, num acidente ou enfarte prematuros.

 Olha só, ela ri, debochativa.

 – E depois diz que somos nós que nos fazemos de vítimas…

 Vê-se que o que ele diz não significa nada para ela. Mas olhando os dois acho que fiz uma boa escolha. O que vou contar é um filão narrativo atraente: a relação homem-mulher. Que sair falando de miséria, de morte, de depressão são coisas que não agradam. Mas sinto que no caso deles há algo mais no ar. Pensando bem, ele é mesmo um personagem estranho. Invejado por muitos, adulado por tantos, mas uma pergunta me ocorre também ao vê-lo: o que será que ele desejaria realmente da vida? Quais seriam seus desejos? Seus sonhos? Ele falou em amizade e amor com um tom de nostalgia, ou de descrença, ou de saudade de algo impossível. 

Ih! Começaram a discutir feio. Eu sabia que isso ia acontecer. Querendo ou não esse acaba sendo o caminho desse tema, sempre tão atual. Um tema que

Pararam a discussão. E agora, o que vão fazer? O que será que vai acontecer? Sim, porque é essa a pergunta que surge quando o conflito chega cresce, e gera tensão, suspense e até curiosidade em que ouve. Sim, porque certamente vão fazer alguma coisa. Pelo visto, a lógica seria falar sem separação – se a lógica fosse a ordem das coisas, o que não é, sobretudo quando com emoções e sentimentos fortes. E pelo jeito não é a lógica que comanda situações como a que está surgindo.

– Há duas semanas, como há muito eu já não confiava mais em você, pus um detetive em sua cola. E ele me confirmou, com datas, horários e fotos. Olha aqui: suas fotos, entrando e saindo de hotéis, e do apartamento e do carro dele.

– Hum…  Descobriu que é corno e está com o orgulho ferido?

– Orgulho… Acha que é só uma questão de orgulho?

– Ou de ver sua virilidade desmoralizada, sua macheza ameaçada, de imaginar o que os outros podem saber ou pensar ou dizer, sei lá. Então quer o divórcio? Não tem problema, eu também quero. Porque amor é coisa que não existe mais, há muito tempo, se é que algum dia existiu mesmo!

– Divórcio? Pensa que eu vou passar recibo, aceitar o divórcio, você arrancar de mim uma bela pensão em nome dos filhos e ficar livre, solta e rica? Não, vê-se que você não me conhece mesmo.

– Hum… Vai querer se separar, exigir a guarda dos filhos e me deixar na pior, na rua da amargura, sem um pingo de grana? Não tem problema, eu sei me virar sozinha!

-Não. Eu prefiro resolver isso de outra maneira.

 Grito dela, de pavor;

– Que…?! Enlouqueceu?! Você não… você não vai…

– Pensou que não sou homem suficiente pra lhe dar o troco devido?

– Espere… Calma… Lavar a honra com sangue é coisa que já está fora de moda. E é coisa de gentinha!

– Quem disse? Poderia pagar alguém, mas quero fazer eu mesmo.

–  Se você me matar vai ser um escândalo! E você vai preso!

– Não. Eu tenho dinheiro. Pago bons advogados, e eles livram minha cara. E qualquer juiz homem vai entender minhas razões.

– E as minhas razões, você não pergunta. ? Não! Espere! Eu… eu…

Tiro. Ela cai. 

 Fico olhando esses dois personagens e me pergunto novamente: Será que foi mesmo assim?  Bem, foi assim que eu imaginei a cena. Mas pode ter sido diferente. Ele pode  ter arrastado a mulher até o carro, agora suplicante, chorando, tentando explicar, ele alongando sua agonia, dirigindo a mil, até chegar a um lugar ermo e aí… Ou. Ou. Ou… São tantas as possibilidades. Mas no noticiário da TV, entre dezenas de outras notícias, vida e morte são apenas duas linhas, duas imagens: o retrato dele, com o locutor dizendo “Conhecido empresário mata a mulher e se entrega à policia”. E a figura do seu advogado completando: “Quando ele confirmou que ela há muito o traía, ficou fora de si”.

Não disserem sequer o local. Só fizeram questão de assinalar seu status social e econômico que não é comum em ocorrências como esta, ou que, se acontecem, são logo abafados para evitar escândalo. Mas é assim que os noticiários da mídia registram o que acontece. Apenas o fato. Um tiro, uma vida. Ponto.

Vida. Palavra pequena. Breve. Simples. Quantos se lembram de que nela cabem desejos e faltas e sonhos e esperanças e realizações e frustrações e mágoas e alegrias e tanta,  tanta,  tanta, coisa mais?

Então por que estou me dando ao trabalho de imaginar o assassinato, passo a passo, cena a cena? Talvez porque, como escritor, tenha o hábito de observar o mundo em que vivo e busco descobrir como pensa e sente e age quem nele vive. E me soa trágico, ou cômico, ou dramático o que acontece com as pessoas e não consigo ver a vida e a morte acontecerem como coisas banais. Eu imagino o que pode ter ocorrido. Invento cenas. Com a facilidade de quem toma um café e o trabalho que dá – não o café, a invenção – faz com que me sinta capaz de grandes voos. Aqui, por exemplo, se eu resolvesse dar aos personagens um nome sugestivo, desses que arregalam os olhos da mídia – por exemplo, Fernanda, ou Rodrigo, ou Tony – e sugerisse uma música de fundo, e um ambiente fino, um whisky…  quem sabe provocaria um diretor de cinema … Ou se a notícia escrita por mim viesse a ser publicada começariam dizendo que um escritor conhecido e reconhecido – que seria eu – tinha feito uma narrativa precisa e fiel dos fatos e que… Hum… Não, esta não é minha ambição no momento. E é bem pouco provável. O que vai acontecer, ou aconteceu, é sair mesmo uma breve noticia no jornal da noite da TV. Já não se faz mais diferença entre o que é vivido e o que é inventado, as noticias de fatos reais são vistas e vividas como ficção – ‘afinal, acontece tanta coisa que se eu sentir mesmo o que significa cada coisa vista e ouvida eu enlouqueço, eu tenho que me defender, o que não é comigo nem com os meus – graças a Deus! – não pode nem deve me preocupar’ , como disse meu amigo.. Afinal, a TV é uma fábrica de sonhos, os fatos são aí vistos como ficção, cenas de novela, e assim não mais assustam ou ameaçam.  

 Essas atitudes e idéias tornam-se ostensivas nos videogames destinados a crianças e adolescentes (e muitas vezes jogados prazerosamente também por adultos…) Observe: neles a guerra é sempre uma “brincadeira”. Vencedor é quem destrói mais, quem consegue aniquilar o outro. O outro é sempre um adversário, o inimigo a ser destruído ou eliminado. E para esta destruição vale tudo: explodir, derrubar, esmagar, afogar, bombardear, em suma, destruir, eliminar, matar – verbos que vemos crianças e adolescentes repetindo em coro num jogo, assinalando cada jogada feita. O sucesso é conseguir dominar e/ou destruir; o erro é não conseguir destruir ou matar. E quem “erra” é objeto de zombaria, pode ouvir um som irônico, ou até uma voz debochando “errou, errou…” Se a violência é a norma, é a regra do jogo, por que não seria normal, ou natural, alguns jovens metralharem colegas em uma escola dos Estados Unidos, como nos mostraram os noticiários, ou o documentário “Tiros em Columbine”? Ou como é que crianças e adolescentes vão saber que não é um jogo quando a OTAN bombardeia a Iugoslávia, ou Milosevic esmaga a população de Kosovo, ou no Timor Leste há um massacre, ou em Ruanda e Angola comete-se genocídio?

 Então o que posso fazer é me divertir transformando também esse fato em ficção e  brincar de contá-lo como meta-narrativa, alinhando e usando os elementos que recomendam os manuais do gênero, e nele esboçando o processo criativo da narração.  Falta apenas o título. Ah, ponho “Um flash do cotidiano”. É só isso mesmo. Nada mais.

Ih! Segundo os manuais ficou ainda um item por ver: o que este fato pode acrescentar ou deixar para quem o lê e ouve?

Como é que quem hoje escreve se sentiria se lhe acontecesse, como a Goethe, quando viu seu Werther levar centenas de jovens ao suicídio? Não tenho a pretensão de ter tamanha (ou tal) influência, mas por isso eu me perguntei, antes de começar, se valeria a pena, o que isso representaria para os leitores ou ouvintes, caso eles viessem a existir. 

Mas agora, realmente, não sei. Se as estatísticas comprovam que no Brasil há milhares de mulheres, a cada ano, assassinadas pelo marido, namorado, ou companheiro, o fato que eu conto nada tem de inédito ou de insólito, nem causa mais o espanto e a indignação que deveria causar, por mais que a mim ele impressione e revolte. Quantos ainda pensam que cada número dessa estatística, ou de qualquer estatística, não é algo abstrato, tem atrás vidas humanas, grito, sangue, suor e lágrimas? Um assassinato não é imaginado e sentido como eu vi e contei, é só um número em uma estatística. ?

A “banalização do mal”. A expressão de inicio assustou. De verdade. Agora ela própria se tornou banal. Vulgar. Não surpreende mais. É apenas uma constatação, para poucos  ainda incômoda. Por mais que essa ideia mesma seja mais incômoda ainda.

 Ponto final. Não! Surpresa. Alguém que leu que conto, gostou e ofereceu publicá-lo em uma revista de moda masculina, que o aceitou, não sei bem por que. E agora, já pensou? Imaginem se qualquer dia eu entro no metrô vejo alguém lendo este conto, impresso, em uma revista? 

                                      O Grito Negro

  Como diz Alberto Memni em “Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador”, uma das armas de que se serve todo dominante é alimentar permanentemente a noção de uma pretensa “inferioridade” do grupo, raça ou povo colonizado, e até mesmo a baixa-estima do próprio dominado, assim naturalizando ou ocultando sua dominação e exploração.

Não é preciso muito para demonstrar, por exemplo, que o racismo tentou “justificar” sua agressividade falando em desigualdade de valor das raças,  ligando-a inclusive a fenômenos de classe e dividindo-as, tal como às raças, em “superiores” e “inferiores”. Dar, portanto, à raça negra, seu devido valor, resgatar sua presença, seu papel e importância em uma história “oficial” em que ela sequer aparece – a não ser como escrava – é fundamental até para a própria História de nosso país, e para o (re)conhecimento de nossa formação como povo e nação. 

Pois a História, se verdadeira, fala de um passado como passos de um caminhar que marca cada situação concreta e o ponto de vista do qual se olha – aqui, o do negro e sua ação. Marca assim o lugar de fala, a partir do qual se pode fincar pé e tomar posição. Visa a resgatar uma memória e dimensões culturais esquecidas ou perdidas. E nos lembra que discriminação e exclusão são uma nova e disfarçada forma de dominação – algo que precisa estar na mente de todos em um país que se mostra, ele próprio, ainda tão subserviente em relação ao que vem do estrangeiro e de um reverenciado “Primeiro Mundo”.  

 

                                     O Grito Negro

 

Abertura-Música: Trabalha, trabalha, negro, ô…(bis)[1]

Luz abre sobre a 1ª ala ou grupo:   plantadores de cana e seus verdes, sobre o estribilho acima, que continua em BG:

 Coro do grupo: Verde é o canavial

                            Doce o açúcar que dá

                            Mas quanto custa o trabalho

                            De um engenho sustentar?

                                                                                                                                                        

Música sobe (só o estribilho):

                           Trabalha, trabalha, negro, ô…

Desce e fica em BG. Em outro ponto, luz vermelha marca, no escuro, apenas as silhuetas de negros, pés descalços, dorsos nus, um amarrado branco de pano grosso, com pontas, marcando os quadris.

Música desce de todo, substituída pelo próprio coro de suas vozes graves, sublinhando o trabalho no garimpo:

Coro (grave) –   Gira bateia

                            Gira, bateia …(bis)   

Em outro ponto, formando  progressivamente uma cruz, novo grupo de negros, lâmpadas vermelhas de mineiros à testa, picaretas nas mãos, alterna com os primeiros. Seu coro de vozes agudas acompanha a coreografia do trabalho nas minas:

 

Coro (vozes agudas) – Abre o sulco    (

                                    Fura o morro    (

                                     Cava a senda,  (   bis

                                     a galeria..         (

                                                                Música (estribilho) retorna:

                                 –  Trabalha, trabalha, negro, ô…

                                                                  Em mais um ponto, luzes claras vão introduzir o 4º grupo – o das mucamas – com seus turbantes brancos, suas batas e colares etc. Sobre os coros masculinos, que permanecem em BG, surgem vozes femininas, em seguidos gritos e ordens respondidos pela silenciosa coreografia das mucamas:

–     Ô Fulo! Ô Fulo! [2]

“vai forrar a minha cama,

 pentear os meus cabelos…

–     Vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulo!

–     Vem abanar o meu corpo,

 que eu estou muito suada…

–     Vem coçar minha coceira…

–     Vem me catar cafuné…

–     Vem balançar minha rede

–     Vem me contar uma história

pra eu poder descansar…

–     Vem botar esse meninos

 pra dormir, que já é hora!

–    Cadê meu lenço de rendas

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê meu terço de ouro

Que o teu Sinhô me mandou?

–     Ah! Foi você que roubou!

O feitor vai te açoitar.

que foi você que roubou!    

Súbito, estalar de açoites. Coros cessam e berro ecoa no silêncio; luzes se abrem um pouco mais com esse grito, que surge simultaneamente dos quatro grupos, a um mesmo gesto de braços ao alto, em súplica. Música:

Um Negro            – Ei ê lambá

                                Quero me acabá no sumidô

                                Lamba de 20 dias

                                Ei lambá

                                Quero me acabá no sumidô…

                                Ei ererê…

                                                                            Estalar de açoites ecoa novamente cortando a música e fazendo voltar á coreografia, estribilho e coro anteriores: o coro masculino de vozes graves e agudas cresce de novo dos dois grupos (garimpo/ minas) até novo grito:

Coro geral                –  Olha o ouro!   

                                                                …que o eco amplia, amplia, amplia:

                                  – Ouro!…Ou-ro! Ou-ro!

 

                                                                  No ritmo alucinado da “febre do ouro”, começam a entrar, por entre os braços da “cruz” dos grupos de escravos, os representantes das diferentes camadas sociais do Brasil colônia: luz se abre,

 

(3) O negro queixa-se do trabalho duro (lambá) e pede a morte) — Do disco O Canto dos escravos – Carolina de Jesus Doca- Geraldo Filme – Estúdio Eldorado.

                                                                  clara, sobre eles, deixando mais obscuras as quase silhuetas dos escravos. À medida que falam, estendem as mãos sequiosas para os escravos:

Sinhazinha                    –  Meu pai, quero fio de ouro

(de chapéu e sombrinha)   para bordar o vestido

                                           com que um dia vou casar!

Senhor

 (com sua  túnica            –   Dou cem arrobas de ouro

   enfeitada)                         pra ter carta de barão!

 

Um Bispo                        –  Paguem dízimos à Igreja!

                                            Só uma estátua de ouro     

                                      mostra a glória do Senhor!

 

Um contrabandista        – Dá todo o ouro que tens

(chapéu de couro, lenço     senão deixarás a vida

no rosto e arma)                 nesta curva do caminho!

       Luz que marcou cada um passa    

        agora a  dois do grupo de escravos:

Escravo                            – Guarda ouro no cabelo

                                         e leva a Santa Ifigênia…

                                         pra comprar tua liberdade!

Coro geral – OURO! OURO!

Coro das mãos estendidas -…pra gozar a nossa vida!

Coro dos escravos– …pra comprar a liberdade!

                                                                          Silencia a todos, de repente, rufar de tambores – anúncio de uma fala autoritária:

Voz (off)        – Senhor Rei de Portugal

                          pede mais ouro…pra Corte!        

                                                                         As mãos estendidas se encolhem; caem todos de joelhos e coro geral ecoa  

 

Coro geral_   –  Mais ouro…PRA CORTE!

                                                                                     enquanto todas as mãos se estendem, -não mais em busca, mas em submissão e  entrega,  cabeças abaixadas.

                                                                                     Luz desce sobre eles e vai se acender sobre vulto que surge em ponto mais alto:

                           – “A terra é rica e os sonhos são tantos…

                             Até quando vou ver meu povo assim? “

                                                                          Luz fecha o foco sobre ele, que se volta:

  “ Será que os filhos desta terra

   são tão vis e covardes

                             que açoitados e explorados

                             ficam apenas a gritar:

                             Ai! Ai!”

                             “Estão levando o que é nosso

                             e o povo, aqui…na miséria!”[3]

                                                                         

Á medida que ele fala um soldado, depois outro, surgem de cada lado e se aproximam dele, que continua:

                             “…O povo vai levantar!

                             Levantar, não, restaurar!

                             Não é levante se um povo

                             toma de volta o que é seu

                              e que estão lhe roubando sem vergonha!”

                                                                                     Ao terminar sua fala é seguro pelos braços: vestem-lhe o branco camisão de enforcado, passam-lhe a corda ao

                                                                         pescoço. Sobre eles cai cartaz: Vila Rica, 1792. Começam a empurrá-lo e  ele sai lentamente, sob a música:

                             Joaquim José da Silva Xavier

                             morreu a 21 de abril

                             pela independência do Brasil.

                             Foi traído e não traiu jamais

                             a Inconfidência de Minas Gerais…[4]

                                               etc.etc.              

                                                                         Música desce e fica em BG sob a “fala do poder”:

Voz (off) –  … “ e que depois de morto seja cortada sua cabeça e seu corpo dividido em quatro e as partes pregadas pelos caminhos de Minas, até que o tempo as consuma, para exemplo e castigo!”

                                                                           Sairam. Em cena agora apenas um casal da corte, que vai dançar um leve minueto…

                                                                          Até que ecoa novamente um grito:

                            – Liberdade! (eco longo)

Música desce e foco marca o cartaz  que agora gira para Bahia, 1798.

                                                                          Sob ele vão surgir quatro negros, punhos ao alto:

1º – “Animai-vos, povo baiano, que está para chegar o tempo feliz de nossa liberdade!

– O tempo em que todos seremos irmãos…

– O tempo em que todos seremos iguais!

– Cada cidadão é um soldado, mormente nós, homens pardos e negros, que vivemos escornados e abandonados!

– Somos mais de 600! E o inimigo é um só: é aquele que nos domina e nos reduz a escravos e para se manter no poder tenta nos dividir ou destruir!

– Se ficarmos divididos, será nossa perdição!

Juntos – Temos que responder como um só homem, um homem que sabe o que pretende e porquê!” [5]

Grupo de soldados foi surgindo e a um rufar de tambores repete-se a cena anterior: vestir em cada um o camisão de enforcados e passar-lhes a corda ao pescoço, enquanto voz os identifica:

– Luiz Gonzaga das Virgens, soldado, 36 anos!

– Lucas Dantas de Amorim, soldado, 24 anos!

– Manoel Faustino Santos Lira, alfaiate, 25 anos!

– João de Deus Nascimento, alfaiate, 24 anos!

                                                                                     …e a seguir, anuncia:

                          –  …que esses execráveis réus, homens pardos, sejam levados à Praça da Liberdade, onde na forca que para isso se levantou…  

Música sobe e abafa sua fala,               enquanto eles saem devagar, luz descendo em resistência sobre eles..

 Música[6]:            Hoje eu sei

Que não foi em vão

Apesar de nossa História não mostrar

Toda a verdade

Do tempo da escravidão

Levei meu pensamento à Bahia

Ao berço da poesia

Em busca de inspiração

Encontrei personagens realistas

Tidos como anarquistas

Pois queriam um Brasil mais irmão, etc.

Valia ouro, valia prata    (

A inteligência e cultura   (  refrão -Bis

Desta raça…                     (

                              Luz reabre, clara, sobre valsa ou      polka ligeira que ora sublinha o ócio da “Corte” e seus senhores, enquanto, do outro lado, volta o coro dos escravos e sua coreografia de trabalho:

Coro (grave) – Gira, bateia…(bis)

Coro (agudo)- Abre o sulco

                        Fura o morro

                        Cava a senda

                         A galeria…

                                                                          …até que, de repente, novo grito, em grande coro, faz sair os dançarinos

                      –  LI- BER-DA-DE  (eco longo ) !

                                                                          e no lugar onde estavam Tiradentes e os 4 baianos surge agora um padre:

Padre – Ai  dos governantes que só sabem fazer exigências ao povo – de trabalho, respeito e obediência – e para com ele acumulam dívidas que só pagam em palavras em valor! Ai dos governantes que só buscam um eco às próprias vozes, ouvir aplausos a tudo que fazem, mirar-se, engrandecidos, em bajuladores, e para quem se tornam perigosas as pessoas que falam em verdade e justiça! Ai dos governantes que voltam as costas ao Tempo e à História e tentam navegar contra a corrente! Na vida e na natureza nada é espontâneo ou gratuito, e a revolta não escapa à lei! Re-volta – o nome diz – é o troco, a volta, já carregados de ódio e paixão, com que o povo responde à violência que desrespeita seu direito a vida e o transforma em coisa ou animal!

                                                                         Entra por um lado e se põe

                                                                         junto a ele Tiradentes, ainda em

                                                                        seu camisão de   enforcado:

Tiradentes – Mas não será assim por muito tempo! Um dia virá a República!

                                                                          Pelo outro lado entram os 4 Baianos:

Os 4 Baianos – Um dia, a Abolição!          

                                                                          Em ponto deles afastado (à boca de cena, se acaso) surge agora um ridículo personagem de ópera bufa, que se dirige ao público agitando seu lencinho de renda ao falar:

Narrador – Surpresos, senhores? Não deveriam estar…A teimosia humana é sem limites…Aquele ali é o Padre João Ribeiro – um padre, imaginem!  – que junto com os de um bando – 12 ao todo – foram mortos e mais de 100 aguentaram um bom tempo de prisão porque resolveram – loucos!…- fazer pior ainda que esses outros aí: mandaram gente à Bahia, Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e…se nós não seguramos, quase que viram o nordeste todo!

Sobre eles, ao fundo, agora o cartaz assinala: Pernambuco – 1817.

Tiradentes e os 4 Baianos – Fizeram o que nós sonhávamos!

Narrador – Ih, não digo? A loucura pega…! Mas eu disse quase… República, Abolição, são coisas que nunca veremos no Brasil! E vocês todos ganhariam muito mais se tivessem ficado passivos e tranqüilos, como os escravos negros, trabalhando para nós!..

Luz deixa grupo ao fundo e foco marca, à frente do grupo de escravos  um negro e seu grito:

Negro – Não! !!…

                                                                          O Cortesão recua um pouco, intimidado.

Negro – Nós não fomos passivos!…Se a História branca dos senhores brancos não registra nossa voz, ela existiu! Existiu e gritava: “Não aceitem a fome de seus filhos, não aceitem sofrer as injustiças, não aceitem o jugo e a escravidão!” ( em “chamada”) Povo do quilombo de Palmares! Qual era a nossa lei? [7]

Coro negro – Rebelar-se!

             Enquanto prossegue sua chamada, batida de berimbau vai crescendo e se acelerando e grupo, cada vez mais numeroso, vai–se juntando a seu redor, jogando capoeira.

Negro – Povos do quilombo de Campo Grande, do quilombo da Capela, do quilombo de Itabaiana, do quilombo do Rosário, do quilombo do Engenho Brejo, do quilombo de Laranjeiras, do quilombo de Vila Nova, do quilombo do Urubu, do quilombo do Jacuípe, do quilombo de Jaguaribe, do quilombo de Maragogipe, do quilombo de Muritiba, dos quilombos de Orobó, Tupim e Andaraí, do quilombo do Xiquexique, do Buraco do Tatu, do quilombo de Cachoeira, do quilombo do Cabula! Qual era a nossa ordem?

Coro –  Resistir!

Negro- Quilombolas de Jabaquara, Mogi-Guaçu,  Atibaia, Piracicaba, Santos, Campinas, do Morro de Araraquara, da Aldeia de Pinheiros, de Jundiaí, de Itapetininga, da Fazenda São Carlos! Povos do quilombo do Oiapoque, do quilombo Mazagão, do quilombo de Alcobaça, de Caxiú, Majucaba, Gurupi, Turiaçu, de Anajás, de Lagoa Amarela e São Benedito do Céu! Quilombo do Ambrósio, quilombos de Campo Grande, Bambuí, Andaial, Sapucaí, do Carca, Parnaíba, Ibituruna… quilombos todos espalhados por todo esse Brasil, qual era a nossa ordem e a nossa lei?

Coro negro – (eco)- Rebelar-se! Resistir!

Negro – Nos 4 séculos de História em que vêm silenciando nossa voz nós nunca  estivemos “passivos”! Quer ver? (grito / eco) Zumbi!…

A cada nome chamado, de pontos esparsos do grupo negro surgem vozes que vão responder, em ritmo que se acelera e sobe cada vez mais:

Voz (eco) – Presente!

Negro / Vozes – Adão!

                         – Presente!

                         – João Molungu!

                         – Presente!

                         – Jurema!

                         – Presente!

                         – Ambrósio!

                         – Presente!

                         – Negro Cosme!

 – Presente!

 – Manoel Corujo!

 – Presente!

 – Miguel Crioulo!

 – Presente!

 – Justiniano Benguela!

 – Presente!

 – Antonio Magro!

                                  – Negros huaçás!

Coro                         – Presente!

 – Negros nagôs!

Coro                         – Presente!

– Negros malês!

– Presente!

– Pacífico Cicuta, Manuel Calafate, Diogo, Ramil, Cornélio, Tomás…

Coro                         – Presente!…

Negro                   –  …e todos os índios, mulatos, fugitivos, todos os oprimidos e marginalizados da sociedade, que conosco estavam! Se na História branca dos senhores brancos nossa voz não aparece, ela hoje aqui está e aqui diz:

Grito Geral             – PRESENTE!…

Música começa em fundo[8], em BG e  vai subindo: 

                            Sonhei

                            que estava sonhando um sonho sonhado

                            o sonho de um sonho

                            magnetizado…

                            As mentes abertas…

                            Sem bicos calados

                            Juventude alerta

                            Os seres alados

                            Sonho meu

                            Eu sonhava que sonhava

                            Ai de mim

                            Eu sonhei que não sonhava

                            Mas sonhei…

Música desce devagar à medida que saem de cena. Na cena já vazia surge um grito:

 Independência !                        

vai crescendo  em fundo outra

música – Hino da Independência:

 

                                 Já podeis da pátria filhos

Ver contente a mãe gentil

Já raiou a liberdade (bis)

No horizonte do Brasil…

      O cartaz agora assinala:

                            Brasil, 1822.

  Foco volta a marcar grupo dos “heróis” que entrou ao  fundo:

TiradentesLiberdade! Finalmente!

Os 4 baianos – Igualdade… ?

Padre João Ribeiro – O Brasil, independente, começa uma vida nova… Liberdade, igualdade

Negro ( à frente da cena, grita ) – Não para nós! Não para nós, nem para nossos filhos! Nosso trabalho continua escravo, nosso suor continua vendido, nosso amor proibido, nossa vida negada!

Grito (off):

Cala a boca, negro!

E estalar de chicote corta-lhe a fala. Ele cai. Estribilho anterior sobre mais uma vez

Trabalha, trabalha, trabalha, negro, ô…

Música – “Lamento negro” cresce novamente enquanto luz desce em resistência sobre ele e  fica em BG sob a fala indignada de 

Padre João Ribeiro – Por que todo nascimento / tem que ser assim/ com sangue/ e em meio a tanta dor? É duro ver a morte violenta / de um irmão que abate seu irmão/ embora seja o resgate /de tanta morte escondida / que se dá no dia a dia:/ morte de fome e miséria / de doença não cuidada / de trabalhos em excesso / de aflições sem solução.

]                     Morte imposta por um mundo / que esqueceu a lei do amor / e que mantém a vida dividida / em desrazões de posse, raça e classe / que impedem os homens de viver em paz! 

Mas enquanto ele fala, em torno do Negro, que se reergueu, vão surgindo, um a um, novas figuras. O Padre termina e sai.  Luz vai crescendo devagar sobre o Negro e seus companheiros, e um círculo vai coreograficamente se fechando, como se confabulassem. A luz vai se tornando mais forte sobre eles, marcando sua viva presença já no centro da cena, e coro vai se formando, ritmado e repetido, luz e vozes subindo  cada vez mais:

Coro geral  –     Não aceito mais a fome,

O trabalho como um escravo,

O maltrato pela cor!

Não aceito ter um filho

E saber que sua vida

Não vai ter dia melhor!

Não aceito a injustiça,

Ser tratado como bicho

Que não tem direito a nada!

Não aceito

Não aceito!

Não aceito!

Juntaram-se todos ao centro, punhos ao alto, com o Negro no meio:

 

 

Negro – Em 1988 nos disseram livres! Mentira! Há mais de 120 anos continua ecoando nosso grito! Há mais de 120 anos lutamos ainda contra a opressão e a exploração!

                            Um deles vem para a boca de cena à  esquerda:

–    Nossa liberdade continua castrada em seu direito de ir-e-vir, ou de trabalhar, de folgar e nos expressarmos fora dos marcos e margens definidos pela minoria branca!

                                                          Outro vem para a boca de cena à

                                                          direita:

– A desigualdade marca as oportunidades de estudo, a inclusão ou ingresso em muitos setores, os salários no mercado de trabalho, e nos empurra para a marginalização dos excluídos!

                                                                   O Negro, ao centro:

– A fraternidade só existe nos discursos, que camuflam em hipócrita assistencialismo a difusão de preconceitos sociais sobre o negro!

Por tudo isso, Negros espalhados por todo esse Brasil, qual é hoje a nossa ordem, qual é hoje a nossa lei?

Coro  –  Falar! Organizar! Agir! Mostrar nosso valor!

                                                                  De cada lado do grupo surgem mãos empunhando cartazes que dizem:

                  Abaixo a exclusão !

                  – …e a discriminação!         

                                                                  Empunhando esses cartazes vão ao encontro do público, saindo por entre ele,  cantando:

 Música: [9]         Lá vem a força, lá vem a magia

Que me incendeia o corpo de alegria

Lá vem a santa maldita euforia

Que me alucina, me joga e me rodopia

Lá vem o canto, o berro de fera

Lá vem a voz de qualquer primavera

Lá vem a unha rasgando a garganta

A fome, a fúria, e o sangue que já se levanta

De onde vem esta coisa tão minha

Que me aquece e me faz carinho

De onde vem esta coisa tão crua

Que me acorda e me põe no meio da rua

É um lamento, um canto mais puro

Que me ilumina a casa escura

É minha força, é nossa energia,

que vem de longe para nos fazer companhia

É Clementina cantando bonito

As aventuras de seu povo aflito

É Seu Francisco, boné e cachimbo,

Me ensinando que a luta é mesmo comigo…

 

 

 

 

 

                

 

 


[1] Ary Barroso.

[2] Versos (esparsos) de Essa nega Fulô, de Jorge de Lima.

[3] Falas atribuídas a Tiradentes nos Autos da Devassa da Inconfidência              .

 

[4] Tiradentes, samba-enredo de Estanislau Silva, Décio Carlos e Penteado.

 

[5] Idéias revolucionárias de 1798– Henrique Dias Tavares- Ed. MEC-RJ, 1964.

[6] Salamaleikon, samba-enredo de 1980, Carlinhos Melodia, Jorge Moreira e Nogueirinha.

 

[7] Cf. Quilombos e Rebeliões da Senzala – Clóvis Moura, Ed.Zumbi.SP- 1959.

         Insurreições escravas – Décio Freitas – Ed. Movimento – Porto Alegre – 1964.

 Se houver possibilidade de projeção, algumas figuras ou cenas podem ser projetadas em telão. E/ou aqui, um mapa do Brasil plotando todos os pontos mencionados e provando que os Quilombos não foram atos isolados ou eventuais , mas algo que existiu em todo o país.  

[8] Samba-enredo da Unidos da Vila (1982), de Martinho da Vila, Rodolfo e Graúna .

 

            [9]   “Raça”- Milton Nascimento e Fernando Brant.

 

                                        Maria Helena Kühner

                                             Trajetória Teatral

 

OBS: 1. A quem acompanha a trajetória da Escritora Maria Helena Kühner pode intrigar o fato de, ao longo de quase 20 anos, ter ficado mais conhecida como ensaísta, conferencista, pesquisadora (ou seja, pelo lado “teórico”, a que, como diz a Autora, a leva sua permanente exigência de também pensar aquilo que faz), ou como autora voltada para a literatura e o teatro infanto-juvenil – para o qual tem apenas 8 peças, embora muito encenadas.

              Ao rever sua trajetória especificamente como Autora teatral, isso fica mais claro: embora tenha expressivo número de Premiações e a maioria seja em peças para adultos,

                    de 1965 a 1985, a Censura da ditadura militar vetou todas as suas possibilidades de 

                                                                        montagem.

          2. Para maiores detalhes sobre as peças ( nº de Personagens masc. e fem.,  Sinopses etc.) cfr. o

              Catálogo da Dramaturgia Brasileira, da autora, com mais de 5.500 peças de autores

              brasileiros de 1567( Anchieta) a nossos dias, doado à Rede da Memória Virtual da Biblioteca

              Nacional : http://www.redememoria.bn.br

                                                   

                                                       Peças da Autora

                              

1964 -“Joãozinho Peteleco” (infantil) – Prêmio CAD- Concurso Nacional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – 1ª montagem, do próprio Curso de Arte Dramática da UFGRS, no Teatro São Pedro-Porto Alegre/RS – Direção da Profª Nair Miorin Paiva.

1965 – “Represa” (drama) – Prêmio no Concurso Nacional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Proibida a montagem do Curso de Arte Dramática – UFRS pela Censura Federal.

1965 – “De Baixo pra cima” (comédia dramática) – Prêmio no Concurso Nacional da

         ATA- Associação de Teatro Amador.

1967- “Conquista do Verde”- 1º Prêmio no Júri Popular e 3º Prêmio no Júri da Crítica do Seminário de Dramaturgia da GB, de Leituras Dramatizadas, organizadas por Luíza Barreto Leite. Direção de Luiz Mendonça. Mas vetada a seguir a montagem intentada pelo mesmo Diretor.

1967 –“Foto de Crepúsculo”- Prêmio no Concurso Nacional de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro. Apesar de premiada – e publicada – por um órgão federal, o pedido de montagem de Ademar Guerra é vetado pela Censura Federal.

1969 – “Labirinto”- apresentada e discutida em Seminário de Dramaturgia promovido por Yan Michalski e Bárbara Heliodora.

1970 – “Os Dentes do Tigre”- Prêmio no Concurso do Teatro Opinião – selecionada entre as 5 melhores para a leitura dramatizada a ser realizada com direção de Amir Haddad,  teve essa mesma leitura vetada pela Censura.

1971- “Aventuras de um Diabo Malandro” (infantil) – Prêmio de Melhor Texto e Melhor Espetáculo no V Festival de Teatro Infantil da GB (1972) na 1ª montagem, do Grupo “Os Casulos”- Direção de Eugênio Gui. Em 1974, Prêmio de Melhor Texto e Melhor Espetáculo do Ano em Salvador, BA. E inúmeras montagens em todo o Brasil.

1971- “Dá-se um jeito! Isto é ou não é Brasil?” – Apresentada e discutida em Seminário de Dramaturgia coordenado por Bárbara Heliodora e Yan Michaski.  Aprovada, com 11 cortes, pela Censura Federal, não chegou a ser montada: seria plagiada por César Ladeira Filho para um filme (“Como se livrar do saco”) que, ao ser veiculado, foi objeto de ação judicial de plágio movida – e ganha – pela Autora contra esse diretor e a Embrafilme.

1972 – “Anchieta” (infantil) – Prêmio no Concurso de Peças Infantis do Serviço Nacional de Teatro- 1ª montagem, em TV, no programa “Grande Teatro Infantil” de Fábio Sabag (TV-Tupi). Em teatro, pelo Grupo “Os Casulos” (RJ) – Dir. Eugênio Gui.

1973 – “Encruzilhada” – apresentada e discutida em Seminário de Dramaturgia organizado por Bárbara Heliodora e Yan Michalski. Mas a seguir proibida pela Censura Federal “mesmo para leitura” no Ciclo de Leituras Dramáticas então realizado no Teatro Princesa Isabel.

1973 – “O Jogo da Caça ao Pássaro” (infanto-juvenil)- 1ª montagem pelo Grupo “Os Atores”, no RJ, com direção de Luiz Mendonça.

1974 / 1975 – “Pedro Malasartes” (comédia musicada) – 1º trabalho do Teatro Operário de São Cristóvão (com operários da Fábrica Flexa Carioca) como experiência de pesquisa/construção de uma dramaturgia popular. Apresentação itinerante em fábricas, clubes, associações, escolas, sindicatos etc. Divulgada no livro “Teatro Popular-Uma experiência”, seria reproduzida em PE, PB, RS, MG, incluindo remontagens da peça. José Arrabal (Jornal do Comércio, 22/01/74) assinala tratar-se de “uma conceituação correta do que seja ‘popular’(……) uma “experiência que tenta sistematizar a linguagem de nosso povo através da participação desse mesmo povo. Um trabalho de fundamental importância para o desenvolvimento de nosso teatro e da arte dramática”.  E Yan Michalski (Jornal do Brasil, 24/01/74) comenta: “No modesto panorama do teatro carioca, ou à margem desse panorama, surgem, de raro em raro, surpresas estimulantes(……..) um teatro que traduz, em ampla medida, um universo identificado com a vivência pessoal dos que iriam interpretá-lo em cena – o que é a característica mais forte, positiva e singular do espetáculo (……….) sua avaliação confirmando a lucidez  e  seriedade com que o Teatro Operário de São Cristóvão está sendo orientado”.

1976 – “Putz, a Menina que buscava o Sol” (infanto-juvenil)- 1ª montagem: Tetê Barroso Produções, RJ- Dir. de João Carlos Barroso. Já teve mais de 50 montagens no Brasil, em diferentes estados (RS, BA, CE, DF, SC, MG, PE, AC, GO, SP).  No Exterior foi montada no México, Argentina, Israel e Portugal.

1977- “A Máquina”- 2º trabalho do Teatro Operário de São Cristóvão. Montagem vetada pela Censura Federal e pela Direção da fábrica, que acabou com o teatro no local. Seria posteriormente transformada em peça radiofônica e veiculada na Rede da Deutschwelle-Alemanha.

Os dois trabalhos do Teatro Operário seriam objeto de um capítulo e de uma entrevista com a Autora na Tese de Doutorado de Richard Roux  “Du Théâtre Arena au Théâtre Populaire”), na Université de Aix-en-Provence, França, onde ele é Diretor do Departamento de Letras.

1978- “Da Pedra ao Piso”- apenas a 1ª das 4 partes, adaptada, e com 14 cortes, foi montada por Maria Teresa Amaral no Teatro da Aliança Francesa.

1979 – “Represa” (2ª versão) – Prêmio no Concurso Nacional de Dramaturgia do INACEN.  Apesar de premiada – e publicada – por um órgão federal, o pedido de montagem, agora de Sérgio Brito, é novamente vetado pela Censura Federal. Viria apenas a ter leitura dramatizada no Ciclo “Os Malditos” org. por Luíza Barreto Leite, em 1983.

1980 / 81- “De Histórias e Lendas”- Prêmio no Concurso de Peças Radiofônicas da Fundação Konrad Adenauer – Gravada e veiculada pelas redes da Westdeutscherundfunk e da Deutschwelle – Alemanha. E no Brasil pela Rádio MEC, com direção de Alan Lima.

1981 – “Um não-sei-quê que nasce não-sei-onde” (infantil) – Prêmio de Leitura no Concurso Nacional de Peças Infantis do INACEN. Apresentação no Ciclo de Leituras Dramatizadas do mesmo ano.

1985 – “Mangueira é” (comédia musicada) – 1º trabalho com o Grupo Favela (Morro da Mangueira-RJ) – Direção de Eugenio Gui- Apresentação itinerante em fábricas, clubes, associações, escolas, sindicatos etc.

         Destacada como o “Melhor Trabalho de Animação de Base da América Latina” no Congresso do CEAAL – Conselho de Educação de Adultos da América Latina, em Guanajuato, México – 1985. E Prêmio de Melhor Texto no Festival de Teatro do RJ-1988. Seria também divulgada no livro “Teatro-Espelho e Resposta” e a experiência reproduzida no Projeto de Descentralização da Sec. Municipal de Cultura de Porto Alegre, RS, que abrangeu 16 comunidades.

1985- “Com o Suor de nosso Rosto” – escrita a pedido de Luiz Mendonça para o Festival de Teatro de Massas de Moscou, e de Ginaldo de Souza para um 1º de Maio “diferente” no Maracanã/ RJ, revendo a História do Trabalho no Brasil. Com uma estrutura complexa, unindo desfile de escola de samba e teatro de revista, dificuldades financeiras inviabilizaram sua montagem. Em versão adaptada por Luiz Mendonça, bastante simplificada e com cortes, seria por ele montada no Teatro Dulcina/RJ.

1986 / 1987- “É por aí?”- Minicontos, crônicas e dramatizações curtas, semanais, apresentando uma situação polêmica com três ‘soluções’ possíveis, discutidas por debatedores. Nas Rádios Continental e Tamoio e, a pedido de D. Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de SP, reproduzidas ao longo do ano de 1987 nas 132 rádios católicas do país.

1988- “De Cabral a Cabral”- resultante de Seminário sobre o Teatro de Revista organizado por Yan Michalski, e em coautoria com 4 autores: Luiz Carlos Saroldi, Isis Baião, Carmen Moreno e Roberto Bezerra. Apresentação de apenas algumas cenas, no evento “O Palco Aberto” do Centro de Construção e Demolição do Espetáculo.

1989-“O Fio de Ariadne”- Prêmio Maurício Távora no Concurso Nacional de Dramaturgia- Governo do Estado do Paraná

1989 / 2000 – Criação do Projeto Anna Magnani, visando a pôr em cena ou em discussão temas importantes da atualidade, com destaque para as formas de expressão e manifestação da Mulher e as relações de gênero como espelho das relações sociais em mudança.  (39 eventos/atividades realizados entre 1989 e 2010).

         Pelo Projeto Anna Magnani (entre 1995 e 2000) – Organização e Coordenação de diferentes Mostras com Pesquisa (47 autores), Seleção, Tradução (se acaso) e Leituras Dramatizadas de textos brasileiros, latino-americanos e europeus inéditos no Brasil:

 – Mostra da Poesia Feminina e sua trajetória, a partir da publicação, há 50 anos,

        de “Viagem”, o 1º livro de Cecília Meireles. No Bar Botanic, de julho a 

        dez. Publ. em livro “Mulher (in)versos”- Ed. Massao Ono/SP.

          – Narrativa-Mulher – Dramatização de Contos inéditos de 27 contistas                  

        brasileiras, das mais famosas às ainda estreantes – na Casa de Cultura

        Laura Alvim.

 – Mostra de Dramaturgia Feminina Contemporânea (6 textos, das décadas de 60

 a 90) – no Teatro do CCBB – Centro Cultural do Banco do Brasil.

          – I Mostra de Dramaturgia Latino-Americana (9 textos) – no Teatro do CCBB

         – II Mostra de Dramaturgia Latino-Americana (8 textos) – no Teatro Gláucio Gil

Mostra de Dramaturgia Contemporânea Italo-Brasileira (4 textos) – no Instituto  

                 Italiano de Cultura do RJ.

Mostra da Narrativa Italiana Contemporânea ( 15 contistas atuais) – no

        Instituto Italiano de Cultura do J- Publ. em livro pela Ed. Communità.

Homem-Mulher – uma relação em mudança- no CCBB. Dramatização, por   

        atores, de contos de autores brasileiros contemporâneos, levantando   

        diferentes temas comentados por palestrantes especialmente convidados e  

        seguidos de debates abertos com o público presente. Publicado em livro

        homônimo pelo próprio CCBB.

          – Feminino-Masculino no imaginário de diferentes épocas – na mesma linha do  

                  anterior. Publicado em livro homônimo pela Ed. Bertrand Brasil. Recebeu

                  o Prêmio da UBE-União Brasileira de Escritores em 2000.    

1992- “Sombras da Aurora”ou “Tambores do Silêncio” – Prêmio no Concurso Nacional de Dramaturgia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

1994 – “É” – (infanto-juvenil) – Adaptação do livro homônimo da autora, pela Cia.

                 Arte em Cena. No Teatro Ziembinski/ RJ,

1995- “O Ouro das Facas”- 1ª montagem no Teatro Gláucio Gil/RJ, com direção de

          Zeca Bittencourt. E escolhida para comemorar os 5 anos do Ciclo de  

            Acontecimentos Dramáticos de Soraya Handam em Belo Horizonte, MG,                     em 1996.

A partir de 1998 – Criação, em geral a pedidos, de Esquetes e Monólogos:

– Criação de Esquete sobre “A Dívida E(x)terna” a pedido da Campanha do  Plebiscito da Dívida (OAB/CNBB), sob forma de teatro de rua.  Apresentado no Congresso da CUT, em diversos Sindicatos, Universidades e Escolas, e como teatro de rua. Foi, pela Campanha, enviado a 380 grupos de teatro do país, tendo tido, assim, dezenas de montagens regionais – Maio a dezembro 2000.

– Criação de esquete sobre “A Violência contra a Mulher”, apresentado no            

      Centro Cultural Calouste Gulbenkian (nov. 2002). Dir. de Dudu Sandroni.

–  Criação do esquete “Cabeça de Pau” a pedido da Ação da Cidadania e por ela

       encenado em 2004/ 2005.  Publ. no livro “Aids e Prevenção”, de Daniel de

       Souza, Coordenador da Campanha.

          – Criação de Esquetes para o programa de rádio “Vida de Mulher”, do CEDIM –      

                Conselho Estadual dos Direitos da Mulher – Rádio Viva Rio – 2004

          – Criação e montagem de “Tempo de colher” (2 textos curtos para a Terceira

 Idade) na Casa de Lazer Dercy Gonçalves e Casa Lotta.

– Criação de narrativa dramatizada “A Fome tem rosto”, para a Campanha Fome

        Zero, apresentada por Atores ou por Contadores de Histórias em escolas,

        ruas, universidades, praças etc de vários pontos do país.

– Criação do texto “O Peso da diferença”, a pedido da LGBT, para debate

         no Centro da Magistratura do RJ e Teatro Glauce Rocha

– Criação de texto breve “Como Deus quer ou como o Diabo gosta?”,

        para apresentações em comunidades do RJ e de Porto Alegre. ( 2012/2013)

– Criação do “Monólogo para um Ator “ou “A descoberta do Outro”, a pedido

        do ator Jorge Cherques (que morreu antes de encená-lo).1ª Montagem em

         Brasília, pelo ator Ivan Lima. 

          – Criação do Monólogo “Na minha idade, por que não?”, apresentado na Casa de

                 Lazer Dercy Gonçalves e Casa Lotta.

2002- “O Homem, a Mulher e a Aposta” (comédia musical) – no Teatro Glauce Rocha e cidades serranas do RJ- Direção da autora (nov. de 2002 a fev. 2003).

2003- “Dá-se um jeito!”(farsa) – no Centro Cultural da Justiça Federal- Direção de Ana Maria Taborda  ( janeiro a maio de 2003)

2004- “Ana C.”ou “Um Navio no Espaço”- no cinqüentenário da poeta Ana Cristina César. Apresentada, como leitura dramatizada na Mostra de Dramaturgia Italo-Brasileira do Istituto Italiano di Cultura.

2006- “João do Vale, o Poeta do Povo”- no Teatro Glauce Rocha, Teatro do SESI e Sala Baden Powell (maio a novembro de 2006) – Direção da autora.

2009- “Porque não ter escrúpulos” – Monólogo crítico-cômico apresentado no Teatro Ipanema, como parte do espetáculo “Receita infalível”, em parceria com Miriam Halfim.

2009 – “A Redescoberta da América” (paródia da História dita oficial) – no I Ciclo de Leituras do Instituto Cultural Chiquinha Gonzaga, no Teatro Princesa Isabel. Publicado em livro pela Ed. Ver e Ler.

         2009/2012- “Ana C.”ou “Um Navio no Espaço”- Produção e direção de Paulo  José.                

                  Selecionada para inaugurar o Oi Futuro de Ipanema.( outubro/09 a fevereiro/10).

                  Temporada em SP ( maio/ junho/2011). Circuito por capitais e festivais. Apres.

                   no evento “A Cena da cidade”,  Teatro Gláucio Gil, maio/ 2012).

        2010 – “Bárbara”, na Academia Brasileira de Letras (setembro/outubro)  

        2010/2011- Mangueira é” – apresentada entre as 6 peças (uma de cada região) que

                   compuseram o Projeto “Aquarela do Brasil – Prêmio Roquete Pinto da ARPUB- 

                   Associação das Rádios Públicas do Brasil, que as veiculou.        

        2011/2013- “Zé Kéti: eu sou o samba” (musical), na Academia Brasileira de Letras (setembro/ outubro), no SESC-Tijuca (novembro/dezembro), na Sala Baden Powell (maio/2012), no Festival de Inverno do SESC (Teresópolis e Nova Friburgo- julho), em cidades do RJ (Barra Mansa, Barra do Piraí), no Teatro Rival, e com programação prevista para o circuito SESI (dezembro de 2013).

        2012/2013 – “João do Vale, o Poeta do Povo”(remontagem) – Na ABL- Academia Brasileira de Letras (julho/agosto), no SESC-Tijuca e com apresentações previstas para Portugal.           

O HOMEM, A MULHER e A APOSTA

 

                  Comédia Musical de  Maria Helena Kühner (*)                                       

      

          

1. Elenco : Uma Atriz

                   Um Ator

           

2. Cenário: Fundo claro ou com apenas um telão; três cubos, em posições variáveis ao longo das cenas.

 

3. Música (de preferência, ao vivo): os dois Cantores e o(s) músico(s) permanecem nas duas laterais; algumas músicas são cantadas por inteiro – em geral, no início e/ou fim de cada esquete – outras só em frases musicais comentando a cena.

No caso de atores que também cantem, esta pode ser uma opção.

 

4. As figuras de Deus e do Diabo (vozes gravadas, em off) são projetadas no telão em fundo, sob forma de desenho animado. Alternativas possíveis: teatro de sombras, ou uso de “máscaras” (gobos, formando silhuetas) sobre cor viva (vermelho / azul) no projetor.

 

 (*) Dois dos episódios, “Caso de Vida e Morte” e “Quando um par vira ímpar” são da autoria de Ewa Procter.

                                   

 

( Opcional: Mostrar os títulos dos episódios,  excitando a curiosidade do público. Se acaso, no telão em fundo, ou em estandarte trazido à lateral por um  dos atores ou cantores, surge o título:

 

                                 Tudo começou quando

 

Música de Abertura (paradisíaca, claro…)

abre para Adão, em profundo aborrecimento. Anda de um lado para o outro, chuta pedrinhas etc. até que pára no meio da cena:

   – Senhor !

   Nenhuma resposta.

   – Senhor !!!

   Nada.

   – ( tom) Deus, ó Deus, onde estás que não respondes

                em que astro, em que estrela tu te escondes,

                embuçado nos céus!…

( satisfeito, para o público) Ah, depois dessa Ele aparece, com certeza…

 

Telão se acende em fundo: surge Deus, no colorido fundo do Paraíso. Sonoplastia sublinha.

 

Deus – ( voz em off) –  Qu’é isso, Adão! Esta fala não é sua. Vai ser de um obscuro poeta, Castro Alves, em um obscuro país, o Brasil, e só daqui a alguns séculos.

Adão – Perdão, Senhor. É que…eu não estou agüentando mais.

Deus – Não está agüentando o quê, Adão?

Adão – Isso aqui… É tudo uma beleza, um paraíso mesmo. Mas – o Senhor me perdoe… está tudo muito chato.

Deus – Chato, Adão? Se aqui você tem tudo: flores, frutos, o coro dos querubins e serafins o dia todo nos seus ouvidos. (Sonoplastia correspondente…) Que é que você quer mais?

Adão – Eu queria…Todos os animais têm uma fêmea. E eu?… Quero uma companheira, Senhor. É isso: uma companheira!

 

Sonoplastia introduz uma segunda voz e/ou figura (Diabo) comentando:

 

Diabo – Hum, não sabes o que te espera se Ele te atende…

       

            E surge em fundo  mais uma figura: o Diabo.

 

Deus – Pronto. Vai complicar tudo. Este cara é o diabo.

Diabo – (voz sempre em off) Em pessoa!

Deus – Que é que você tem que se meter nisso?

Diabo – Senhor, eu sou Lúcifer. E Lúci-fer, meu nome é quem diz, é “aquele que traz a luz”: eu tinha que trazer este “esclarecimento”.

Deus – Tá bom. Mas agora cai fora, vai.

Diabo – Nada. Eu fico por aqui. Acho que vou me divertir muito.

Adão – Então… o Senhor me atende ? Olha, dou até um osso de minha costela para…

Deus – Sem essa, Adão! Se eu crio a mulher de um osso de sua costela as feministas do século 20 acabam comigo!

 

Atrás, sem que Adão ainda a veja, surge figura feminina em pose “sedutora”. Sonoplastia acusa algo “diferente”.

 

Deus – Pronto. Taí o que você quer.

 

Ele se volta, surpreso.

Adão – Que… quem é você…?

Música ( cantora, da lateral)  Eu sou a mosca que pousou na sua sopa

                                                  Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar…

                                                                         (A Mosca- Raul Seixas)

 

Ele se aproxima e a examina, toca etc. Ela vai adquirindo sinuosidades de serpente      (tudo sempre meio, ou totalmentecoreografado) sobre

Música:                       Eva querida

(Cantor na lateral)      Quero ser o teu Adão

                                      Dar-te-ei o meu amor, a minha vida,

                                      Em troca do teu coração…

                                      Hei de conquistar o teu amor se Deus quiser,

                                      Custe o que custar haja o que houver

Serei capaz de qualquer prejuízo,

                                      Mas te darei o paraíso!

                                                             (Benedito Lacerda e Luiz Vassalo)

 

Cena congela sobre Adão e Eva. Telão (ou gobos) permanece em fundo com seu diálogo (gravado)

 

Deus – (sempre voz off) – Ser Deus não é fácil…Já sei a confusão que vai dar até esses dois se entenderem, mas…

Diabo Essa costela é um osso duro de roer! O Senhor não vai dar nem u’a  mãozinha?

Deus – Eu os criei com livre arbítrio. Eles é que terão que encontrar os caminhos para isso.

Diabo – Aliás, o Senhor nem poderia: sua Trindade é toda masculina – Pai, Filho, Espírito Santo. O Senhor não saberia ser imparcial.

Deus – Hum…É o que você acha?

Diabo – Claro. Por isso sei que eles não vão se entender nunca! Até aposto! O Senhor quer fazer uma aposta comigo?

Deus – De novo? Mania de me desafiar. Ainda não aprendeu?

Diabo – Mas desta vez eu ganho! Ora, se…! E se eu ganhar… se eu ganhar o Senhor vai ter que pôr uma mulher na Santíssima Trindade!

Deus – Um elemento feminino na minha Trindade…? Hum… (pausa).Tudo bem, Lúcifer. De quanto tempo você precisa para tentar provar o que diz?

Diabo – Ah, pouco tempo: uns 20 séculos bastam.  Digamos, até o século 21 da era deles.

Deus – Aceito. Tá apostado.

Diabo – Como tenho certeza que o homem e a mulher nunca vão se entender…  desta vez eu ganho a aposta! Hah,hah! …

 

 

Música: Cantor –        Adão, meu querido Adão

                                      todo mundo sabe que perdeste o juízo

                                      por causa da serpente tentadora

                                      o nosso Mestre te expulsou do paraíso….

Cantora:        Mas em compensação o teu pobre coração

   que era pobre, pobre, muito pobre de amor

                                   cresceu e multiplicou, meu Adão,

o teu pecado encantador. (bis)

                                                  (Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago)

 

Eva vai se mostrando “fissurada” com a idéia do “pecado encantador” … e terminam os dois abraçados. Palco escurece enquanto se ouve o lundu:

 

Cantor  (voz) :           Isto é bom, isto é bom

                                   Isto é bom que dói…             

Cantora (voz) :          Isto é bom, isto é bom,

                                   isto é bom que dói

Juntos                                    Ai, dói…

(Lundu- Xisto Bahia)

 

 

No telão ( ou cartaz mostrado) agora só o título:                                          

              

   O que é ser Homem  

                         O que é ser Mulher

 

Cantora: Ó mãe,

                                     me ensina, me explica, me diz

  oh mãe

  o que é “feminina”…

  Não é no cabelo, no dengo, no olhar

                                      se é feminina por todo lugar

                                      Ó mãe……

 

                                                  (Feminina, Joyce)

 

Juntamente com Ator e Atriz ( como crianças pré-adolescentes) vão entrar uma voz masculina e uma voz feminina ( em off ), dando “ordens” que ilustram bem a confusão das pobres crianças educadas em nossa cultura para saber o que é ser homem ou ser mulher

Pantomima dos atores, que vão ilustrando em seus gestos e expressão corporal as ordens recebidas:

 

Voz feminina – Você é uma mulher, minha filha… Seja doce, gentil, meiga, feminina…Você pertence ao sexo  frágil…

Voz masculina – Você é um homem ou um rato, meu filho? Vai lá, chuta

                              as canelas dele! Homem não leva desaforo pra casa!

Voz F.     – A mulher é por natureza obediente, passiva, submissa,  

                      dependente…

                                      M.    – O homem é por natureza forte, decidido, ativo, machão!

        F.      –   A mulher é intuitiva e irracional…

                                      M.     –   O homem deve ser frio, calculista, racional…

                   Ritmo se acelerando:

 F.  –  Agarre seu homem! Isto é o mais importante!

 M. –  Ela deu mole e você não comeu? Tá virando veado?

  1. F.     A sedução faz parte do “eterno feminino”…

 M.  – A dominação faz parte do eterno masculino !

                                        F.   –  A mulher é o braço direito do homem!

 M. –  O homem é a cabeça do casal!                   

 

Ritmo das falas foi se acelerando cada vez mais, se confundindo, se superpondo, até que, em dado momento… os papéis parecem se inverter: eles trocam de posição na cena, ela cumprindo as ordens masculinas e ele as femininas:

                                       F.–  Seja defensiva, ardilosa, disfarçada…

                                       M.– Seja agressivo, durão, encare!

                                       F.  – … passiva e obediente…

                                       M. – …decidido, macho!

F.- Intuitiva…

M. –Racional!

F. – Emotiva!

M.- Calculista!

(Inversão)

F. – Maternal!

M.- Poderoso!

 F.- Romântica!

 M.- Cabeça!

 F.- Emoção!

 M.- Durão!

 F.- Sexy!

 

Ator ( já desnorteado)- Ah! Eu não estou entendendo mais nada!

 

Voz Fem.- Muito bem, filha! Você agora é uma mulher!

Ator – Mas, pelo que ela disse ( aponta local da voz feminina) acho que minha mãe…é homem!

 

Voz Masc.- Parabéns, meu filho! Você agora é um homem!

Atriz – Mas se o homem é a cabeça do casal…então são duas pessoas com uma só      

          cabeça? É um monstro!    

 

Música  :

Cantora:           Que diferença da mulher o homem tem?

Cantor :           Espera aí que eu vou dizer, meu bem.

                          É que o homem tem cabelo no peito

                          tem o queixo cabeludo e a mulher não tem.

                          No paraíso um dia de manhã

                          Adão comeu a maçã,Eva também comeu,

                          se ela deu mancada, ele também deu.

           Cantora:          Mulher tem duas pernas, tem dois braços

                          duas coxas, um nariz e uma boca

e tem muita inteligência

Cantor :           O bicho homem

                          também tem do mesmo jeito

Juntos :            se for reparar direito

                          tem pouquinha diferença!

 

No telão, Diabo surge, metendo a cabeça e dando um aparte:

 

                   Diabo– “Pouquinha diferença?…”Só que eles são educados de maneira tão diferente que fica difícil um entender ou outro! O que pra mim é muito bom! Comecei bem!…

                  

                     No telão ou cartaz  agora novo título:

 

 Receita de Príncipe Encantado

 

Música : Que tal a gente fazer

                 um bolo de chocolate

                 pega a farinha e a manteiga

                 e pedaço de tomate (Arg!)

                E bate tudo numa batedeira

                 e vai mexendo dessa maneira…

                                      ( Chocoloco- Glória Lattini)

                           

               Com a música, Atriz reaparece: avental de babadinhos, ar e fala empostada, empurrando uma mesa com vasilhame, tipo a desses programas de receitas culinárias pela TV.

 

Apresentadora – Hoje eu lhes trago uma receita importante que toda moça prendada deve conhecer… e usar: a receita de Príncipe Encantado. Príncipe Encantado não é uma receita fácil. É uma receita que veio da mamãe, que a recebeu da vovó. Tem o peso e a experiência de toda uma tradição que deve ser seguida, porque, como mães, temos o dever de orientar bem nossas filhas… Por isso, prestem bem atenção! Aí vai. Anotem!…

Pega-se uma coleção, já bem estudada e selecionada, de todos os possíveis candidatos (vai alinhando sobre a mesa bonecos com trajes e características de acordo com as falas), tendo o prévio cuidado de colocar diante de cada um seus possíveis usos, vantagens e desvantagens.

Apresentadora – Coloca-se numa peneira bem fina (vai colocando na peneira os bonecos), para que todos sejam devidamente peneirados e só passem os realmente aproveitáveis

Cantor (de lá)              Aprendi a domar

                                      amansando éguas,

                                      e para as mulheres

                                      valem as mesmas regras!

                                      Animal, te pára!…

                                                  (Da MPB gaúcha)

Apresentadora (de início surpresa, agora corta ): HEIN?! Os de casca grossa, por exemplo, devem ser imediatamente eliminados! (Joga no lixo um boneco. Cantor se interrompe, sem graça) Os chatos também, fora!, que têm um gosto de ranço insuportável!

                                     

Cantora :  Joga fora no lixo ! ( bis)

                                                       (Joga fora – Sandra Sá)

 

ApresentadoraComece em seguida a descascá-los, um por um, pra ver o que sobra de cada um – e se o que sobra dá pra fazer um bolo de… casamento. Vá pesando todos os ingredientes necessários – a quantidade varia com o gosto de cada mulher, há ingredientes que são até dispensáveis para algumas: (mostrando um boneco) Bonito… Elegante…Rico – ou pelo menos com algum, que sustentar malandro não tem graça…

 

Cantor:                         Genésio, a mulher do vizinho

 sustenta aquele vagabundo…

( Vagabundo -_MPB4 e João Bosco

Apresentadora (comenta) É ruim, hein?…

Cantora :                       Isso não me convém

                                        e não fica bem

                                        eu no lesco-lesco na beira do tanque

                                        pra ganhar dinheiro

                                        e você no samba o dia inteiro

                                        ah, o dia inteiro…

                                                             ( Vai trabalhar, Ciro de Souza)

 

Apresentadora – Assim não dá, né?… (retoma o tom anterior) Mas voltando a nossa receita:… (sempre com novo boneco) Inteligente! Sensível – para algumas mulheres este é o fermento mesmo do bolo, só que é um tanto raro, não se acha fácil no mercado…Tolerante – que o mau humor azeda todo o resto!… Romântico – quem não gosta de receber flores e presentes em vez de ter o aniversário esquecido?

Cantora:                      Eu amanheço pensando em ti

                                      Eu anoiteço pensando em ti

                                      Eu não te esqueço

                                      É dia e noite pensando em ti…

                                            ( Herivelto Martins e David Nasser)

 

Apresentadora ( aproximou-se dele, e retoma, dengosa) – Fiel …! Ah! Fiel! Muitas vezes é por falta deste ingrediente que o bolo desanda!

 

Cantora :                     Meu moreno fez bobagem

                                      Maltratou meu pobre coração

                                      aproveitou minha ausência

                                      e botou mulher sambando no meu barracão…

                                                             ( E fez bobagemAssis Valente)

 

Apresentadora – Enfim, evidentemente, responsável, capaz de assumir a função de provedor e chefe da família, de atender a todas as necessidades da esposa – eu disse todas, desde… as que vocês estão pensando, até as que um cartão de crédito jogado com classe sobre a mesa resolve no ato!

Antigamente se comprava no mercado esse produto, já misturado e embalado – (vai buscá-lo na cesta de lixo e o exibe com o rótulo”Bom Partido”)  O Bom Partido!  –

 

Comentário musical: É o bom! É o bom! É o bom!

                                                      ( Eduardo Araújo)

 

Apresentadora(suspirosa) O Bom Partido… Ai! Lembram-se dessa marca? Tinha todos os ingredientes: o provedor, o protetor, o chefe, o guia… Pois é, mas a marca saiu de circulação… Acho que porque, depois de aberta a embalagem, muitos vinham estragados… E, mesmo com a forma untada de… promessas, o bolo do casamento solava!

Cantora:                       Ai, esse cara tem me consumido

                                      a mim e a tudo que eu quis…

 

ApresentadoraPor isso um conselho: a experiência mostra que é sempre bom provar – provar, vocês sabem o que eu quero dizer – antes de levá-lo pra casa…

Cantora –                      …Vem me botar na rede

                                      reviver a sede

                                      vem me fazer aquele

amor

parceiro das delícias,

amor…

            (Geraldo Pereira)

 

ApresentadoraProvar, porque há alguns que depois de cozidos, digo, de casados, ficam intragáveis! O que mostra que, ou faltaram alguns ingredientes básicos, ou o forno do casamento não estava na temperatura adequada, ou que… era melhor ter ido levando em banho-maria, sem ir ao fogo de casar

 Cantor:                        Ela só quer

                                       só pensa em namorar… (bis)

                       ( Xote das meninas – Marisa Monte)

 

Apresentadora – E se depois de tudo isso não funcionar, ou se você de novo não acertou a receita, não se aflija: misture o resto que ficou na peneira, sacuda bem e… pesque qualquer um – “não tem tu, vai tu mesmo”… que esse negócio de ficar sozinha é muito chato e, além do mais, desvaloriza a mulher no mercado! Homem é que nem cachorro com poste: só mija onde sente o cheiro de outro…!

Cantor:                       Eu não sou cachorro, não

                                   Pra viver tão humilhado!

                                   Eu não sou cachorro, não

                                   pra viver tão desprezado !..

                                                  (Eu não sou cachorro – Waldick Soriano)

 

Apresentadora (pra ele)Mas não fui eu quem disse isso: foi um homem mesmo que me garantiu! (Vai saindo, empurrando seu carrinho-mesa e acenando, sempre afetada, ao som da música)

Música :  Agora eu era herói

                 e o meu cavalo só falava inglês

                 a noiva do cow-boy

                 era você além das outras três…

           

 

No telão ou cartaz, o titulo da nova cena: 

                                     

                            Um  Produto Procurado

 

Locutor entra sob fanfarra: de smoking, tipo um apresentador de um desfile de modas ou eleição de Miss Qualquer-Coisa.

 

Locutor – Boa noite, senhoras e senhores! (tom) Numa sociedade de mercado investir no produto certo é uma garantia de qualidade! E o produto que hoje anunciamos é dos mais procurados, já que 50% da sociedade quer comprar e os outros 50% vivem de sua venda. Senhoras e senhores, com vocês… ( gesto e empostação de apresentador) um produto procurado…  

 

Locutor – … a Mulher Ideal !

 

Surge, em grande pose, a Atriz, traje longo, cabelos presos ao alto:

Música:             Bela, bela, mais que bela

                          mas como é o nome dela

                          não era Helena nem Vera

nem Nara nem Gabriela

seu nome, seu nome era…

                       (Bela, bela- Milton Nascimento)

                         

Ela começa a desfilar, como que em passarela, enquanto ele continua, com a mesma empostada ênfase:

 

Locutor – Como a sociedade atual foi feita por nós, homens, e para nós, o produto “Mulher Ideal” foi criado, é claro, em função das necessidades e aspirações da clientela masculina. Portanto, (dirigindo-se a alguém próximo, na platéia) você, que é um homem inteligente e sabe bem investir, estude bem o seu tipo antes de decidir que tipo de mulher seria ideal para você.

 

Ela foi ao fundo e agora retorna, uma nova figura (acessórios novos) mas ainda  em pose e  passo de desfile, exibindo-se e ilustrando o que ele diz: 

 

Locutor – Vejamos: se você é um executivo classe A, o tipo que lhe cabe é a mulher social: elegante, acondicionada em atraente embalagem … ela parece estar sempre alegre – seu sorriso é permanente… Parece sempre bem informada – vê todos os jornais da tv…Sempre tranqüila, mas a pose pronta para a foto que realize seu sonho maior: sair nas colunas sociais!… É a acompanhante ideal de executivos classe A que, ao se exibirem em sua companhia, darão a todos a impressão de que sua cotação na Bolsa do Sexo é  tão alta quanto na Bolsa de Valores!

 

Locutor agora finge responder a uma pergunta vinda da platéia.

 

Locutor – Como…? O problema deste produto?…

(Ela se mostra indignada e sai, furiosa; ele vai explicar olhando, inquieto, para onde ela saiu) Bem, nada é perfeito… O problema deste produto é que… é que ainda não conseguimos eliminar dela uma postura um tanto… calculista diante de tudo, sua irresistível tendência a ser uma caixa registradora – a síndrome do ganho, do lucro, sabe como é?

Cantor :                                   Nunca vi fazer tanta exigência

                                      nem fazer o que você me faz,

                                      você não sabe o que é consciência…

 

Locutor -Afinal, se ela é um tipo social, absorveu bem os padrões que dominam em nossa sociedade…Os senhores não se perguntam, ao fazer qualquer investimento: quanto é que eu levo nisso? Pois é… Ela também… Mas estamos aperfeiçoando este produto para deixá-lo… no limite do suportável …

Cantor                          Você só pensa em luxo e riqueza

tudo que você vê você quer…..

 

Locutor -… limite que já não é baixo. Que o digam aqueles que o pagam!

 

Locutor – (dirigindo-se a outro espectador) Já se você é do tipo caçador e seu esporte predileto é na horizontal, pode tentar a sexy…

 

Seus olhos se voltam para o fundo, onde luz agora destaca a nova figura que surge, vestindo longo muito justo, provocante, rebolativa, jogando com os cabelos soltos e fixando sedutora e provocativamente os homens mais próximos ao desfilar.

 

Música :            Eu sei que sou bonita e gostosa

                          e sei que você me ama e me quer

                          sou uma fera de pele macia

                          cuidado, garoto, eu sou perigosa!

                            Eu posso lhe dar um pouco de fogo

eu posso fazer você meu escravo

eu faço você ficar louco…

Dentro de mim… muito louco…       

                                                  ( Perigosa-  Frenéticas)

 

Locutor – Ela aprendeu a ler no kama-sutra e até hoje só escreve cama-sutra com c de cama, mesmo… ( ela vai se agarrando a ele, provocadora) O violão foi inspirado nas formas de seu corpo, que mal você toca já começa a emitir sons  – estou falando do violão, é claro.

Cantora :                      Não existe pecado

do lado do baixo do equador

vamos fazer um pecado

                                      suado, rasgado, a todo vapor…

 

Locutor – Ao lado dela você será sempre olhado, invejado, procurado, adulado… ( para um espectador) Hum…? O problema deste produto?… Todos querem sempre saber os possíveis problemas… Natural… Investimento é investimento…

 

Ela esnobou a pergunta e saiu pela lateral, após um convidativo sinal a alguém da platéia, que o locutor não reparou.

 

Locutor – Bem… o único senão deste produto é que… depois de certo tempo ( gesto expressivo na testa) você fica sem condições de passar debaixo de portas, ou de árvores de galhos baixos… E o dia que morrer terão que lhe fazer um caixão especial, mas…

 

Sonoplastia comenta ironicamente…

 

Locutor – Em compensação, seu custo é menor que o do produtor anterior, pois seu investimento e patrimônio é apenas… o seu corpo.

 

Locutor – Mas, já que estamos tratando de custos, temos também o modelo econômico, mais popular, de linha tradicional…

 

A Atriz agora surge em trajes caseiros, tipo camiseta e bermuda, sandália havaiana, sacola de supermercado na mão, sorriso meio tolo e ar um tanto serviçal.

 

Locutor – Não é difícil reconhecê-la…

Cantor:                                     Todo dia ela faz tudo sempre igual

                                      me sacode às seis horas da manhã

                                      me sorri um sorriso pontual

                                      e me beija com  a boca de hortelã…

                                      Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar

                                      e essas coisas que diz toda mulher

                                      diz que está me esperando pro jantar

                                      e me beija com a boca de café…(etc.)

                                                  (Cotidiano- Chico Buarque

 

Ela veio ao locutor, ilustrando com seus gestos o que diz a música. Depois se afasta e fica parada no fundo.

 

Locutor – Quem não conhece a chamada “mulher doméstica”? (Que as más línguas chamam de “domesticada”…) É um produto tradicional, de grande aceitação no mercado. Mas, nesta versão moderna, último tipo, tem características inéditas: ela não pede mais que você conserte o aquecedor, nem a pia vazando, nem o abat-jour que está em curto. Pasmem! Ela sabe fazer tudo isso! (Ela junta as mãos ao alto, em gesto de vitória e ri tolamente) Assim sua casa funciona com o menor custo possível. E de noite, se você gosta de… comida caseira…(ela esconde o rosto, envergonhada) ela está ali mesmo, às suas ordens…Ou seja, se você é apenas um funcionário público, ou um mísero assalariado, ou um possível futuro desempregado, e pra você é vital um produto de baixo custo, esta é a sua … mulher ideal!

 

Ela volta a erguer a mão, vitoriosa, e vai saindo sob o olhar um tanto depreciativo do Locutor, que passa a responder a nova pergunta da platéia.

 

Locutor – Ahn?… Se juntasse as três em um único produto? Ah, meu amigo, seria a Mulher-Maravilha. É o que todos querem, né? Mas, por enquanto, só existe em ficção. Os japoneses tentaram a marca Gueixa, que se aproximava um pouco, mas as mulheres atuais de lá mesmo entraram no mercado e reduziram sua fabricação. Uma pena…

Cantora – E a mulher independente atual?

Locutor (um tanto desconcertado) Ahn?… A mulher independente atual? Não, não, não, garanto que esta não é fabricação nossa! E é um produto ainda imprevisível, que pode dar sérios problemas, porque seus mecanismos estão fora do nosso controle! Por isso desaconselhamos: melhor ficar com o que se conhece do que se arriscar com esses… produtos novos!

Mas há outras opções, claro. Como o mercado funciona em função da demanda, vá declarando a sua…

Cantor:                         … às vezes passava fome a meu lado

                           e achava bonito não ter o que comer…

 

Atriz (  retornando à  cena) – Bonito, passar fome? Eu, hein ?!…

Cantor (para ela)

                        Eu quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar

                        E que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar…

                                   (Wilson Batista e Haroldo Lobo)

 

Atriz – (aproximando-se) O distinto está procurando uma empregada?

Cantor – Bem, empregada, propriamente, não…

Atriz    – Já sei: não assina carteira. Mas, e impropriamente… como é que o     

               distinto pretende remunerar ?

Cantor – Remunerar…?! Bem…Eu te darei o céu , meu bem, ( Bis

                         e o meu amor também….      (

                                      (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

     Atriz   – Ih! Qualé, cara… Deixa o céu pras Amélias e Emílias que esse  tipo de mulher já era!

 

Cantor ( animando-se) – Mas se você vier

                                      pro que der e vier comigo

                                      eu lhe prometo o sol – se o sol sair…

                                      e a chuva – se a chuva cair…

 

Atriz – Tá pensando que eu nasci ontem, oh meu? Esse papo furado a gente já conhece… e não cola mais. Fui!… (Sai.)

    

Locutor – Bem, se você ainda não encontrou a sua, não se deixe tentar por novidades…mas também não desista! Vá traçando – quer dizer, testando – todas as que encontrar …(ao Cantor) Dizem que Oito Mulheres é um bom número:

Cantor:                        Pode falar meu bem

                                      pode chorar se quiser

o homem não pode viver

somente com uma mulher.

Uma é pra dentro de casa

outra é pro meio da rua

uma é pra dia de sol

outra é pra noite de lua

uma é para o pensamento

outra é para o coração

uma é mulher de verdade

a outra é a inspiração !

Não é?…

                 (Ataulfo Alves)

Locutor – Enfim, você acaba conseguindo, nem que seja por cansaço e desistência: “Não tem tu, vai tu mesmo”… Ou então… ( passeia, ele próprio exibindo-se de certo modo, até uma desmunhecada sutil e expressiva) … quem não tem cão caça com… o gato. Há cada gato!… Sacou?…

 

Sai. Telão se acende sobre a imagem de um Deus indignado e um Diabo eufórico:

Deus (voz off) – Sociedade de mercado!…Tudo se vende, tudo se compra, tudo é mercadoria!…

Diabo – Os homens estão progredindo, Senhor! Se continuarem neste rumo em breve o mundo será um inferno perfeito!

Deus – Mas o mundo está mudando, Lúcifer. E as mulheres e os homens também.

Diabo – Nada. Eles blefam, Senhor! Pega um machão: ele diz que aceita dividir as tarefas domésticas. Vai ver, a mulher está cuidando do bebê e ele… da babá!

Deus – E você acha que elas estão engolindo tudo ? Pois sim… Olha lá!

 

                          Figuras somem e entra o novo título:

 

                            Para quem acredita em Papai Noel

 

Música de abertura: Um programa de rádio: vinheta da Rádio Bandeira e trilha para o Locutor dar o seu Bom Dia.

 

Estúdio de uma rádio. Locutor, diante de microfone, voz empostada.

Locutor – Bom dia, ouvintes! Mais uma vez vai pelos ares a grande família da Rádio Bandeira, a minha, a sua, a nossa rádio, porque o Rio, hoje, só dá Bandeira!

BG de Apresentação.

– E sempre numa oferta de Pôncio Pilatos, o sabão que lava até dinheiro melhor que qualquer banco da Suíça, o sabão preferido de nossos homens públicos, o programa “Tribunos Livres” traz hoje para vocês um tema polêmico: a igualdade dos sexos!  E para este espetacular debate nossa convidada  de hoje é… a escritora Virgínia Golfe! Bom dia, Virgínia!

Virgínia – Bom dia, ouvintes. É um prazer estar aqui com vocês.

Locutor – Virgínia, você acredita mesmo nesse negócio de igualdade do homem e da mulher?

Virgínia – Claro que sim.

 Locutor – Mas o homem e a mulher são tão diferentes! Você já viu uma mulher de carregadora de cais do porto?

Virgínia – Também nunca vi um homem parindo uma criança. E daí?

Locutor – Então… Até  biologicamente são diferentes! O homem tem mais força, mais…

Virgínia – É a força que dá direitos? O elefante seria o dono do circo.

Locutor – Bem, em termos de direitos a lei é igual para todos.

Virgínia – Será…? Eu sou uma mulher: metade do gênero humano pode dizer isto sem ser contestada. Há ainda os dissidentes da outra metade que usam o mesmo rótulo. Ora, aquela metade e mais este grupo que a ela se juntou não participaram da feitura destas leis, não lhes deram qualquer aval quando foram feitas e não foram sequer convidados a se manifestar a respeito. Donde se conclui que…

Locutor – ( corta,  abrupto ) Ora, não importa quem fez ou quem faz as leis!

Virgínia – Tá com medo da conclusão…?

Locutor – O importante é assinalar que as leis são igualmente aplicadas  a todos os cidadãos, de qualquer gênero, masculino, feminino ou “dissidentes”.

Virgínia – “Igualmente…?”  Hah! Só rindo! Quer um exemplo: se o homem tem uma, duas ou mais amantes, ganha medalha de machão: “Ele é fogo!”, dizem os amigos, babando na gola de admiração. Mas vai a mulher fazer o mesmo… O carimbo de adultério só bate na testa da mulher. Aliás, por falar nisso, já reparou que a palavra corno não tem feminino?

Locutor – Mas tem! Alguém já disse que o feminino de corno é esposa

Virgínia – Claro…Que as esposas é que são as mais “corneadas,” desde os tempos de Zeus e Hera….

Locutor – Ora, todo mundo é inocente até que provem que é culpado. Isto é indiscutível. Somos um país livre. E as leis aqui são imparciais.

Virgínia – O Brasil…? Um “país livre”…? Com “leis imparciais”..?. Ah, sei! E… você ainda acredita em Papai Noel também?

Cantor se aproxima, dando uma de Assistente da rádio,  e coloca um papel à frente do locutor. Ele lê e… o rosto se abre, sorridente e gozador:

Locutor – Ah, ah! Surpreendente, o primeiro telefonema de ouvinte, hoje! . E é diretamente para você, Virgínia. Imagine quem…? ( pausa) Você jamais adivinharia…Mike Tyson! É, Mike Tyson, em pessoa, telefonou… desafiando você para uma luta!

Ela – ( calma, sem hesitar)  Diga a ele que eu aceito.

Locutor – Hein?!…

Ela ( repete, pausado) Diga a ele que eu aceito!

Locutor – Bem, caros ouvintes, agora os nossos comerciais, depois dos quais nossa ilustre escritora vai nos dizer como que pretende escapar ao desafio de Mike Tyson!

Vinheta .  Entram em fundo os comerciais:

(Voz, off) Você que é um homem público importante, Pôncio Pilatos é o seu sabão! Se você roubou uma nação inteira, não se preocupe: a Justiça já lavou as mãos! Lave-se você também com o sabão Pôncio Pilatos e vá, limpo de responsabilidades e culpas, gozar a vida esquiando na Europa ou nas praias do Caribe!

Locutor (ao fundo) – Ficou louca? Viu a enrascada em que se meteu? Dizer, no ar, que aceita o desafio de… Não sabe quem é Mike Tyson, não é?

Ela – Sei. O campeão mundial de box.

Locutor – Então…? E você diz, no ar, pra milhares de ouvintes, que aceita um luta com um campeão do box ? Enlouqueceu, só pode…! Como é que…

Ela – Depois dos comerciais, não foi o que você disse? Então espere…

Vinheta de comercial e

Música- Cantora:        Não me incomodo

                                      de meter-me num embrulho

                                      se a coisa ficar preta

                                      eu também sou do barulho.

                                      Eu já dei um bofetão

                                      num velhote e num rapaz

                                      qual não foi o meu espanto:

                                      é que os dois queriam mais!

                                (Joubert de Carvalho, cantado por Carmen

                                                         Miranda)

                                                              

Voz (off) – …Pôncio Pilatos, o sabão do homem de nosso tempo !

Locutor – E agora, queridos ouvintes, nossa Virgínia vai dar sua resposta a Mike Tyson, que a desafiou para uma luta. E aí, Virgínia? Vai lutar com o campeão de box?

Ela – Vou. E tenho certeza que ganho.

Locutor – (debochando) Ah, disso ninguém duvida, não é, amigos ouvintes…?

Ela  – … porque, pelo que sei de desafios e duelos, quem é desafiado é que escolhe as armas, certo?  A arma de Mike Tyson é o murro. A minha arma é a palavra. Portanto, aceito fazer um debate público com ele, aqui mesmo na rádio, sobre qualquer tema em que ele consiga algo mais do que morder orelhas…

 

Cantora (gozando) : Pode falar meu bem

                      pode chorar se quiser…. 

Luz fecha em resistência sobre o rosto estatelado do Locutor.

 

No telão, novo título:

Elogio do Adultério

            ou

                              A Infidelidade ao alcance do todos.

 

 

Música – Cantor:                   

                           No seu corpo é que eu encontro

                           depois do amor o descanso

                          e essa paz infinita

                          no seu corpo minhas mãos

                          se deslizam e se firmam

                          numa curva mais bonita

                          e embora eu já conheça bem os seus caminhos

                          me envolvo e sou tragado pelos seus carinhos

                          e só me encontro e me perco

no seu corpo…

             (Seu Corpo – Roberto Carlos)

 

 Ele, sentado, lê um jornal. Ela se arruma com cuidadoso requinte: escova os cabelos, se maquila, escolhe brincos, etc. enquanto dialogam. Ao falar, ela exibirá forte sotaque estrangeiro.

 

Ela – Lucas…?

Ele – Que foi, Maggie?

Ela – O acordo que fizemos quando casamos, remember?

Ele – Acordo? Que acordo?

Ela – De ser um casal moderno, sem preconceitos, soltos, livres, vida       

         independente…

Ele, distraído, sem deixar o jornal.

Ele – Claro. Somos pessoas maduras, mentalidade arejada. Não vamos ficar presos a princípios antigos.

 

Ela observa com atenção a maquilagem, que retoca, examinando o rosto, para um lado, para o outro.

 

Ela – That’s it!. Fidelidade… nada a ver! Lealdade, sim: nada de hipocrisias, nem mentiras…

 

Ele baixa o jornal. Levanta-se. Aproxima-se dela, discursivo.

Ele – Claro. Isto de fidelidade é uma cretinice. Ninguém é fiel a ninguém. Uns mentem, outros omitem, mas de besteira: uma transa a mais ou a menos não faz a menor diferença. (abraçando-a) Pelo contrário, a variação às vezes até renova o apetite, quebra a rotina, estimula a ..

 

Ela  ( animada e feliz, voltando-se para ele) – That’s right !.                         

Ele agora a olha, intrigado com seu ar e tom. Examina por um instante sua cuidada figura.

Ele – Mas… mas por que essa conversa agora? E essa animação toda?

Ela – É porque estou avisando você que… hoje vou sair com o Peter.

Ele – Hein…? Sair com… que, que Peter é esse?

Ela – Um rapaz lá do Consulado. Sabe, estou com saudade de fazer amor em minha língua. E ele… when I saw him I got really excited! Uma tesão, mesmo!

Ele – Hum… E é por isso que está aí há uma hora se embonecando toda?

Ela – Of course, my dear. Quero que ele também guarde uma boa recordação desta noite.

Ele – Hum…Peter…Será uma noite “inesquecível”, com certeza…

Ela – Well, we’ll see! By-ye!…

 Ela sai. Ele só acena com a mão, sem responder.

 

Sozinho, olha em volta, pensando o que fazer.

Ele – Sete horas, só? Isso é lá hora de jantar? Só americano mesmo…  (Pausa).  Eu é que perdi a fome com essa babaquice toda… Vou é tomar uns whiskys… Lá pelas 10 horas ela deve estar chegando…Fazer amor em inglês… Qual! Maggie  tem cada uma!    

 

Luz fica no Cantor: Saiu só com a roupa do corpo

                           num toró danado

                          foi pro cafundó do Judas

                        apanhou um resfriado.

                          Voltou com a blusa rasgada

                          entrou, não disse nada.

                        Tô com dor de cotovelo

                          e com a cabeça inchada.

                          É de amargar, é de amargar,

                          mas ela é maior e vacinada.

                        Meu chapa,

                          eu caí das nuvens com cara de tacho,

                          essa nega tá pisando em mim,

                        essa não, não sou capacho.

                          Agora ando com a pulga atrás da orelha

                          A telha dessa nega tá avariada.

                          Nega sem modos,

                          só não chio  e nem te dou pancada

                          porque você é maior e vacinada.

                        Se o amigo tem problema igual

                          não é conselho, mas olha :

                          fique sabendo que quem se mete a manda-chuva

                        quase, quase sempre é um chove-e-não molha.

                           Bem que eu queria dar com fé uma cacarecada

                          mas minha nega é maior e vacinada…

                                      ( Feminismo no Estácio- Aldir Blanc e João Bosco)

 

 

Reabre com ele diante de uma garrafa vazia, já meio de porre,

 

Ele – Pô…Três horas da manhã! E essa merda desse whisky que acabou… Agora eu fico fazendo o quê?… Maggie extrapolou, ah, extrapolou, sim!… Será que nem parou pra pensar que eu posso estar aqui, preocupado… (Levanta-se) Não é por nada, não, mas estamos em uma cidade violenta, cheia de assaltos, roubos de carros… Ela foi de carro?… Ou vai ver é ele que vem trazer, lá pelas tantas! E amanhã, o porteiro, os vizinhos vão estar me apontando: “Olha lá o corno!” … Ela com certeza nem pensou nisso… Falta de consideração!

 

Corte.

 

Reabre com ele agitado, mexendo ao acaso nas coisas em torno, já num porre total, acompanhando o cantor: 

 

Música- Cantor:           

                                                                            

                        …Mas enquanto houver força em meu peito

                           eu não quero mais nada

                           Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar

Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada,

                           sem ter nunca um cantinho de seu pra poder                                                 

                           descansar!                                                                                                                                

                                                     (Vingança-Lupicínio Rodrigues)

 

Ele – Cinco horas!…Essa, não! E eu aqui, esmurrando as paredes! Não é pela trepada – isso claro que eu não me incomodo, trato é trato, eu também já fiz das minhas… Mas eu dou duas, três seguidas e esse gringo babaca vai ver brochou na primeira e ficou pedindo mais uma chance, “Be patient, my dear, um dia eu consigo!” Hah! (Pausa) Não vai ela se meter a fazer com ele as “brincadeiras” que eu ensinei! Seria uma traição! É, é por isso que eu fico me sentindo traído. Traído, sim! É traição o que ela está fazendo comigo: usar com esse filho da mãe as nossas brincadeiras, os nossos “aperitivos” e…

                                                      (Canta um verso, estropiadamente)

 

Ele – Vai ver eles agora estão… Aaaaah! Isso não, isso é sacanagem, é sacanagem comigo! (Outro tom) Pára de pensar besteira, pára de pensar besteira! (Suspiro) Mas que é esquisito, é, pensar que um babaca destes está botando a mão na minha mulher!

Fecha sobre ele ainda cantando …”Só vingança, vingança, aos santos clamar…”

 

Corte. Passagem de tempo com música de acalanto. Reabre sobre

ele dormindo sentado. Ela entra, saracoteante e alegre. Ele se ergue de um pulo.

 

Ela– Hello! Já acordado?

Ele– Sabe que horas são, sabe? Oito horas da manhã!

Ela– Por isso eu achei estranho você já acordar.

Ele– Preocupado com você! Preocupado com você, não vê?

 

Ela em movimento, pondo a bolsa a um canto, penteando os cabelos com as mãos, etc. Ele girando em torno, buscando colocar-se à sua frente.

 

Ela – Mas…mas eu avisei que ia jantar com Peter…

Ele – Jantar com Peter e “fazer amor na sua língua…”  Duas, três horas,  no máximo! Não disse que só ia chegar no dia seguinte!

Ela – Ah! Mas se você visse…

Ele – Se eu visse…?!

Ela – …Ele é tão carinhoso, so sweet… Nós conversamos e trepamos, descansamos, trepamos de novo…Aprendi uma nova que vou te ensinar: a cascatinha! Imagina que ele pingou vinho no meu umbigo e…

Ele – Não quero saber!!

Ela – Mas você sempre me contou as suas: Fulana é fria, Beltrana é um vulcão…Aquela do orgasmo múltiplo, remember: “Pára, senão eu morro!” E aquela outra que ria sem parar quando fazia cavalinho…

Ele – Ah, saquei! Você fez de vingança, não foi? Pura vingança! Peter, tesão… Vai ver não tem nem Peter nenhum! Você foi é dormir no hotel da esquina e agora está inventando uma transa só pra me… só pra.me..

Ela – Inventando…?! Eu apresento ele a você.

Ele – Pra ele ficar olhando pra minha testa e me gozando…?!

 

Dá as costas e se afasta. Ela o segue.

 

Ela – Eu não entende você. Vive dizendo: “Ciúme é coisa de criança”, “Relação madura não tem posse!” “Ninguém é objeto de posse do outro!” E agora está aí, arrancando os cabelos porque…

Ele – Não estou arrancando coisa nenhuma! Estou só…Sabe o que mais ? Eu não devia ter consentido neste… nesta babaquice!

 

Ela estaca.

Ela – “Consentido”…? Enlouqueceu ?!

Ele – Não, Maggie. É que eu conheço você. Conheço as mulheres. Afinal, tenho anos de calçada. Mulher é diferente de homem: homem transa e no dia seguinte não sabe nem o nome da mulher mais. Tenho um amigo que teve 365 mulheres em um ano! 365: um Recorde Olímpico! Hoje, ele vê os nomes na agenda e não lembra nem a cara! Vocês, mulheres, não… Se envolvem, “he is so sweet”… Ficam fantasiando, todas melosas, românticas, imaginando coisas… Espero só que esse tal de Peter não cole no teu pé nem pense que eu vou consentir que…

Ela – Você “consentir”…? Outra vez…? Essa não! (dá as costas e vai saindo)

Ele – Maggie! Espere! Eu…espere…!

 

Corta para a Cantora :

                                      Ninguém pode calar dentro de mim

                                      esta chama que não vai passar

                                      é mais forte que eu

                                      e não quero dela me afastar

                                      eu não posso explicar como foi

e nem como ela veio

e só digo o que penso

só faço o que gosto

e aquilo em que creio.

Se alguém não quiser entender

e falar, pois que fale,

eu não vou me importar com a maldade

de quem nada sabe

E se a alguém interessa saber

sou bem feliz assim

muito mais do quem  já falou

ou vai falar de mim.                                     

( Resposta – Maísa)

 

No telão, reaparecem Deus e o Diabo.

 

Diabo– Este round foi meu, Senhor! Reconhece os argumentos dele, essa dupla moral? Atualíssima! Não há homem que não conheça este jogo!

Deus –  Hipocrisia, Lúcifer. É isto que a ideologia machista é: hipócrita. 

Diabo – Isso não há como contestar….

Deus – Mas a mulher de mansinho tá abrindo seu espaço… Pergunte a D. Ivone Lara…

 

Luz fecha sobre telão e passa à Cantora :

                                      Eu vim de lá, eu vim de lá

                                      pequenininha

                                      alguém me ensinou pra pisar neste chão

                                      devagarinho…. (bis)

                                      Sempre fui obediente

                                      mas não pude resistir

                                      foi numa roda de samba

                                      que eu juntei-me aos bambas

                                      pra me distrair

                                      quando eu voltar pra Bahia

                                      terei muito que contar

                                      oh padrinho não se zangue

                                      que eu nasci no samba, não posso parar.

                                      Foram me chamar

eu estou aqui, o que que há….(bis)

 

No telão, título:                   

                                       O repouso do guerreiro

 

Homem entrando em casa.

 

   – Ne-ly !…

 

Pausa. Nenhum som. Ele começa a circular, procurando: ninguém. Ele pára no meio da cena, irritado.

–  Nely…? Pô, será que ela ainda não chegou? Que é que ela pensa da vida, agora vai morar no trabalho só porque virou chefe?

 

Ela, entrando esbaforida.

 

Ela – Oi, Diogo! Nossa, como eu corri! No meio da reunião me lembrei que você estava de serviço hoje à noite. Tiro já, já o jantar.

Ele –  Que é que tem pro jantar?

Ela –  Carne assada com batatas coradas e…

Ele – De novo?! Semana passada, se não era carne assada, era bife. Tá programando em computador?

Ela – Calma. Eu faço uma omelete de queijo pra acompanhar.

Ele – Não, deixa, vou sem comer mesmo. Ou como na rua.

Ela  Não faz drama, Diogo. É num instante!

Ele – Estou cansado de comer comida requentada !

Ela – Micro-ondas não é comida requentada.

Ele – Micro-ondas dá câncer!

Ela – Quem disse?!

Ele – E você sabe que eu detesto chegar e não te encontrar! Ligo pra casa vinte vezes…e nada! Já me sinto tendo um caso com a secretária eletrônica!

Ela – Que é que você quer? Que eu largue as aulas no meio, o trabalho sem terminar…

Ele – Não, continua!Continua até se arrebentar! Que ser professora no Brasil é puro masoquismo.

Ela – Eu gosto.

Ele – Por isso mesmo que é masoquismo!

Ela – Por quê?  Por que o salário não existe? Ou porque…

Ele(corta) Ora, porquê, porquê. Mania de perguntar porquê! Ainda não ensinou a seus alunos que isto não se faz?

Ela – Que é que você quer afinal, ahn?

Ele – Que você não aterrisse apenas em casa e logo saia voando de novo! Eu avisei: não aceite esta chefia, este bando de veados quer é te explorar!

Ela – Explorados todos nós somos, inclusive você! Mas nós precisamos deste salário.

Ele – Salário…! Uma “esmola” que nem mendigo quer! Não compensa a bagunça que fica esta casa, as crianças jogadas por aí, ameaçadas de… de serem até seqüestradas!

Ela – (rindo) E quem é louco de seqüestrar filho de sargento e professora? Iam pagar com quê? Com a pose de se julgarem “classe média”? Ora!… E as crianças não estão jogadas. Quando chegam já têm idade suficiente pra saber trocar de roupa e ir brincar. Espera aí, não demoro.

 

Ela sai. Ele liga rádio ou põe CD, senta-se e fica ouvindo, emburrado, enquanto engraxa as botas.

Cantora – Com açúcar, com afeto

                  fiz seu doce predileto

                 pra você  parar em casa

                 Qual o quê…

                 Com seu terno mais bonito

                 você sai, não acredito

                 quando diz que não se atrasa

                 Você diz que é operário

                 vai em busca do salário

                 pra poder me sustentar

                 qual o quê…

                 No caminho da oficina

                 há um bar em cada esquina

                 pra você comemorar sei lá o quê…

Cantor:            Quando a noite enfim lhe cansa

você vem feito criança

pra chorar  o meu perdão

Qual o quê…

Diz pra eu não ficar sentido

diz que vai mudar de vida

pra agradar meu coração

E ao lhe ver assim cansada

maltrapilha e maltratada

ainda quis me aborrecer

qual o quê..

Cantora :    Logo vou esquentar seu prato

Dou um beijo em seu retrato

e abro meus braços pra você.

                              ( Chico Buarque )

     

Ela retorna,  blusa trocada, trazendo uma bebida pra ele, que recusa.

Ele ( provocando de novo) – Esta casa é um lugar em que eu viveria muito bem… se fosse louco.

Ela – O quê?!… Deus teria vergonha do paraíso se conhecesse nossa casa!

Ele – Ou o diabo mais um meio de levar gente pro inferno !

Diabo (só Voz ) –  Ih, Senhor, nos botaram no circuito…

Deus ( só Voz )   – Quieto, Lúcifer. Você não pode interferir.

Ele – Sua sorte é que eu sou um sujeito compreensivo…

Ela – Quem acredita nisso?

Ele – … e responsável…

Ela – Meu Deus!…

Ela – Se eu também resolver reclamar…

Ele – Eu não estou “reclamando”! Mas até teria de quê! Uma mulher que tem casa, marido e filhos não pode por o trabalho acima de tudo!

Ela – ( parando à sua frente) Eu não ponho o trabalho acima de tudo! Mas por que você pode entrar e sair de casa à hora que quiser, e eu tenho que ficar aqui, para atender Vossa Senhoria quando chega…?

(Ele não responde, ar “muito digno“. Pausa)

Ela – No Primeiro Mundo, que você vive citando, o marido divide com  mulher as tarefas domésticas, sabia?

Ele – Mas eu não vivo lá, vivo aqui.

Ela – Ai, meu Deus!

Voz ( Diabo) – Essa mulher não larga do teu pé, hein, Senhor?

Ela – E  vir correndo pra quê? Pra encontrar você grudado na minha rival?

Ele – Sua rival…?!

Ela – É, a TV! Qualquer dia eu jogo essa TV pela janela! Ou boto um anúncio no jornal: troco uma TV usada por um marido novo!

Ele – Você está perdendo o juízo!

Ela – Estou perdendo é a paciência!…Casamento não devia ser celebrado diante de um altar e sim diante de uma pia de cozinha…E cheia de louça!

Ele – Daqui a pouco vai querer que eu lave minhas cuecas, varra a casa…

Ela – E por que não? Se não podemos pagar nem uma diarista mais! O homem moderno, hoje, aqui no Brasil mesmo, também cuida da casa e dos filhos. E não vira veado por isso, sabe?

Ele – Ah, fingem. Lavam o prato em que comem e pronto! Eu já me esfalfo no trabalho fora, pra dar tudo que vocês precisam…

Ela – Ah, coitadinho!… Eu também trabalho fora, sabia?

Ele – Porque quer.

Ela – Sem o meu trabalho nunca teríamos comprado este apartamento.

Ele – Sem essa! Com mais um tempo eu comprava sozinho!

Ela – Duvido!

                                 (Pausa)

Ele – Sabe que mais? Cansei de fazer papel de idiota! Além das turmas, agora esta chefia de merda! Se você continuar nisso…

Ela – Não tenha dúvida, que vou!

Ele – (tom pomposo) …eu saio fora!

Voz ( Diabo) – Essa não fui eu, hein, Senhor!

Ela – Ai, meu Deus!

Voz ( Diabo) Agora é ela que ‘tá apelando. Mas o Senhor não deve interferir, não  é?

Ela – E aquele consultor sentimental que diz que a discussão é o laxante do

casamento…Pois sim!

Ele – Te dou uma última chance: é pegar ou largar!     

                     Ela de costas, sem responder.

Ele – (vitorioso) Se não, volto pra casa de meus pais!

Música :            Mamãe estou tão feliz

                          porque voltei pra você

                          alguma coisa me diz

                          que hoje eu volto a viver

                          Fico feliz a teu lado

                          viver distante porque…

                        Mamãe…!

                                      ( Mamãe – Aguinaldo Timóteo)

 

Ele – Depois… vou à vida! Vou ter um bando de namoradas, todas me paparicando… e eu só ali, numa boa!

Ela – ( voltando-se, súbito) Então vai…! Vai e procura outra que nem tua mãe ! Ah, Freud, essa você deu na cabeça!

Ele – (engasgando) Não meta minha mãe nisso! Mãe é mãe! E é sagrada!

Ela – “Sagrada”…? Um burro de carga de toda a família, lavando, passando, cozinhando, arrumando, sem um minuto de descanso, sem ter o trabalho dela reconhecido, vocês todos só exigindo, cobrando… Pois sabe o que eu ouvi dela, de sua mãe mesma? “Nunca largue seu trabalho, minha filha, que ser dependente é a coisa mais triste que há!”…

Ela – Minha mãe nunca diria uma coisa destas!

Ela – Pois disse! Vá lá e pergunte a ela!

Saem, um pra cada lado. Corte de luz.

  

Título no telão:

                              Caso de vida e morte

 

Luz sobre Cantor:

                                      Sentimental eu sou

                                      eu sou demais

                                      eu sei que sou assim

                                      porque assim ela me faz

                                      e as músicas que eu vivo a cantar

                                      tem um sabor igual

                                      por isso que se diz

                                      como ele é sentimental

                                      romântico a sonhar

                                      e eu sou assim

                                      cantando essas canções

                                      pra quem ama igual a mim

                                      e quem achar alguém como eu achei

                                      verá que é natural

                                      ficar como eu fiquei

                                      cada vez mais sentimental.

                                                  ( Jair Amorim/ Evaldo Gouveia)

 

Mulher dormindo. Telefone toca. Do outro lado da cena, homem sentado, telefone ao ouvido.

 

Ela – ( sonolenta) Alô…

Ele – (bem desperto) Oi!

Ela – Ahn… É você, Paulo César?

Ele – Ih, acho que te acordei…

Ela – Anda, fala de uma vez… A que horas foi o… o grande evento? A performance única e exclusiva, sem direito a repeteco?

Ele – Hein?!

Ela – A que horas ela morreu?

Ele – Quem foi que morreu?

Ela – Tia Licinha. É por isso que você está me ligando a esta hora da madrugada, não é?  Aliás, que horas são?

Ele – Eu tô sem relógio.

Ela – Pra variar. Desde que você foi assaltado e perdeu aquele Rolex falsificado nunca mais andou de relógio. Olha, no camelô tá baratíssimo, vê se compra um logo, tá?

Ele – Tá. Mas escuta…

Ela – Aí no hospital deve ter gente pra informar a que horas Tia Licinha morreu.  (Pausa) Paulo César,  tá me ouvindo?

Ele – Tô sim, é que…

Ela – Olha aqui, primo, eu sei que você tá nervoso, mas agora não adianta mais. Você fez tudo que podia, mas é que chegou a hora dela. Partiu desta pra melhor e agora deve estar com os anjos. Era uma santa senhora!! ( de lado ) Uma boa filha da puta, isso sim !

Ele – Nossa, que exagero.

Ela – É você quem está dizendo, Paulo César, não eu. Afinal a mãe é sua, é você quem sabe, não é? ( Pausa) Está me ouvindo, Paulo César?

Ele – Perfeitamente, prima. Não precisa gritar.

Ela – Desculpe. É que fiquei nervosa, nem sei porque. Afinal a gente já estava esperando pelo pior, não é? Um mês de CTI! Você quer que eu tome as providências?

Ele – Providências…?

Ela – Do enterro, primo. Quer que eu avise os parentes, os amigos? Mas acho melhor esperar amanhecer, não é mesmo? Também a gente precisa saber mais detalhes, tipo hora do enterro, cemitério, esse tipo de coisa. Que é que você acha?

Ele – Eu não acho nada…

Ela – Eu sei que você está desorientado, primo. Olha, eu tinha muita raiva da Tia Licinha, mas mesmo assim aceite meus pêsames, de coração, ouviu? Eu sempre quis muito bem a você, Paulo César. Desde que a gente era criança.

Ele – Eu não esperava uma dessa. Obrigado.

Ela – De nada. Por que é que as pessoas sempre resolvem morrer de madrugada? Deve ser porque nascem de madrugada também. Pra aporrinhar bastante os médicos e os parentes. Aliás, que horas são, hein?

Ele – Não sei, já disse.

Ela – Desculpe. Você está sem relógio. Mas será que aí no hospital não dá pra você ver a hora ? Uma dessas enfermeiras de plantão deve ter um relógio.

Ele – É que… eu não estou  no hospital.

Ela – E você está onde?!

Ele – Em casa.

Ela – Eu não acredito!… Eu realmente não acredito! Você está em casa e deixou o corpo da pobre Tia Licinha no hospital!

Ele – Ninguém pode sair do hospital com um cadáver a tiracolo.

Ela – Mas você é mesmo um filho desnaturado, Paulo César!

Ele – Eu não sou o Paulo César.

Ela – Ah, não…? Então…você é quem?

Ele – Pode me chamar de… de.. Solitário.

Ela – Chamar de quê…?!

Ele – Solitário.

Ela – (de lado) Solitário… Que apelido mais cafona… (para ele) Mas como é que você tem a ousadia de me telefonar pra me dizer que a pobre da minha tia, aquela santa senhora que nunca fez mal a ninguém….como é que você, Solitário, ou sei lá que nome tenha, tem a petulância de me ligar pra me dizer que minha tia morreu, hein?

Ele – Só que eu não falei nada. Quem falou foi você.

Ela – Eu???!!!

Ele – Claro. Eu ligo e você começa a falar, a me chamar de Paulo César e…

Ela – É demais, é demais! Eu não acredito. Olha aqui, oh…

Ele – Pode me chamar de Paulo César, se quiser. É um nome bonito.

Ela – Eu não vou chamar você de nada. Vou é desligar. Você me telefona de madrugada, me acorda, me dá a notícia da morte de minha tia…

Ele – Ei, pera aí…

Ela – (sem ouvir)… e nem esta boa notícia é verdade! Aquela miserável ainda está viva, e acabando com a família toda! Gastou tudo que pôde, nunca fez um favor pra parente nenhum, um egoísmo só! A gente aqui numa luta danada, agüentando um aluguel que subia a toda hora, enquanto aquela vaca ia pra Europa com o português que ela arranjou…

Ela – Bem, pelo menos ela aproveitou, né…?

Ela – Ah, nem sei por que estou falando essas coisas pra você.

Ele – Nem eu…Mas, escuta…

 

Música. (enquanto os dois atores permanecem na penumbra em mímica de        

                conversa)

(Cantor/ cantora)        Quem é você

                                      Adivinha, se gosta de mim

                                      hoje dois mascarados

                                      procuram os seus namorados

                                      perguntando assim:

                                      quem é você, diga logo

                                      que eu quero saber

                                      que eu quero saber o teu jogo

                                      que eu quero morrer no teu bloco

                                      que eu quero arder no teu fogo

                                      Eu sou seresteiro, poeta e cantor

                                      o meu tempo inteiro só penso no amor

                                      Eu tenho um pandeiro,

só quero um violão

                                      Eu nado em dinheiro,

                                      não tenho um tostão

                                      Fui porta-estandarte

                                      não sei mais dançar

                                      eu modéstia à parte

                                      nasci pra sambar

                                      Eu sou tão menina

                                      Meu tempo passou

                                      Eu sou Colombina

                                      Eu sou Pierrot

                                      Mas é carnaval

                                      não me diga mais quem é você

                                      Amanhã tudo volta ao normal

                                      deixa a festa acabar

                                      deixa o barco correr

                                      deixa o dia raiar

                                      que hoje eu sou

                                      da maneira que você me quer

                                      o que você pedir eu te dou

                                      seja você quem for

                                      seja o que Deus quiser. (bis)

                                                              (Chico Buarque)

 

Ele – Escuta: não dá pra gente se encontrar? Pra…conversar melhor?

Ela – Ah, de repente… Tive uma idéia: você me dá seu telefone. Eu te ligo muito breve.

Ele – Você não vai me ligar, que eu sei.

Ela – ( ar de enfado) Vou, sim. Claro que vou. (anima-se) Eu te ligo pra dizer que minha tia morreu! No CTI, pô ! Tem que estar embarcando – mesmo que o diabo já esteja trancando as portas do inferno pra ela!

 (Gargalhada do Diabo ecoa em fundo)

Ele – Mas eu nem conheço sua tia.

Ela – Por isso mesmo. A gente se encontra no cemitério. Junto do caixão dela. E aí, eu vou estar com você. E aquela desgraçada vai saber que a morte dela serviu ao menos pra alguma coisa!

Ele – Bom…tá legal. Tá com caneta aí?

Ela-  (sem se mover) Hum, hum…

Ele-  Meu telefone é 273-0000. Meu nome é Mauro. E o seu?

Ela– Nilcéia. Mas agora eu vou me despedir que eu tô morta de sono. Um beijo, tá?

Ele – Prefiro pessoalmente. Mas por agora, outro. Tchau.

( Vai desligar quando ainda ouve a voz dela)

Ela – Ei, Mauro…

Ele – O que é?

Ela – Não vai ficar ligando pra tudo quanto é mulher agora, que já é tarde. E olha: teu nome não é mais Solidão, que agora você me encontrou….

 (Desliga com ar gozador e irritado, enquanto ele do outro lado abraça o telefone, feliz)

Luz fecha sobre os cantores:   

                                      Fica comigo esta noite

                                      e não te arrependerás

                                      Lá fora o frio é um açoite

                                      Calor aqui tu terás

                                      Terás meus beijos de amor

Minhas carícias terás

                                      Fica comigo esta noite

                                      E não te arrependerás

                                      Quero em teus braços, querida

                                      Adormecer e sonhar

                                      Esquecer que nos deixamos

                                      Sem nos querermos deixar

                                      Tu ouvirás o que eu digo

                                      E eu ouvirei o que dizes

                                      Fica comigo esta noite

                                      Então seremos felizes.

                                            ( Adelino Moreira /Nelson Gonçalves )

                                     

                                        

Agora a aposta é dos cantores, cada um de seu lugar:

 

Ele – E você, em quem você aposta?

Ela – Nela, é claro!

Ele – E eu, nele! Então, par ou ímpar?

Ela – PAR! Que na Natureza tudo é par: o céu e a terra, o Sol e a Lua, o dia e a noite, o claro e o escuro, o masculino e o feminino… Portanto, pra mim, é PAR!

Ele – E pra mim é ÍMPAR, sempre. Sendo ímpar eu posso fazer par com quem eu quiser, mudar de par à vontade…Além do que, eu sou mais eu, aposto é em mim mesmo, ímpar, inigualável, o rei da criação…Sou ou não sou ?

Ela – Ah, é? Então vamos ver…Um, dois três e …já !

                                                 

Corte de luz. No escuro:.

 

Diabo (Voz) – Hei !…Quem foi que apagou a luz? Senhor, isto é um golpe baixo, indigno de uma Divindade! Quem ganhou este par ou ímpar? Eu quero saber! Eu preciso saber! Isto é importante para a minha aposta!

Deus – Calma, Lúcifer… Ainda não terminamos.

 

                       

                           Quando um par vira ímpar

 

Música :                        Tudo acabado entre nós

                                      Já não há mais nada

                                      Tudo acabado entre nós

Hoje de madrugada

Você chorou, eu chorei

Você partiu, eu fiquei

Se você volta outra vez

eu não sei

Nosso apartamento agora

Vive à meia luz

Nosso apartamento agora

Já não me seduz

Todo o egoísmo veio

veio de nós dois

destruímos hoje

o que podia ser depois          

J.Piedade e Oswaldo Martins)

Ruído de louça quebrada. Abre sobre casal em trajes caseiros: ele imóvel, calado, diante de uma pilha de pratos iguais. Ela falando desbragadamente:

 

Ela – Pô, foi a maior sacanagem você ter quebrado este prato, cara. ( o homem faz um gesto com a mão, como se quisesse dizer algo, mas ela continua) Não, não me interrompa, não. Que foi, foi. Tudo bem, a gente tá dividindo as coisas, quando se separa é assim mesmo. Mas nem por isso você tinha que tomar esse tipo de atitude. Só porque não dá pra dividir onze pratos ao meio? (Ela respira fundo, ele tenta  interromper, ela não deixa) Deixa eu acabar de falar…mania de ficar interrompendo! Foi maldade mesmo, e não adianta inventar desculpas. Quebrar um prato de louça cara só pra me sacanear…Viu o que você fez? Agora eu fico só com cinco e você fica só com cinco e nenhum de nós fica satisfeito.  (suspira) Pois é. É isso aí. Deixa pra lá ( Ele sente a pausa e investe, ela corta ) Espera, vamos resolver os discos.  Pode levar o Wagner inteiro, mas deixa o Chico pra mim.  

 

Cantora:                    De todas as maneiras que há de amar

                                   nós já nos amamos

      (cantarola junto) com todas as palavras feitas pra sangrar

                                   já nos cortamos…

                                 (Chico Buarque)

Ela – ( cantarolando ainda um verso) Eu adoro o Chico! (ele tenta dizer alguma coisa, ela corta) É uma divisão justa! Você gosta dos dois e eu odeio o Wagner. Então leve suas Valquírias. Por falar nisso, essa piranha com quem você anda saindo, ela se chama Valquíria, não é? (Ele olha pro lado, evitando encarar ou responder; ela olha com raiva e continua) Quer ir separar os livros? (pegando uma pilha) Olha, eu já até pensei no assunto. Você leva a sua adorada Agatha Christie, mas deixa o Vinícius pra mim… Ah, não me olha com essa cara, não. “Que seja infinito enquanto dure”. Pois é, mas já não está durando, então larga o Vinícius.

(cantarola) Ah, se soubesses no momento

     todo o arrependimento

     como tudo entristeceu…

E você sempre achou poesia uma babaquice, então deixa o Vinícius, o Drummond e o Quintana aí. (arrancando-lhe das mãos uns livros que ele pegara. Ele sorri, ela também) Parece que a gente tá se entendendo,né? (confidencialmente) Quer que lhe diga: achei que ia ser pior… Bom, então aqueles leões de Cingapura ficam pra mim. Em compensação, você pode levar as taças de cristal. (Ele esboça um gesto de protesto, tenta falar, chega a emitir um som qualquer, mas ela corta). Você sempre achou elas elegantes, pra mim elas são cafonas. Sempre achei cafonas e convivi anos com elas! (Ele tenta mais uma vez protestar). Não, não adianta protestar. Não dá pra dividir meio a meio, que nem os pratos. Essas coisas fazem par. Nós dois já não fazemos mais um par, mas os objetos não têm nada com isso. Olha só, você ainda leva aquela estatueta de marfim que eu ganhei de minha avó. Fica de brinde. Você sempre achou linda, já eu não ligo, fica pra você, pronto! ( Ele sorri, desalentado.Ela olha pra ele, sem saber muito bem o que dizer, depois adota tom de vendedor de loja de eletrodomésticos. Mas está ainda irritada, se vê). Bem, agora vamos aos objetos maiores. Você leva a televisão da sala (respira fundo e assume postura mais descompromissada) eu fico com a do quarto (ele não protesta, até sorri). Eu sou louca por filmes, você não liga, dormia sempre no meio… (Ele não reage. Quer dizer, se você não se importar, eu fico com o vídeo. Mas você pode levar o som: o vídeo e o som devem valer mais ou menos a mesma coisa, os dois foram comprados na mesma época – aquela viagem, lembra? (Ele não fala nada Ela hesita um pouco, a voz meio embargada). Acho que…que é bom negócio, pra você e pra mim. Depois eu compro outro som.  (Ele se afasta. Ela fica mais aliviada e continua) Acho que você não vai querer as panelas, não é? Nunca foi de cozinhar, come sempre um sanduíche quando eu não estou perto pra fazer seu jantar… Enfim… (Vai em direção a ele) Mas acho que vai querer levar a geladeira, não é? (Ele assente com a cabeça) Tudo bem, eu me ajeito com o freezer, por enquanto. (Ele continua sem reagir. Ela se aproxima e pára diante dele) Você vai querer mais alguma coisa? (Ele não responde. Ela perde a calma e toda a sua estrutura desaba) Responde, porra! (Ele a olha, espantado e arrasado) Leva tudo que você quiser, mas não faz essa cara, que eu não agüento! (Ele recua, cada vez mais espantado, enquanto ela prossegue, num crescendo) Não fica aí me olhando com essa cara de cachorro que apanhou… Quem falou em separar foi você, não foi? Então leva tudo, a cama, o colchão, o ventilador de teto, o sofá, o computador, a mesa de centro… e me leva junto também, que eu não agüento ficar sem você!

 

Cantora (Eles ficam abraçados, dançando e trocando carinhos)

                                   Ai, meu amor não vá embora

                                   vê a vida como chora

                                   vê que triste esta canção       

                                   Não, eu te peço não te ausentes

                                   pois a dor que agora sentes

                                   só se esquece no perdão

Cantor:                      Ah, minha amada me perdoa

                                   pois embora ainda te doa

                                   a tristeza que  causei

                                   Eu te suplico não destruas

                                   tantas coisas que são tuas

                                   por um mal que já paguei

                                   Ah, minha amada se soubesses

                                   da tristeza que há nas preces

                                   que a chorar te faço eu

                                   Se tu soubesses no momento

                                   todo o arrependimento

                                   como tudo entristeceu

Cantora|:                   Se tu soubesses como é triste

                                   eu saber que tu partiste

                                   sem sequer dizer adeus

Juntos:                       Ah, meu amor tu voltarias

                                   e de novo cairias

                                   a chorar nos braços meus!

(ApeloVinícius / Baden Powell)

 

No telão, os “espectadores”:

 

Deus – E aí, Lúcifer? Este que você dava como certo… e eu que ganhei no final.

Diabo – Calma, Senhor, a cena ainda não terminou. Olha lá…

 

(Ele e ela ainda abraçados)

Ele – Você que é muito precipitada e veio com essa de separação.

Ela – Não fui eu…foi você!

Ele – Foi você

Ela – Mania de me culpar por tudo! Foi você!

Ele – Ai, começou!… (Afastam-se, saindo um pra cada lado)

Diabo – Está vendo, Senhor? O ser humano é demente, maluco de todo, não acha? É por isso que eu digo: não vão se entender nunca…

Deus – Mas o que é “se entender” pra você? É não discutir, nem divergir nunca? Ou se amarem, apesar disso?

Diabo – Ora, se amarem, se amarem….

 

 

No telão, título:

 

                           Quando um ímpar vira par

 

Música -Cantora:        Me lembro daqueles tempos

  quando a gente namorava

no portão da casa, no portão da casa

Ah, era aquele namorinho

safadinho, bonitinho

muito bem agarradinho no portão

Meu bem por dentro

e eu pelo lado de fora

ele dizia tá na hora

e eu, não, não!

Nosso namoro era xodó beleza

uma fogueira acesa

dentro do meu coração…

.                      (Elba Ramalho)

Mulher de uns 70 anos veio entrando com uma mala, que põe de um lado e abre, começando a zanzar pelo aposento: roupas e objetos diversos, espalhados, que ela irá separando e arrumando na mala.

Pára no meio da cena:

 

– Quando eles chegarem e eu anunciar minha decisão, já sei o que é que vou ouvir: a cara de assombro de Marisa, “Ficou louca, mamãe?” e o ar de deboche de meu genro, “Na sua idade, D. Rosa?” Na minha idade… Na minha idade, sim, por que não?…

 

Volta aos arranjos.

 

E Marisa vai continuar: “Deixa ela em paz, Reinaldo. Não vê que é brincadeira, que ela tá é curtindo com a cara da gente?” Gozado, se é ele que fala, leva a sério. Comigo, é brincadeira, caduquice.

 

 Dirigindo-se a casacão pendurado em um cabideiro de pé.

 

– Pois eu vou e digo a ele: estou falando é com minha filha e sua opinião, se quer saber, não me interessa nem um pouco! Que eu já estou por aqui com você! Desde a primeira vez que vi sua cara pensei: que foi que minha filha viu nesse traste? E o tempo só fez confirmar minha impressão, porque você… Ih! Melhor eu calar minha boca, senão…

.

Dá as costas ao casaco. Afasta-se. Recomeça seu trabalho e seus gestos de arrumação, que marcam a inflexão e o tom das falas.

 

Mas aí vão começar as perguntas: “E quem é ele? E onde é que a senhora conheceu esse cara, mãe?” E isso agora interessa? Que diferença faz se eu encontrei ele pendurado num poste da Light ou numa prateleira do supermercado? (desaforada) Encontrei ele num bordel, pronto! Parece que bebe, esta minha filha… Onde é que os velhos como eu podem ir, com esta idade e esta aposentadoria do INPS que temos? Só até a praça, mesmo!

 

Pára, lembrando.

 

– Sentar num banco da praça e ficar lá, olhando pro tempo… ou dando comida aos pombos. Acho que foi pra isso mesmo que Deus criou os pombos, pra que velhos como Feliciano e eu possamos nos distrair jogando migalhas de pão pra eles…Porque Deus, que é muito sabido – por isso mesmo que é Deus – já sabia das safadezas que os governos aprontam com o dinheiro da nossa aposentadoria e com as filas que nos fazem enfrentar nos bancos, nos hospitais e com tudo mais que nem vale a pena lembrar, de tanta raiva que dá!

 

Pausa

– Mas como é que eu vou explicar pra eles?

 

Música suave:                     A mesma praça, o mesmo banco

(sem letra, só “clima”)       As mesmas flores, o mesmo jardim…

 

Foi num banco de praça que nos conhecemos. Quando as migalhas de pão dele se acabaram e os pombos, que estavam bem pertinho, continuaram esperando…  e ele… os olhos dele levantaram pros meus no banco ao lado e… e eu entendi o pedido deles… e fui me sentar ao lado dele… e começamos a conversar…

E entra dia e sai dia, os pombos sempre ali e nós também, conversando… conversando… (outro tom) Velho precisa falar, mas quem é que dá atenção a velho nessa terra?… E de conversa em conversa, o carinho foi chegando…

 

Close de seu rosto, feliz, iluminado. Cai em si. Música cessa.

 

– Aí minha filha vai tornar a dizer: “Na sua idade, mãe? Isso é ridículo!”

(encrespando-se de novo) Ridículo, por que?  Que é que tem a minha idade? Já morri, por acaso? Então, que é que tem a minha idade? É muita?…E a tua era pouca quando se envolveu com esse estafermo do teu marido e eu não falei nada! Foi ou não foi?…Então…? Não vai querer que eu também espere 5 anos pra casar… que nem ele nem eu temos mais tempo pra isso….Na nossa idade, cada dia já é lucro, a morte tá aí mesmo, de olho na gente…

 

Pegando algo que vai enfiando, com roupas e outras coisas, na mala.

 

Aí ela vai desandar a chorar – que Marisa pra chorar tá sozinha. Qualquer coisa é aquele berreiro, desde criança. Pelo menos agora não se enfia mais debaixo da cama… Mas sei que ela vai se derramar: “Ah! Se meu pai visse isso!” Claro que ele não pode ver, ele já morreu há… sei lá quantos anos, são tantos que até perdi a conta… E, além disso, seu pai, Marisa – que Deus o tenha – era bom, honesto, trabalhador…  e só! Que no resto…Feliciano dá de dez a zero!

 

Ri, ar subitamente moleque.

 

Ela vai ficar horrorizada de ouvir isso e vai achar que nós…Ah, tá pensando o que? Que ficamos só olhando as nuvens?… Hah! Mas ela vai é dizer que eu estou maluca de todo…

 

Tira o casaco do cabide e começa a dobrar.

 

A verdade é que… a verdade é que me sinto como um estorvo nesta casa, que nem minha é. Feliciano também está sozinho, mas foi mais esperto que eu: não deixou venderem seu apartamento e comerem o dinheiro da venda. Mas ele se sente só, como eu…

Falamos horas e horas e eu sinto, e ele sente, que é bom quando estamos juntos. Não é uma paixão enorme…Somos dois velhos que precisamos um do outro, que podemos ser úteis um ao outro…Vocês não sabem que alegria é para um velho se sentir útil…Dá uma felicidade! E ser feliz nesta idade, do jeito que velho é tratado aqui, e com essa aposentadoria que recebemos… é muito raro, difícil, mesmo.

 

Ela acabou de pôr suas coisas na mala, que fecha. Joga sobre ela o casaco. Ajeita os objetos que ficaram.

 

Portanto, não se preocupem. Eu aqui passo quase o dia todo sozinha… vocês no trabalho, as crianças na escola…Com ele vai ser diferente. Ele é carinhoso, paciente. E eu vou ter de quem cuidar, e uma casa só minha para arrumar e alguém com quem sair, de braço dado para passear…

 

Falando para a distância.

 

Filha, você não sabe o que representa, para mim, na minha idade, ter o calor do corpo de um homem, os pés aquecidos pelos dele… receber um carinho sem ter que pedir… Porque vocês… vocês me desculpem, mas … dão um beijo, um agradinho de passagem, distraído, perguntam: “Como vai?”, eu respondo:”Vou indo!” e vocês não querem nem saber indo pra onde!

 

Pega a maleta, põe mais junto à saída.

 

– É natural, são jovens, têm a vida de vocês… Mas eu também tenho direito de ter um homem a meu lado, um homem que me queira…e encontrei um! Ou você pensa que homem só serve para… e na minha idade isso não conta mais? Pois conta, sim, e cada idade tem seus usos e recursos e pode ser tão bom quanto…Ih! Chega, eu lá vou eu de novo falando o que não devo e deixando eles de boca aberta de espanto!

 

Pega a bolsa. Abre. Confere.

 

            – Identidade. Documentos. Tá tudo aqui.

 

 Ar interrogativo e semi-sorriso de quem ouve ainda uma interpelação.

 

Casar no papel…Vão perguntar, com certeza. Que papel, que nada! Ah, esses que se dizem muito modernos e depois…Tem papel nenhum, a gente lá precisa de papel a essa altura da vida! (em crescendo) Vou pra casa dele, morar junto, mais nada. Dêem o nome que quiserem! Que eu vou mesmo, quer vocês queiram, quer não! Sou maior, vacinada, viúva, tenho minha pensão e…

 

(voz se quebra ) … e não aceito ir pro asilo de velhos, como vocês estavam combinando na semana passada. Pensam que eu não ouvi? Falavam baixo, mas eu ouvi…

 

Luz marca seu rosto, agora emocionado.

 

– …e quando eu contei pro Feliciano isso me doía tanto, mas tanto, que eu nem conseguia falar: minha filha aceitar seu marido me botando no asilo pra se livrar de mim e pegar minha pensão…Eu não parava de chorar, falava e chorava, falava e chorava… Foi aí que ele criou coragem e (ri entre lágrimas) me pediu pra casar com ele!… Ah, meu Deus! É tão bom a gente se sentir querida, e útil, e necessária!

           

Pega a maleta, o casaco. Volta a pousá-los.

 

– Sabe que mais?…Em vez de ficar aqui pensando nas babaquices que vou ouvir daqueles dois, vou logo de uma vez. Deixo um bilhete: “Amanhã passo pra pegar minhas coisas”. E pronto!

Feliciano disse que ia ficar na janela me esperando…

 

Luz marca seu rosto, feliz.

           

           – Tem alguém esperando por mim! Que é que eu posso querer mais da vida?…  

 

Música.

Cantora:                       Se o azul do céu escurecer

                                      E a alegria na terra fenecer

                                      não importa, querido,

                                      viverei do nosso amor

                                      Se tu és o sol dos dias meus

                                      se os meus beijos sempre forem teus

                                      Não importa, querido,

                                      o amargor das dores desta vida

Cantor:                                    Um punhado de estrelas

                                      no infinito irei buscar

                                      e a teus pés esparramar

Cantora:                       Não me importam os amigos

                                      risos, crenças e castigos

                                      quero apenas te amar

Cantor:                         Se o destino então nos separar

                                      se distante a morte te encontrar

                                      Não importa, querida,

                                      porque morrerei também

Juntos:                          Quando enfim a vida terminar

                                      e dos sonhos nada mais restar

                                      num milagre supremo

                                      Deus fará no céu te encontrar.

(Hino ao AmorEdith Piaf – versão Odair Marsano)

                                     

Conclusão

 

Luz no telão, Deus e o Diabo, em off as vozes, como sempre:

 

Deus – Como vê, Lúcifer, depois de séculos, apesar de todos os desentendimentos, descaminhos, crises e mudanças, o Homem e a Mulher não conseguem passar um sem o outro.

Diabo – Mas também não conseguem se entender! Então, EU ganhei a aposta!

Deus – Será…? Mas se ganhou, não levou.

Diabo – Como assim?…

Deus – Você se julga muito “esclarecido”, não é, Lúcifer? Mas esqueceu que Diabo não entende de Teologia.

Diabo – Te… teologia…?!  E daí?

Deus – Na tradição mosaica, Adonai é masculino e feminino. Na doutrina cristã, pela Assunção, Maria subiu ao céu e está sentada à direita de Deus Pai : minha Trindade é, na realidade, um quaternio. E feminino também: inclui a Mãe de Deus.

Ruído de ventania furiosa agita toda a cena.

Diabo – Então… então… o Senhor sabia desde o início no que ia dar nossa aposta!

Deus – Mas você quis apostar…E tem livre arbítrio, como todos os seres criados…Sua “luz” não lhe deu “clareza” para ver isso?

Grito. Estrondo: Diabo explode (no quadro,  se estiver sendo feito em animação).

Deus – Explodiu! Também, com esse gênio explosivo, só podia… Vamos ver o que vai querer aprontar da próxima vez…

 

Luz desce em resistência sobre o casal de velhinhos, que entrou e sentou-se á frente do telão, namorando. E Deus fica a contemplá-los.

 

Música – Hino ao Amor, com os dois cantores juntos, sobe novamente  

                marcando o

 

                                                 FIM

Faltam em nossa literatura dramática e nas encenações em cartaz em nossos palcos peças que tenham por tema e personagens a velhice e os idosos, embora o público de terceira idade seja hoje reconhecidamente predominante em nossos teatros.

Daí essa peça, tratando o tema com um enfoque amplo, que vai dos conceitos e sugestões de Simone de Beauvoir em seu famoso livro La Vieillesse ao universo da cultura popular, com sua visão de mundo enraizada em um cotidiano feito de resistência e persistência, de enfrentamento das adversidades e mudanças da vida com um constante apelo à experiência e à razão, ao sentimento e emoção, ao riso e ao humor crítico. A Autora é também a tradutora do livro “Ganhei mais vida!” (Une Vie en plus) de Dominique Signoret (Ed. Bertrand Brasil), que enfoca por três ângulos (o biológico, o psíquico e o social) os 20 anos a mais que a Ciência já obteve para a média de vida atual em todo o mundo.

A encenação prevista terá elenco formado por um Ator e uma Atriz com longa experiência de palco, e preocupados sempre em ver e mostrar o mundo e a vida sob pontos de vista diferentes, visando à sociedade mais aberta e solidária com que todos sonhamos.

E o trabalho, embora possa interessar a platéias de todas as idades e de todas as camadas sociais, é especialmente dedicado a essa faixa etária cujo percentual cresceu tanto em nossa população, como em todas as partes do mundo.

 

 

                      COMO DEUS QUER OU COMO O DIABO GOSTA ?

                                         

Um quarto pobre, só com uma cama de casal ou colchão no chão, uma cômoda ou cabideiro. Telão ao fundo, onde serão feitas projeções, enriquecendo a cena. As projeções serão sempre citações de filmes de Chaplin, de Fellini, de Bergman que têm  por tema o circo, recortados de modo a ilustrar as situações lembradas.

 

Ele sentado, tranquilo, lendo jornal. Ela entra, furiosa:

Ela – Ah! Isso precisa de uma resposta! Não pode ficar assim! Não vai ficar assim!

Ele – Que foi que houve?

Ela – De novo a mesma coisa! É humilhante! Machuca! Magoa! (desorientada) Eu tenho que…  eu tenho que……Eu vou achar uma resposta!-

Ele – Calma,  mulher… O que foi que aconteceu? Me diz!

Ela (sem responder) – O pior é que… é verdade. Mas… eu não sei…eu não acho que… eu não…

Ele – (segurando-a pelos ombros) Quer me dizer o que “é verdade”, mas precisa de “uma resposta”?

Ela – (depois de uma pausa, com dificuldade) – É minha filha… nossa filha… Me viu alisando minha roupa de bailarina…parou e disse: “Por que você não joga essa porcaria fora? Fica só ocupando espaço no armário!” E quando eu disse: “Eu guardo, que talvez ela ainda possa servir para…” Nem esperou eu acabar de falar e gritou: “Servir pra quê, mãe! Pára de  inventar coisa! Pára com essa mania de se meter onde não é chamada! Você tem que entender que está velha e velho tem mais é que ficar sossegado no seu canto! Velho serve é pra tomar conta de neto quando é preciso! E só!”

Ele – E você ainda liga pras besteiras que ela diz? Ela é uma egoísta, só pensa no que serve pra ela!

Ela – Por qualquer coisinha ela vem lembrar que eu estou velha… e que estou demais aqui…O pior é que eu estou velha mesmo… Eu me sinto velha… Mas quando pego essa roupa… eu fico lembrando…Era tão bonito…( Encosta a roupa de bailarina sobre o próprio corpo, a luz vai mudando para um azulado de sonho ou devaneio.) E não foi fácil… A vida no circo era um bocado dura… Não foi nada fácil virar equilibrista… Tive que treinar muito… (No telão, imagens do que ela vai descrevendo: uma equilibrista, o público…) Aquele fio lá no alto… eu com a sombrinha, caminhando…um pé…outro pé… Não podia cair! E lá de cima eu via o público, parado, todos de olhos grudados em mim, sem nem respirar… E eu vinha vindo… um pé… outro pé… Parecia que o mundo ficava pequeno e que lá de cima eu governava tudo, eu que mandava no olhar, no respirar, ou que mandava todo mundo ficar ali, parado, imóvel… Quando eu chegava no final, cumprimentava, baixando a sombrinha… e o circo quase vinha abaixo de tanta palma!

Ele – Você era mesmo a estrela do circo!  Por isso que eu me apaixonei por você…

                                         Luz retorna à de antes.

Ela – A vida no circo era dura… Mas eu era feliz… Agora… (Num rompante súbito) Vam’bora daqui! Eu não quero mais morar com eles, não quero depender de filho… É muito sofrido!

Ele – E viver de que, mulher? Nossa aposentadoria não…

Ela – (corta) Viver do que der… como puder! A gente não precisa de muito, sabe viver com o pouco que tem… Até fome já passamos, não ia ser novidade…

Ele – Só se eu voltasse ser camelô. Que camelô pode ter qualquer idade.

Ela – Verdade. Você foi mesmo camelô quando novo, não foi?

Ele – E era bom! Vendia tudo!

Ela – O que é que você vendia? Relógio de pulso? Carteira? Pente e baton?

Ele – Não! Vendia ventilador, desentupidor, consolo…

Ela – Eu, hein! Nunca vi camelô vendendo ventilador, desentupidor… e muito menos consolo!

Ele – É que você nunca precisou do que eu vendia. Mas quando eu anunciava: (tom) Ventilador de calcinha pra xereca afogueada! Desentupidor de tripa pra intestino com preguiça! Consolo pra viúva ainda cheia de memória! Pílula japonesa pra levantar o… (gesto) que tá caído! Prótese de porcelana pra homem sem serventia!…

Você precisava ver: chovia freguês!

Ela – Você só vendia coisas desse tipo, coisas lá pras… partes baixas?

Ele – É o que tem mais saída! Você nem imagina!

Ela – Nossa! Não sabia que tinha tanto homem brocha por aí… nem tanta mulher a perigo!

Ele – Mas eu não ficava só lá nos países baixos, não. Também tinha pomada pra testa…

Ela – Pomada pra testa…?

Ele – É. Pra aliviar dor de corno.

Ela – E quem é que tem coragem de sair comprando isso assim, à vista dos outros, passando atestado de…

Ele – Ninguém compra pra si, mas adora levar pro vizinho, pro colega de trabalho, só de sacanagem… Não conhece aquele cordel que diz:

                                                 Se cabeça fosse canteiro

                                                 e chifre fosse jasmim

                                                 nem precisava regar:

                                                 muita gente por aqui

                                                 tinha virado jardim!

Ela (rindo) – Você devia ser um bom camelô mesmo. É bom de papo. Convence… E continua um palhaço também!…(No telão, close do rosto de um palhaço) Eu chego aqui fumegando de raiva…  e num instante já tá me fazendo rir!

Ele – De palhaço eu fiz a alegria de muita gente! E tudo que gente que nem nós, gente que tem alma de artista quer é isso: é dar alegria pros outros!

Ela – Alma de artista…  (sai imagem da tela) Eu fui… Fui bailarina, equilibrista, atriz do teatro… Cada drama de fazer todo mundo chorar… E agora, o que é que eu sou? Sou essa velha sem serventia pra nada. Uma velha que a própria filha acha que é um traste que tem mais é que botar no canto pra não atrapalhar quem anda!

Ele – Pára com esse negócio de velhice! Seu problema não é a idade, é se sentir velha!

Ela – Mas a idade chega mesmo… E com ela a saúde fica pior, a memória começa a falhar…

Ele – Hoje a Ciência tem remédios e caminhos que já deram 20 anos mais de vida pra todo mundo! E dizem que daqui mais um pouco fazer 100 anos não vai ser surpresa nem novidade!

Ela – Ah, falar é fácil…

Ele – Escuta uma coisa: se você saísse andando pela rua e em vez de olhar pra frente ficasse olhando só pra trás, o que ia acontecer?

Ela – Sei lá… Dava com a cara num poste… ou enfiava o pé num buraco e caía…

Ele – Então pára com esse eu fui, eu fiz, só olhando pra trás, pro passado! Sabe qual era o tempo de vida na época dos romanos? Eu li outro dia: 20 anos!

Ela – Só 20 anos…?!…Tão pouca vida?

Ele – E até o século 17 – só (contando nos dedos à frente dela) só 1,2,3 séculos antes de nós, a média de vida era de 27 anos!

Ela – Que nem esses artistas do rock hoje: morre tudo drogado aos 27 anos

Ele – Por essa conta nós já vivemos 2 vezes, já vivemos duas vidas! Então você vê que isso de se agarrar na idade é besteira: cada idade é o que você faz dela. Os homens que mandavam no mundo no século passado – Mao-Tse-tung, Stalin, Churchill, Salazar, De Gaulle, Ho Chi Min e não sei quantos mais todos tinham mais de 80 anos!

Ela – Mais de 80?!…É mesmo? Não sabia… Ah, mas você não pode negar que com a velhice a gente vai perdendo muita coisa: perde o ânimo, o entusiasmo, perde a força pra meter a cara e enfrentar o que der e vier!

Ele – E ganha experiência, ganha sabedoria, ganha mais serenidade pra não fazer as coisas sem pensar, pra não sair mergulhando de cabeça em água rasa!

Ela – Mas eu sinto falta. Sinto falta de minha disposição de encarar os desafios, sinto falta de muitas coisas… Até da aparência jovem e bonita que eu tinha.

                Passagem rápida da imagem da bailarina no telão marca sua lembrança.

Ele – Sentir  falta faz parte de todo vivente em qualquer idade e condição. O cachorro vira-lata na rua sente falta de um dono que lhe dê teto e comida. O passarinho na gaiola tem abrigo e alpiste, mas sente falta da liberdade.  Também não existe ser humano que não sinta ou não tenha sentido falta de alguma coisa. O pobre sente falta de uma sobrevivência garantida e segura. O rico sente falta de amizade sincera porque a maioria só vê na cara dele um cifrão a explorar. (Empolgando-se cada vez mais) A falta existe em todo ser vivo. Mas é a falta que faz nascer o desejo. O desejo que diz de que você sente falta, de que você precisa, desejo que mostra o que é mais importante na sua vida! É da falta que nasce o desejo de preencher o que tá te faltando! Então é da falta que surge tudo que existe, tudo que se criou no mundo!

Ela – Eita! Falou bonito! Mais um discurso desses,  e você vira deputado.

Ele – Epa! Tá me elogiando ou tá me xingando?

Ela – Ué, chamar de deputado é xingamento?

Ele – Pode ser: que de de-puta pra da-puta é uma letrinha, é só um passo. Que muitos por aí já ’tão dando…

Ela – Isso é verdade. Mas cuidado, que se alguém te ouve…

Ele – Eu digo que é brincadeira de palhaço. Se bem que em todos os tempos foram sempre os palhaços, os bufões, os bobos da corte os que, brincando, diziam toda  verdade, até aos reis.

                Passagem rápida de cena com palhaços no telão ilustra.

Ele – Mas se estamos falando em dar um passo – que não precisa ser igual ao deles – vamos ao nosso: independência! Não é esse o seu desejo, não é isso que você quer? Que nós queremos! Então… tá decidido! Bola pra frente!

Ela (susto) – Espera !… Tem que ver… Procurar primeiro pra onde ir…

Ele – Isso se acha fácil. No circo a gente ia de um lado pro outro, dormia em vagão trem, em trailer, em pensão, acampando na estrada, onde dava!

Ela – Eu sei, mas agora…

Ele – Você continua sendo uma equilibrista! E o fio da Vida é mais firme e mais forte que aquele em que você andava!

Ela (de lado) – Mas não tem rede em baixo se cair…

 Ele (sem ouvi-la) – Vamos arrumar nossas coisas… que são tão poucas que isso pode ser feito rápido, rápido!

                                                           Sai.

Ela (sozinha, cada vez mais ansiosa) – Independência… como? A História mesma diz: Independência … ou morte!

               Por ver: no telão o famoso quadro de Pedro Américo, se acaso.

 Independência ou morte. Ou morte… É um risco… Aqui não é bom, mas é seguro. (tentando convencer a si mesma) Minha filha… falou sem pensar. É o jeito dela, sair falando assim… Mas eu sei que ela não me deseja mal. Vai ver ela acha que… que é assim que eu vou ter paz, tranquilidade… depois de tudo que eu já passei na vida… É isso… Vai ver é isso que ela pensou…

                            Ele volta com uma grande mala e põe diante dela.

Ela (estranhando) – Que… qu’é isso?

Ele – Meu órgão. Esqueceu do meu órgão?

Ela – (confusa) Seu… seu órgão? (olhando-o de cima a baixo) Mas… mas  seu órgão não é tão grande precise carregar em mala. Eu conheço ele. E é bem… (gesto de “pequenininho” com a mão)

Ele – (ofendido) Não é desse órgão que eu tô falando. É do órgão que se toca – quer dizer, o meu também se toca, mas…  esse aqui é o que se toca música!

Ela – Ah! O acordeão! Tava esquecendo! Você falou “meu órgão”, eu pensei…

Ele – (corta, seco) Não precisa dizer o que pensou. E suas observações sobre ele também não me interessam.

Ela – Sei. Olha, desculpa. Eu só queria saber… pra onde é que nós vamos. Que quando o circo foi vendido a gente veio pra cá porque não tinha pra onde ir!

Ele – Tem uma pensão aqui perto, muito boa. O quarto é bem barato.

Ela – Um quarto não é uma casa.

Ele – E o que é que nós temos aqui? Um quarto na casa deles. Que cobram o que nós comemos. E ainda nos jogam na cara que estamos morando de favor.

Ela – E como é que nós vamos comer? Que no quarto não se cozinha. E com comida a pensão é mais cara.

Ele – Nós somos urubus, esqueceu?

Ela – Nós… urubus? Eu sei que você é Flamengo…

Ele –– Incondicional!

Ela -… mas daí a ser urubu eu não entendi a relação.

Ele – Você não conhece a história do urubu?

Ela – Não.

Ele – Já que você faz essa cara de “me conte” eu vou contar.

                      Ela senta na beira da cama e ele conta pra ela e pra platéia.

   Luz dá o clima. No telão, ilustrando, close de um urubu, asas abertas, em pleno vôo.

Ele – Era uma vez um tal de Dom Urubu, que todos chamavam de Rei dos Ares. Um dia, quando ele ia no mais sereno do vôo, baixou de repente uma tempestade daquelas! Era tanta chuva que parecia que o mundo vinha abaixo! O urubu foi avoando que nem um corisco e pousou no telhado de uma casa velha. E ficou de lá assuntando pra ver como é que os outros bichos iam se arranjar, se ele, que era o Rei dos Ares, não estava tendo onde se esconder. Aí viu um bando de pombas fugindo, (no telão, pombos em revoada) que logo se meteram no pombal. E o Urubu pensou: “Hum… É ali que elas moram. Deixa vir o Sol que eu também vou fazer minha casa”. Depois passou uma carreira de andorinhas (no telão, andorinhas em carreira, voando) que ele seguiu com a vista e foram se enfiar na beirada do telhado. O urubu falou: “Hum, ali que elas se abrigam, ali que é a casa delas. Eu também vou fazer uma casa pra mim”. Aí passaram umas cambaxirras, se enfiaram num buraco do muro e ficaram lá, bem quietinhas (no telão, cambaxirras aninhadas, olhando). O Urubu só olhando: “Ah, elas têm essa casa. É, acho que eu também tenho que fazer uma casa pra mim”. E a chuva caindo forte, e o vento assobiando, danado de brabo. Os trabalhadores vieram correndo do campo e se meteram na casa onde o Urubu estava em cima do telhado, mais molhado que um pinto pelado e jurando que, quando o Sol saísse, ele ia fazer sua casa.

Aí veio o Sol. Ele sacudiu as asas, voou pra esquentar o corpo e, quando se viu bem enxuto, foi pelos ares rindo dos outros pássaros que não conseguiam chegar no alto onde ele ia. Uma cambaxirra que tinha escutado ele prometer que ia ter casa perguntou: “Dom Urubu, quando é que o senhor vai começar sua casa?” Ele deu uma risada e respondeu: “Quem tem asa para que precisa de casa?”…

                            Reversão de luz. Imagem some da tela.

Ela Quem tem asa não precisa de casa. Mas é por isso que o urubu até hoje não tem casa. E eu… se há uma coisa que no vaivém da vida eu sempre desejei foi um dia ter casa. A minha casa.

Ele – A gente chega lá.

Ela – Mas saindo daqui já… E assim… Sei não… Será que não era melhor…

Ele (num repente) – Me faz um favor? Deita aí na cama.

Ela – Hein?…Deitar? Pra que?

Ele – Tô com uma dúvida que eu quero esclarecer.

Ela – Uma dúvida? Que dúvida?

Ele – Você vai ver.

                               Ela ergue os ombros, duvidosa, e se deita.

Ele – Faz de conta que uma noite você tá aí, bem dormindo, e cai uma tempestade. Chuva que não acaba mais!

Ela – Outra tempestade? Eta dia chuvoso!

Ele (sem ligar pra interrupção) – E aí você descobre que tem uma goteira no teto. E que começou a pingar na sua barriga: (faz os pingos) tum…tum…tum…A pingar seguido, sem parar…Tum…tum…tum…

Ela – Tá… Tô sentindo os pingos. E daí?

Ele – Aí você não consegue mais dormir. E então você levanta, pega uma bacia (pode, se acaso, pegar uma), se deita de novo, põe a bacia em cima da barriga pra aparar a goteira. E a água na bacia vai subindo, vai subindo…

Ela – Ô, tá maluco! Eu não sou burra, não! Se a água vai subindo desse jeito acaba enchendo a bacia, derramando pela cama, me encharcando toda…

Ele – Hum… Como você não é burra, o que é que você faz?

Ela – Eu puxo a cama, mudo a cama de lugar, e mudo junto. É só mudar de lugar e pronto! A bacia fica lá, enchendo sozinha…

Ele – Falou e disse!

Ela (surpresa) – Hein?…Que foi que eu disse?

Ele – A palavra-chave: mudar. A solução do problema: mudar!

Ela – Mudar o que? Mudar a cama de lugar?

Ele – Não. Mudar o que for preciso. A vida toda, mesmo sem ter tempestade, vão pingando em cima da gente cobranças, invejas, ódios, mágoas, ressentimentos, lembranças ruins… A gente pensa que é só uma goteira, que são só uns pinguinhos que a bacia do coração pode aparar… E a gente vai carregando, carregando, e de gota em gota essa água vai subindo, subindo, até que, sem a gente se dar conta, vai afogando tudo em volta e estragando tudo de bom junto.

Ela (Pensativa. Pausa) – Hum… Então…tem que jogar essa…essa “água” ruim toda fora? Ah, mas isso fica muito metido dentro da gente. Tem jeito, não.

Ele – Como não? É só aprender com a Natureza. Como é que a Natureza ensinou nosso corpo a fazer? A gente come, bota pra dentro o alimento. Aí o corpo começa a agir: separa o que vai nutrir, o que vai fazer ele crescer, ter saúde, e o resto… o que não presta, é bosta, excremento, merda, que o corpo bota pra fora!

Ela – Mas você não conhece o ditado que fala do perigo de jogar fora a criança com a água do banho?

Ele – Pra isso a gente pensa, reflete, compara: é isso que a idade e a experiência ensinam a fazer. Ensinam a ver o que é preciso mudar. Ensinam a não ter medo de mudança. A não ir pela cabeça dessa raça de mente acanhada que em tudo vê perigo e ameaça. Você mesma sempre foi assim. E já fez isso muitas vezes.

            Na tela, imagem dela tirando lenço da cabeça e soltando os cabelos ao vento.

                                    Ela “se vê”, enquanto ele continua.

EleE tem que fazer tudo na vida antes de morrer. Que depois de morrer, já viu, não faz mais nada.

Ela – Mudança… Deixando tudo pra trás?

Ele – Não! Deixar o que não importa. Que o mais importante é o que vai dentro da gente. Aliás, nisso nós dois temos uma vantagem: na nossa vida aprendemos a não ser apegados às coisas, já sabemos que roupas, móveis, objetos, essa tralha toda a que muita gente se agarra, não são a coisa mais importante, que não é isso que faz a vida. E isso facilita pra nós: é menos carga pra carregar.

Ela – Lá isso é verdade… Nem desses móveis nós precisamos: o quarto da pensão vem com móveis, não vem?

Ele – Com certeza.

                                Ela pára, ainda meio hesitante, olhando em torno.

EleOlha, eu sei que toda mudança é difícil, que às vezes as dúvidas, as perguntas são muitas, que a gente fica inseguro, parece que a vida toda tá balançando por um fio, na corda bamba. Mas depois que se consegue… você sabe isso melhor que ninguém, a gente vê que valeu a pena, se sente novo, renovado, sente que enviveceu! Você vai ver!

Ela – Ah, sabe que mais? Tá bem! Vamos nessa! E seja o que Deus quiser!

Ele – Viva! Vamos! ( vem pra ela,cantando) E se alguém perguntar por mim

                                                                       Diz eu fui por aí

                                                                       Com meu acordeão debaixo do braço…

  Lembra dessa música? Quando eu cantei ela no programa de calouros do Ari       

  Barroso fui aplaudido à beça!

Ela – Hum… É o que você conta… Mas com essa voz acho que levou foi gongo!

Ele – Que o quê! Queriam até me chamar pra ser cantor da rádio!

Ela – Sei… Isso é verdade?

Ele – Se não é, podia ser… (volta a cantar) Em qualquer esquina eu paro

                                                                     Em qualquer botequim eu bebo

                                                                     E se houver motivo

                                                                     É mais um samba que eu faço…

                                           (ela entra e cantam juntos, um olhando para o outro )

                                                                     Se quiserem saber se eu volto

                                                                     Diga que sim

                                                                     Mas só depois que a saudade

                                                                     se afastar de mim  (bis)…

                                   Riem, se abraçam.

 Luz desce à penumbra para a “mudança.” Para o público não pensar que acabou fica o vulto dos dois virando a colcha da cama, trocando a posição das peças pra fazer um novo cenário. Reabre em seguida, com ela deitada na cama e ele zanzando de um lado pro outro. Ela se reergue a meio na cama e o observa sem ele perceber, até que:

 

Ela – Por que é que tá fazendo quilometragem de um lado pro outro? Perdeu o sono?

Ele – Não. Achei uma idéia. E tô aqui conversando com ela.

Ela – Uma idéia? Qual é a idéia?

Ele – Inda é segredo.

Ela – Segredo…? Pra mim? (Ofendida) Ah, muito obrigada!

Ele – Vamos ver se consigo te explicar. É o seguinte: a gente tava cansado da lida, da luta – que a gente já passou o diabo, nossa vida nunca foi moleza.

Ela – Isso não é novidade pra mim.

Ele – Aí você decidiu ir morar com a filha. Isso não chegou a ser um erro. Mas em seguida a gente cometeu um erro brabo!

Ela – Um erro brabo? O que foi?

Ele – A gente parou. A gente se isolou. A gente se fechou pro mundo.

Ela – Mas o cansaço, a idade, faz a gente parar mesmo…

Ele – Não bota a culpa na idade! Todo mundo quer ser valorizado, ser querido, ser amado pelos outros – que o amor é a semente da vida. Amar e se sentir amado, sem essa semente nada cresce.

Ela – Eu sei.

Ele – Mas se você se esquece dos outros, se esquece do mundo, vai também ficando esquecido, largado, sozinho. Que quem vai lhe dar valor se você mesmo não se valoriza, se apaga, se esquece a vida, o mundo, os outros? O livro da vida se escreve é na união, pensando junto, agindo junto.

Ela – Mas o que é que a gente pode fazer, na nossa idade, e com pouco dinheiro?

Ele – Dinheiro não é tudo! A gente tá numa sociedade besta, que só pensa em dinheiro: abre um jornal, liga o rádio ou a TV e lá vem notícia de que a economia tá assim, tá assado, que os bancos, que os investimentos, a bolsa de valores… Parece que é só o que conta. Mas essa dinheirama toda rolando não impediu a desigualdade, a miséria, a fome, as desgraças, não impediu que só uns poucos metessem o pé em cima de tudo e pegasse tudo só pra eles! E a maior parte ficasse excluído, ficasse de fora!

Ela – Então o que é que gente que nem nós pode fazer? 

Ele – Lembra o que a gente tava conversando outro dia? Que tudo começa no desejo, no sonho. A gente olha em volta, vê onde tem uma brecha, olha o que outros fizeram, consulta a própria experiência pra saber do que é capaz de fazer e… vai em frente!

Ela – Lembra o tempo em que eu fui vidente? Deu muito certo… As pessoas adoravam… E o que eu fazia era isso mesmo… Botava aquele turbante… a bola de cristal na frente…

               Luz muda. No telão, foco na imagem descrita dando o clima da cena. Ela

                      continua de cá, envolvida em sua lembrança:

Ela E os clientes vinham chegando… A garota que queria saber se ia conquistar o cara que ela tava de olho… O cara que ‘tava buscando emprego… O outro que ‘tava esperando uma promoção no trabalho… Eu ia perguntando, perguntando, cada um que falava eu ouvia qual era o seu sonho, o seu desejo… e qual era o seu medo, a sua dúvida…Eu ouvia, ouvia, e ia pensando junto, sem eles sentir… Que nem um que chegou perguntando se devia casar ou não. Que ele achava bom o casamento, gostava da menina, mas tinha medo de ficar preso, que uma mulher só pro resto da vida era como passar com dieta de arroz e feijão no almoço e no jantar a vida toda, ele ia acabar enjoando… Aí eu perguntei pra ele: entre o bom e o melhor, qual ele escolhia? É claro que ele escolheu o melhor. E eu disse: então, pra você, casamento é bom, nas não casar é melhor. (sorrindo) Na realidade não era bola de cristal nenhuma que dizia nada. Muitas vezes era só minha intuição. Mas eu garantia que, se eles se empenhassem, o desejo deles ia dar certo, que eu via na bola que a sorte tava a favor! E isso criava neles uma alma nova, uma fé, uma confiança em si mesmo, uma certeza que empurrava eles pra frente e fazia chegar onde queriam! Muitos vinham me agradecer depois…

                                           Luz volta à real.

Ele – Mais vale a fé que o pau da barca, diz o povo. Se a gente puxa o remo com gana, com fé e com força, o barco vai adiante!

Ela (num repente) – E você, não quer ser meu cliente? Quem sabe eu vejo seu futuro.                                    

            No telão (fade in) voltando a imagem da vidente. Luz dá o clima.

Ela  ( pra ele, pose, tom) – Pode começar a perguntar: o que o senhor quer saber?

Ele (entrando no jogo) – Eu estou numa encruzilhada, num momento de decisão, que pode mudar o rumo de minha vida…

Ela – O senhor está mesmo num momento difícil. Acaba de passar por uma separação…

Ele – Foi. De minha filha. Doeu, mas acho que ela já superou.

Ela – Com certeza. Tô vendo aqui que ela até ficou aliviada. E agora o snr. quer entrar num empreendimento novo. E precisa saber se vai ter sucesso.

Ele – Sucesso é coisa que ninguém pode garantir. Todo empreendimento novo é um desafio.

Ela – E… o snr. tem recursos pra enfrentar esse desafio? O que é que o snr. tá desejando?

Ele – Quero algo que seja uma fonte de interesse, uma forma de me botar em contato com o mundo, com as outras pessoas. Uma atividade que seja um programa de vida.

Ela – Uau!…Não é pouco! Uma fonte de interesse, contato com as pessoas, um programa de vida! Que é que o snr. tá pretendendo? Fazer uma viagem? Procurar alguém? Montar um negócio? Descobrir um tesouro? E como espera conseguir o que quer?

Ele – Eu tenho esperança, mas não fico esperando. Não fico parado. Vou à luta.

Ela – Vai à luta pra que?

Ele – Sua bola de cristal não diz? ( Imagem sumindo em fade out.) Você é que está querendo saber, não é? Então por que não faz uma “consulta” pra você mesma? Pra ganhar aquela “alma nova”, aquela fé e confiança em si que agora ‘tão te faltando?

Ela (Pausa)- Talvez. Acho que ‘tão me faltando, sim. Hoje mesmo eu tive um sonho ruim, um pesadelo daqueles: sonhei… com a Velha da Foice. Com a Morte.

                                Talvez passagem rápida da figura no telão.

Ele – Sonhar com a morte é sinal de vida. É o que dizem os livros que interpretam os sonhos.

Ela – Sonhar com morte é vida?  Maluquice. Não tem a menor lógica.

Ele – Lógica é uma coisa que inventaram pra convencer das idéias que querem botar na cabeça da gente. A lógica também engana. Tem uns que, quando querem, juntam as idéias de um jeito que torce tudo, só pra enganar.

Ela – Tá é doido! Uma idéia liga com outra, que liga com outra,  tudo bem encadeado. E a gente tem que se guiar é pela cabeça, pela razão.

Ele – Às vezes o coração sabe mais que a razão. E isso de uma idéia puxar outra… não viu o que aconteceu com aquele cara, que por causa da lógica levou um tiro no pé?

Ela – Um tiro no pé? Por causa da lógica? Quem… do que você ‘tá falando?
Ele – Você mesma que me contou. Aquele cara do cabaré da Rio-Bahia, onde você foi dançarina de tango…

                                      Imagem de uma dançando tango no telão.

Ela Ah, na época que a gente ficou separado. É uma época que eu não gosto de lembrar…

Ele – O dono do cabaré era o tal Paco Garcéz, que se dizia argentino de Buenos Aires e quando eu fui lá, morto de saudade, te procurar de novo…

Ela – (emenda rindo)… descobriu que ele era do Piauí e se chamava Raimundo Silva.

Ele – Mas ele tinha mania de fingir sotaque e falar como gringo. Pois foi com ele aquele caso do fazendeiro do interior que um dia chegou no cabaré e ele, pra ser gentil e agradar, foi logo saudando: “Amico mio!” E o sujeito foi prum canto e ficou lá, matutando: por que ele me chamou de mico? Mico é macaco. E o que ele quer dizer com esse mio? Quem mia é gato, gato come rato, rato come queijo, queijo é feito de leite, leite saí da teta da vaca, vaca tem chifre… então esse safado tá me chamando de macaco chifrudo! E pum! deu um tiro no pé dele, que quase deixa ele aleijado.

Ela – (ri, mas logo à tom anterior) Ah, nós ‘tamos falando de vida e morte, de coisas das mais sérias e você vem lembrar esse “causo” maluco!

Ele – Maluco por que? Tudo dentro da maior lógica…

Ela – Tá bom… Você não deixa nunca de ser um palhaço mesmo, de fazer gozação de tudo…

                                         Pausa em silêncio.

Ele – Então, falando sério: você sonhou com o Zé Maria, viu a cara da morte de perto e está impressionada. Mas se a gente fica só pensando na morte aí é que ela chega mais depressa mesmo.  Você lembrou de quando era vidente… e esquece o caso daquele sujeito que foi pedir pra um vidente adivinhar o dia da morte dele.

Ela – O dia da morte?  Essa  consulta nunca me fizeram.

Ele – Aí o adivinho, sem saber o que dizer, respondeu: “Olha, você há de morrer no dia em que vier montado em sua mula na estrada e a mula der três zurros”.

Ela – Três zurros…? Mas o que isso tem a ver com a morte?

Ele – Não sei. Só sei que toda vez que montava na mula ele ia bem atento. Um dia, numa volta da estrada, apareceu um caminhão, a mula se assustou e deu três zurros. O cara se jogou da sela pro chão gritando: Morri! E ficou ali, duro, crente que ‘tava morto. Aí uns trabalhadores que passavam deram com ele estendido e achando que ’tava morto, botaram numa rede pra levar pra casa dele. Chegando numa encruzilhada, um dos que levavam a rede falou: acho que o caminho mais curto pra casa do morto é o da direita. O outro discordou e começaram a discutir. Aí o defunto levantou e gritou: “No tempo que eu era vivo o caminho mais curto era o da esquerda!” Pra quê! Os outros se apavoraram, jogaram a rede com o “defunto” no chão e saíram na disparada. Só que, com a queda, ele bateu com a cabeça numa pedra… e morreu de verdade.

Ela – Ah, então o adivinho acertou! Tá vendo?…Qual… Você e seus “causos”… Vaidade de não deixar nada sem explicação… Mas agora eu que te pego… Você não quer que eu fale de morte, né? Então me diz: quem fez a vida?

Ele – Foi Deus, que é o Criador.

Ela – E quem fez Deus?

Ele ( sem hesitar) – Ora, foi o pai dele.

Ela – Hah! Me explica isso: então há dois Deuses

Ele – Não! Quem é o pai do Dr. Paulo, o médico? Não é “Seu” Matias, o mecânico?

Ela – Não entendi… O que isso tem a ver?

Ele – Tem tudo a ver. O filho é médico, o pai é mecânico. Então o pai de Deus, pode não ser Deus, ter outro ofício.

 Ela Você… Tem jeito, não. É muito palhaço, mesmo…     

Ele– (se aproxima e lhe faz um carinho) – Mas tô gostando de ver que você já está espertando, querendo rebater, querendo provocar… parece que já está gostando de viver de novo.

Ela – Eu ‘tava era cansada mesmo. Mas num güento ficar isolada e parada, catando pulga.  Eu sei que tudo na vida é inconstante, é que nem bunda de criança, cabeça de juiz e palavra de ladrão, nunca se sabe o que vai sair delas, não se pode confiar. Mas a gente tem que descobrir um jeito de ir em frente… mesmo eu tendo ainda um medo do futuro.

Ele – Cada coisa tem seu tempo. Não adianta querer viver antes, querer adivinhar o futuro. Nem sonhar coisas mirabolantes.

Ela – Que nem aquela mulher que ganhou 6 ovos e começou a pensar  que dos 6 ovos iam nascer 6 pintos, que iam virar 6 galinhas, que cada galinha ia botar 6 dúzias de ovos, que ela logo, logo, ia ter 6 galinheiros… e nessa “viagem” já ‘tava se vendo dona de 6 fazendas…

Ele – Tá vendo? Você também conhece “causos”, olha pra experiência alheia. E já sabe que o negócio é encarar o desafio de ir adiante.

Ela – Mesmo sem saber de antemão no que vai dar… Buscando o equilíbrio… Que no fio da vida é como eu de equilibrista… é ir botando um pé, outro pé…devagar…Sem parar, mas também sem histeria de que vai cair.

Ele – Sabe, quando você chegou no circo eu já tinha virado palhaço. Mas antes disso o dono do circo tinha mandado eu ser atirador de facas.

                                No telão sequência vai mostrando um em função.

Ela – Eu sei. Mas sei que você não gosta de lembrar disso.

Ele – Mas também não esqueço o dia que o dono do circo me disse que isso era um número que o povo adorava, que um circo rival dele tinha, e que eu tratasse de ir treinando, senão…

Ela – … o de sempre: se não sabe fazer, rua!

Ele – E sabe quem ele botou pra aparar as facas? A filha do domador. Uma menina. 10 anos de idade.

                                       Cena descrita no telão.

Ele – Eu tinha que rodear ela de facas, bem juntinho do corpo, Se eu errasse… era a vida dela que se ia. Ou um braço. Ou um olho.

Ela – Nossa! Eu não tinha coragem!

Ele – Aí eu me lembrei da história do rico que quis entrar no céu.

Ela – Um rico no céu?  O que tem a ver?

Ele – A Bíblia não diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino do céu?

Ela – Sim, mas… e daí?

Ele – Um dia morreu um rico, daqueles bem safados, que enricam fazendo todo tipo de tramóias e de “malfeito“ – como tá na moda dizer agora quando se fala desses “aloprados” que andam fazendo fortuna com toda sorte de bandidagem.

Ela – Hum… Tá cheio deles por aí. Cada dia descobrem mais um.

Ele – Pois um desses morreu e chegou lá céu com a cara mais cínica, aquela cara que eles fazem quando dizem que (tom) “é tudo maldade, perseguição, eu sou inocente!”. São Pedro, que não é bobo, barrou logo a entrada. Aí o ricaço negou tudo que fez, discutiu, brigou, esbravejou, ameaçou, fez voz doce, acusou os inimigos, tudo que eles sempre dizem e fazem… Até que São Pedro ficou sem paciência e lançou um desafio: “Tá bom.Você só entra se descobrir, no meio dos milhões de almas do céu, qual é a alma de Adão”.

Ela – A alma do Adão… Danou-se! Como é que ele ia achar a alma do Adão no meio daquele mundéu de almas?

Ele – Pois ele aceitou o desafio. E saiu olhando as almas, uma por uma… Ia olhando e passando a mão… olhando e passando a mão…

Ela – Conseguiu?…?! Ah, é impossível!

Ele – Calma! Ele tá lá, olhando e passando a mão, olhando e passando a mão… olhando  e passando a mão…

Ela – Ih, já tá me dando nervoso!

Ele – Até que…

Ela – Achou?! Não acredito!

Ele – Ele apontou e disse: é essa!

Ela – E era?!

Ele – Era. Com olho vivo, ele foi andando, observando, atentando pro menor detalhe, apalpando, experimentando… até que achou: Adão é o único que não tem umbigo. Que ele não nasceu de ventre de mulher.

Ela – Essa não!…Eu nunca ia imaginar!… Mas… mas o que é que o umbigo do Adão tem a ver com seu trabalho de atirador de facas?

                                              Imagem de novo no telão.

Ele – Ai, quem ouviu e não aprendeu, bom exemplo não colheu. Tem tudo a ver!  Olho vivo, ficar atento, observar, não perder o menor detalhe, apalpar, experimentar… Foi o que eu fiz. Eu peguei a menina, encostei numa tábua, fiz com giz o  contorno do corpo dela, e todo dia eu ficava horas e horas atirando as facas…que tinham que passar rente à risca mas sem entrar no desenho do corpo!

Ela – Virgem Maria!

Ele – E com isso, graças a Deus, eu nunca errei!

Ela – Puxa, isso é que é desafio! Mas é como você diz: o negócio é encarar. É o que a gente sempre fez na vida.

Ele – Hum… Acho que agora já posso contar qual era a idéia, o “segredo” que fez você ficar ofendida. Agora chegou o momento de ser sincero. E eu vou ser.

Ela – Finalmente! Tô curiosa, doida pra saber o que é!

Ele – Eu me perguntei muito, todos esses dias, procurando uma idéia.

Ela – Eu também tenho pensado muito, mas até agora…

Ele – O que você faria se eu lhe dissesse… que a gente podia fazer teatro?

Ela – Fazer teatro de novo? Mas… nós agora somos só dois.  E você era palhaço, de fazer rir, de brincar, fazer troça e gozação de tudo… e eu fazia drama, de arrancar lágrimas, fazer  o povo todo chorar.

Ele – Então! Vamos fazer essa mistura de riso e choro que é a vida humana. Misturar verdade e invenção, realidade e ilusão, comédia e drama.

Ela – Mas nós dois somos muito diferentes. Cada um tem uma maneira de ser. Isso complica.

Ele – Não! Isso é ótimo! Por isso estamos há tanto tempo juntos: um completa o outro.

Ela – Mas se cada um  vê as coisas de um jeito…

 Ele (emenda) -… cada coisa é mostrada por dois pontos de vista diferentes!  Isso faz enxergar tudo melhor. Fica tudo mais bem visto, mais inteiro.

Ela – E fazer qual peça?

Ele – Nunca ouviu a frase: “Minha vida daria um romance”?

Ela – Muita gente diz mesmo…

Ele – E nós já passamos por tanta coisa na vida que temos muito que contar. Muita gente vai ver, vai ouvir, e vai dizer (diversos tons): “Eu concordo com o que ele disse…” “É assim mesmo,  tal qual ela mostrou”…” Eu também penso assim”…

Ela (emenda) –  “Eu também sinto assim”…”

Ele – ”Isso eu nunca tinha pensado!”

Ela – ”Comigo aconteceu a mesma coisa”…

Ele – E cada um se saiu de um jeito da situação que viveu… Que a beleza da vida é que não há no mundo duas pessoas exatamente iguais, mas todos nós somos seres humanos, todos temos sentimentos, emoções, pensamentos….

Ela – E ora vivemos como Deus quer e manda…

Ele – Ora nos enrolamos e nos perdemos, como o Diabo gosta.

Ela – (Súbito, outro tom) – Mas para montar uma peça tem que ter dinheiro pro aluguel do teatro, e pra pagar cenário, luz, música, figurino…

Ele – Pra isso eu já tenho a solução.

Ela – Já tem? E qual é a solução?

Ele – Já tá resolvido. Eu comecei fazendo… um teatro. Virando um personagem: o Futuro.

Ela – O Futuro? E desde quando o futuro é personagem?

Ele – Você vai ver. Foi assim: antes de ontem, naquela inauguração que houve aqui perto, eu ouvi por acaso o prefeito confidenciando a um amigo uma coisa que me deu uma idéia. Uma idéia que eu botei em prática… e que vai nos dar cobertura pra montar a peça  e ainda viver sossegado um bom tempo.

Ela – Ahn… Falando assim até parece que tirou na loteria.

Ele – Algo parecido. Eu conto o que aconteceu e você imagina a cena.

                Luz muda. Ele dá dois passos, pára e “bate a uma porta”: toc,toc.toc.                          

                                              Ela vem abrir, curiosa.

Ele – Bom dia! É da casa do Snr.Prefeito?

Ela – É.

Ele – E a senhora deve ser D. Minervina, a criada dele, não?

Ela – Sou sim, às suas ordens.

Ele – É o seguinte: o Dr. Prefeito me mandou com um recado: é pra senhora me entregar uma caixa grande que tá na prateleira do armário do quarto dele. Eu tenho que levar pra ele, urgente!

Ela (hesitando) – A caixa… da prateleira…?

Ele – É. Acho que ele disse… na primeira prateleira, a de cima. Não tem lá uma caixa grande?

Ela – Tem, mas…  ele tem muito ciúme daquela caixa. É pra lhe entregar?

Ele – É o que ele mandou. A senhora nunca ouviu ele pegar a caixa e dizer: “Tô guardando pro futuro”?

Ela – É, ele diz isso mesmo.

Ele – Então…? Pro Futuro Ditoso. Que sou eu! É meu apelido!

Ela – Futuro Ditoso. Apelido engraçado…

Ele – É que eu sou um cara “pra frente”, tô sempre alegre, sempre rindo…

Ela – Hum… Então espera aí que eu vou buscar a caixa.

                                             Luz volta  à anterior.

EleE ela me entregou a caixa com todo o dinheiro que ele vem “desviando” na Prefeitura com as falcatruas que faz. Uma nota!

Ela – Mas você… você roubou ele!

Ele – Eu não. Quem roubou foi ele. Roubou de nós, do povo todo. E ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.

Ela – Mas se ele chama a polícia, ela te descreve, vão te caçar e…

Ele – A polícia vai ficar procurando o ”Futuro Ditoso” e não vai encontrar, é claro. Mas nem tem perigo disso: você acha que o Prefeito vai querer fazer escândalo, vai querer que saibam que ele tinha esse Caixa 2 malocado pra não pagar imposto e com um grana que ele não pode declarar de onde veio?

Ela – Mas eles… (mostra o público) ’tão vendo, ‘tão sabendo, o que vão pensar de nós?

Ele – Vão chamar a gente de ladrão e ficar indignados? Que ótimo! Tomara que fiquem muito indignados mesmo e façam escarcéu e gritem que tem que mandar prender o ladrão, começando com o Prefeito e os da raça dele! Que só quando acabar a impunidade essas coisas vão começar a tomar jeito!

Ela – Verdade. Que só falar não adianta.

Ele – E o Prefeito mesmo não vai dizer nada. Só vai é começar a encher outra caixa de novo.

Ela – E… é muito dinheiro mesmo?

Ele – É o que eu disse: dá pra fazer o teatro que eu quero. E pra gente viver um bom tempo sossegado.

Ela – Nem acredito!

Ele – Pois vai ser. (sonhador) Nosso teatro… Eu estou sentindo falta de ver o riso e a alegria na cara das pessoas…

Ela  – E a emoção, a cara comovida de quem tá sentindo junto com a gente…

Ele – O carinho do público. Esse carinho é tudo que um ator ou atriz precisa. 

Ela – Faz a gente se sentir viva! Dá um gás novo, uma garra… é muito bom!

Ele – (aponta alguém na platéia) – Olha aquela ali, que bonitinha. Já tá até sorrindo pra mim… Se ela casasse comigo eu tirava ela da vida de manicure.

Ela – E quem disse que ela é manicure?

Ele – Se não é, podia ser…

Ela – (repete) Se não é, podia ser… Acho que é o seu lema na vida.

Ele – E é. Que é buscando o que pode ser que se vai tocando a vida em frente. A filosofia do povo é essa: devagar se vai ao longe.

Ela – Podemos começar a peça contando esses últimos tempos, em que a gente descobriu que tava se achando velho e com isso jogando a vida fora, desperdiçando tudo que ainda temos pra viver…

Ele – E aí vimos que a Vida é o maior presente, não pode ser perdida nem desperdiçada. Não vê que quando nasce uma criança é uma festa? E no aniversário, no Natal, a gente vive comemorando o nascimento…

Ela – Mas a criança vem chorando…

Ele – Porque ainda tá no espanto e no encanto de chegar e penduram ela ao contrário e dão palmada nela!

Ela – Pra ela sentir que chegou no mundo e o mundo vai ter disso também.

Ele – Riso e choro, que nem no teatro. Mas a Vida é uma coisa tão bonita, tão boa e importante, que até Deus quis virar Menino pra saber como é ser um vivente humano. Ela – E quando ele chegou, desde os Reis até o boi e o burro foram lá saudar sua chegada à vida.

Ele – Eu garanto que o público de… (nome do local em que estiverem se apresentando)  também vai receber a gente com o maior carinho.

Ela – Aí nós contamos o que aconteceu conosco e damos o recado: quando acontecer com vocês de dar na vida um tropeção que nem o nosso, tem fé e vai em frente

Ele – Vai em frente cantando: Reconhece a queda

                                                e não desanima,

                                                levanta, sacode a poeira

                                                 e dá a volta por cima

Ela – E aí a gente convida todo mundo pra cantar conosco! (Vêm para a boca de cena e “convidam” o povo a cantar junto):

                                                 Reconhece a queda

                                                 e não desanima,

                                                 levanta, sacode a poeira

                                                 e dá a volta por cima!

 Ele – É isso aí! De novo, com mais força!

                       Quando termina o canto, eles, do palco, aplaudem…

JuntosMUITO BEM!

                                                … e são aplaudidos, esperamos.   

                                               

                                                     FIM                                     

              

                         A VIOLÊNCIA INVISÍVEL

          Este texto é baseado em um fato real, trazido por uma jovem já com 19 anos, em uma oficina de teatro realizada em uma comunidade de morro do RJ e fala da experiência de ser mulher, negra e favelada na sociedade em que vivemos. A cena improvisada no laboratório de expressão seria encenada, em outro local, já dramaturgicamente elaborada (o que é parte de meu trabalho) e seria assistida por ela e a mãe, abraçadas, em meio a um público que aplaudia, comovido, aquele “teatro”…Cenas como essa renderiam longos debates, com comentários, associações e narração de outras experiências, com o grupo e, por vezes, com todo o público, em apresentações feitas em diferentes comunidades, pois como formiga carregadeira que sou, sempre levo um trabalho de um lugar para outro.

A mesma cena seria também apresentada no evento “A Violência contra a Mulher”, realizado pelo Centro Calouste Gulbenkian, no RJ, em novembro de 2004. Na ocasião assinalei que, se o ser humano é “o ser da linguagem” (Heidegger), a maior violência cometida contra a Mulher foi silenciá-la ao longo de 2.500 anos. “Uma boca silenciosa e um rosto sempre sereno/ eis o que eu oferecia a meu esposo”, diz, em “As Troianas”, Andrômaca, ressaltando como “modelo” para a mulher grega essa imagem de repressão. E a tese de doutorado da Profª Valéria Souto Maior (SC) mostra que, em pleno século 19, no Brasil, das 52 mulheres que escreviam poesias, contos, romances, peças, apenas 3 (três) não usaram… pseudônimos masculinos.

Silenciar alguém é uma violência – como bem sabem as tiranias quando amordaçam pela Censura todas as bocas, reduzindo populações inteiras ao silêncio. Reduzindo, sim: pois obrigar ao silêncio, seja a que pretexto for, é uma violência que desumaniza, coisifica, transforma o ser humano em objeto, que se busca tornar manipulável ou massificado. Até mesmo o animal tem direito ao grito, a expressar-se, mesmo que não pela palavra, marca humana criadora e desveladora. Resgatar o direito à fala, o direito de expressão é, portanto, resgatar algo que nos define como humanos.

Talvez por essa razão o trabalho de pesquisa-ação realizado na Mangueira, que incluiu esse texto, ao ser mostrado e discutido em Guanajuato, México, no Congresso do CEAAL ( Conselho de Educação de Adultos da América Latina, criado e presidido por Paulo Freire) tenha sido considerado “o melhor trabalho de animação de base da América Latina”.

                                      A VIOLÊNCIA INVISÍVEL

           OBS: Abrindo a apresentação, assinala-se:

1. que ela se baseia em um fato real, trazido em um laboratório de expressão teatral em uma comunidade do RJ;

2. e que representa uma homenagem a todos os que são silenciados, excluídos e marginalizados nesta sociedade classista e racista em que vivemos.

Sala/ quarto de um barraco de favela. Mulher negra, de idade indefinida, sentada. A seu lado, mesa com um copo e uma garrafa. Olhos semicerrados, leve movimento de cabeça, acompanhado de música cantada à boca fechada, mostram que já está meio bêbada.

Súbito abre os olhos, como que pressentindo uma presença: à porta, aberta, silhueta de uma jovem se destaca contra a luz clara do exterior.

             Jovem ( entrando) – Vó…!

A mulher não responde. A Jovem entra, procurando em torno.

            Jovem ( para a Mulher) – Cadê minha avó?

            Mulher ( sem fitá-la) – “ Minha vó… minha vó”… É tudo com ela. Comigo tu nem fala. Seis anos…  Seis   anos que tu não fala comigo….

            Jovem – Minha avó, saiu ?

Mulher ( sempre olhando a distância ) – Seis anos. Sem falar. Passa, não me olha, não fala. Como se eu fosse um traste, uma coisa, um lixo. E eu também não falo, não digo nada. Desde aquela noite…aquela maldita noite…

 A Jovem pára no meio do cômodo, como que surpresa de vê-la falar. Em uma das mãos um papel enrolado em canudo, que começa a bater, indecisa, contra a outra mão.

Mulher – Qu’é isso na tua mão?

            Jovem ( sem olhá-la ) – Hum…? Meu diploma.

 A Mulher desata súbito a rir.

 Mulher – Teu… diploma …

  Seu riso cresce, cresce e se transforma súbito em choro convulso.

 Mulher – Teu diploma! Teu diploma… O diploma…!

 A Jovem, apanhada de surpresa pela contraditória reação, agora   a encara. A outra faz menção de se erguer. Cai sentada de novo. Soergue o busto, choro cessado, mas lágrimas ainda escorrendo. Olhar de súplica.

 MulherSeis anos… No mesmo barraco. E tu olha pra mim como se eu não                               

                 existisse. Desde aquela noite… aquela maldita noite… Mas hoje, só hoje,  

                 posso te dar um abraço?

Luz desce em resistência sobre as duas, paradas, se olhando, 

 olhos nos olhos.

Reabre em sala / bar com decoração cafona. Noite.

A Jovem é agora uma Menina de uns 12 ou 13 anos, entrando. Em seu rosto, estranheza e espanto, observando o ambiente: 3 ou 4 mulheres, em trajes íntimos e provocantes, e detalhes esparsos vão configurando o local e fazendo-a perceber onde de fato está. Uma das mulheres dá por sua presença:

Mulher – Está procurando alguém, menina?

            Menina – ( ainda aturdida) Minha mãe.

            2ª Mulher – Sua mãe? Aqui? Quem é sua mãe?

 Menina – Idalina Silva. Mas aqui…aqui não é  o nº 128, é?

   Uma 3ª  mulher se aproxima.

3a. Mulher – Filha da Lina?…Ora veja! ( grita para dentro) Lina ! Olha   

   quem está aqui !

 As outras agora a cercam,  curiosas e amáveis.

   – Você que é a filha da Lina? Que bonita!

   – Parece com ela.

– Só que ela falando da “filhinha” a gente pensava que você tinha  5 anos !

   – Quantos anos você tem?  

 Surge Lina. Estaca ao ver a filha. Esta a olha, de cima a baixo,

 semi- vestida e maquilada, como as demais.

 Lina – Você…aqui…

 Depois de uma pausa, imóveis, a menina vai engrolando as

 palavras em fala confusa e nervosa.

Menina – Hoje….Teu aniversário…. Juntei dinheiro meses … Pra te fazer uma surpresa…Pra gente ir jantar fora em um lugar bonito no teu aniversário… Procurei o endereço….Você dizia que era…que era faxineira noturna nos escritórios. E é…e é aqui!….Você nunca me disse que era… que era isso… que era isso!

As mulheres se entreolham, percebendo a situação. Uma delas se  aproxima da menina.

3a. Mulher – Calma,  menina.  Olha …

Mas a menina a repele e, em gesto súbito, parte pra cima da mãe, cujo peito agora soca, aos gritos, sem que esta esboce qualquer reação.

Menina – Puta! Puta! PUTA!!…

 As outras tentam segurá-la.

– Pára !

– Qu’é isso!…

– É sua mãe! Respeita!

– É com esse dinheiro que ela te dá de comer !

– Pensa que é fácil nossa profissão?

Lina absolutamente imóvel. Olhar fixo, paralisada.

Afastada e segura pelas outras, a menina agora a encara. Pausa  tensa.

Menina – Minha vó… sabe ?

Lina – (num sussurro inaudível, apenas assente com a cabeça) – Sabe.

 A menina olha para um lado, para o outro, desnorteada e

 indecisa. Uma  das mulheres ainda tenta:

 2a. Mulher – Olha, ainda é cedo. Vocês podem…

A menina se solta com um repelão e sai correndo, porta afora.

Lina esboça um gesto de segui-la. Mas se detém. As outras a

 cercam.

1a Mulher – Isso passa. Com o tempo ela vai entender.

2ª  Mulher –  Esquece, vai         

Lina se dirige com esforço para um canto. Pega um copo e uma

garrafa. Outras tentam segurá-la.

1a  Mulher – Lina…

3ª  Mulher – Não vai tomar porre que hoje é dia de casa cheia!             

 Lina – Me deixa. Hoje eu não trabalho mais.

Corte.

Volta à sala / quarto do barraco.

A mãe, Lina, conseguiu se erguer e, parada diante da filha, hesita, como se temesse ver rejeitado o abraço pedido.

Rosto diante de rosto, se entreolham. Instante longo. Súbito a Jovem, em gesto e decisão repentina, estende para a mãe o canudo enrolado.

Jovem – Meu diploma. Toma.

A mãe pega o canudo, surpresa, e começa a abrir, tateante, como se fosse ler. Mas pára em meio. Pausa.  Silêncio. Que ela quebra, repetindo:

Lina – Teu … diploma…

 Semi-cerra os olhos, e diz, devagar:

 Lina – Teu diploma…  Então… agora…

 Recai na cadeira e desenrola devagar o canudo, mas pára de novo e fala,  quase consigo mesma:

 Lina – …agora… tu vai ter futuro… Vai ser dona do teu nariz… Fazer tua vida… Sem depender de ninguém…

  Recosta-se na cadeira, e fecha os olhos, as lágrimas voltando

  a escorrer. Pausa longa,  em silêncio. 

 

 A filha, que a olhava, agora se aproxima mais e se abaixa junto dela, com  emoção crescente.

 Jovem – Mãe, me perdoa. Eu não tinha o direito de… Eu não tinha o direito                             de…de fazer o que eu fiz… de trancar você neste silêncio… de calar você, de te humilhar desse jeito, te pisar …de fazer com você, aqui, dentro da nossa casa, o mesmo que fazem conosco lá fora. Eu hoje sei. Sei o que é ser mulher, ser negra e favelada neste mundo em que gente vive. Mulher, negra e favelada. Hoje eu sei. E eu não devia, eu não podia… Me perdoa,  mãe…

  Lina estende a mão para o rosto abaixado à sua frente.

 Lina – Mas agora tu tem estudo. Tu vai poder falar… E vão te ouvir….Vai ter um trabalho… vai ter respeito…. Vão te dar valor. 

  Recosta-se na cadeira, e fecha os olhos, as lágrimas ainda

  escorrendo.

 Lina – Tu vai ser gente… Graças a Deus… tu vai ser gente!

             Luz se fecha, em resistência, em foco sobre seu rosto, quase feliz.

 

 

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