A VIOLÊNCIA INVISÍVEL

                                           de  Maria Helena Kühner

         

Este texto é baseado em um fato real, trazido por uma jovem já com 19 anos, em uma oficina de teatro realizada em uma comunidade do RJ. A cena improvisada no laboratório de expressão foi dramaturgicamente elaborada e encenada em diferentes eventos, provocando longos debates, com comentários, associações e narração de outras experiências, com o grupo e com todo o público.

A mesma cena seria também apresentada em diferentes eventos tendo em foco a Mulher (RJ, RS, BA, PI, MS).  Na abertura se assinala que, se o ser humano é “o ser da linguagem” (Heidegger), uma das violências cometidas contra todas as Mulheres foi silenciá-las ao longo de 2.500 anos.

Silenciar alguém é uma violência – como bem sabem as tiranias quando amordaçam pela Censura todas as bocas, reduzindo populações inteiras ao silêncio. Reduzindo, sim: pois obrigar ao silêncio, seja a que pretexto for, é uma violência que desumaniza, coisifica, transforma o ser humano em objeto, que se busca tornar manipulável ou massificado. Até mesmo o animal tem direito ao grito, a expressar-se, mesmo que não pela palavra, marca humana criadora e desveladora. Resgatar o direito à fala, o direito de expressão é, portanto, resgatar algo que nos define como humanos. A cena representa, pois, uma homenagem a todos os que são silenciados, excluídos e marginalizados nesta sociedade classista e racista em que vivemos.

 

A VIOLÊNCIA INVISIVEL

OBS: Abrindo a apresentação, assinala-se:

  1. que ela se baseia em um fato real, trazido em um laboratório de expressão teatral em uma comunidade do RJ;
  2. e que representa uma homenagem a todos os que são silenciados, excluídos e marginalizados nesta sociedade classista e racista em que vivemos.

 

Sala/ quarto de um barraco de favela. Mulher negra, de idade indefinida, sentada. A seu lado, mesa com um copo e uma garrafa. Olhos semicerrados, leve movimento de cabeça, acompanhado de música cantada à boca fechada, mostram que já está meio bêbada.

Súbito abre os olhos, como que pressentindo uma presença: à porta, aberta, silhueta de uma jovem se destaca contra a luz clara do exterior.

Jovem ( entrando) – Vó…!

A mulher não responde. A Jovem entra, procurando em torno.

Jovem ( para a Mulher) – Cadê minha avó?

Mulher ( sem fitá-la) – “ Minha vó… minha vó”… É tudo com ela. Comigo tu nem                       

              fala. Seis anos…  Seis   anos que tu não fala comigo….

Jovem – Minha avó, saiu?

Mulher ( sempre olhando a distância ) – Seis anos. Sem falar. Passa, não me olha, não fala. Como se eu fosse um traste, uma coisa, um lixo. E eu também não falo, não digo nada. Desde aquela noite… aquela maldita noite…

A Jovem pára no meio do cômodo, como que surpresa de vê-la falar. Em uma das mãos um papel enrolado em canudo, que começa a bater, indecisa, contra a outra mão.

Mulher – Qu’é isso na tua mão?

Jovem ( sem olhá-la ) – Hum…? Meu diploma.

                                   A Mulher desata súbito a rir.

Mulher – Teu… diploma …

                                   Seu riso cresce, cresce e se transforma súbito em choro convulso.

Mulher – Teu diploma! Teu diploma… O diploma…!

A Jovem, apanhada de surpresa pela contraditória reação, agora   a encara. A outra faz menção de se erguer. Cai sentada de novo. Soergue o busto, choro cessado, mas lágrimas ainda escorrendo. Olhar de súplica. Ergue-se de novo com esforço e se encaminha para a jovem parando diante dela.

MulherSeis anos… No mesmo barraco. E tu olha pra mim como se eu não existisse.  Desde aquela noite… aquela maldita noite… Mas hoje, só hoje, posso te dar um abraço?

Luz desce em resistência sobre as duas, paradas, se olhando, olhos nos olhos.

Reabre em sala / bar com decoração vistosa. Noite.

A Jovem é agora uma Menina de uns 12 ou 13 anos, entrando. Em seu rosto, estranheza e espanto, observando o ambiente: 3 ou 4 mulheres, em trajes íntimos e provocantes, e detalhes esparsos vão configurando o local e fazendo-a perceber onde de fato está. Uma das mulheres dá por sua presença:

1ª Mulher – Está procurando alguém, menina?

 Menina – Aqui não é  o nº 128, é? Não pode ser…

1ª Mulher – Aqui é o 128. Quem você está procurando?

Menina – ( ainda aturdida) Minha mãe.

2ª Mulher – Sua mãe? Aqui? Quem é sua mãe?

 Menina – Idalina Silva. Mas aqui…

                       Uma 3ª mulher se aproxima.

3a. Mulher – Filha da Lina?…Ora veja! ( grita para dentro) Lina ! Olha  quem

               está aqui !

                                                   As outras agora a cercam, curiosas e amáveis.

– Você que é a filha da Lina? Que bonita!

– Parece com ela.

– Só que ela falando da “filhinha” a gente pensava que você tinha 5 anos !

– Quantos anos você tem?

 Surge Lina. Estaca ao ver a filha. Esta a olha, de cima a baixo,

vestida e maquilada, como as demais.

 Lina – (balbucia) Você… aqui…

 Depois de uma pausa, imóveis, a menina vai engrolando as

 palavras em fala confusa e nervosa.

Menina – Hoje….Teu aniversário…. Juntei dinheiro meses … Pra te fazer uma surpresa… Pra gente ir jantar fora em um lugar bonito no teu aniversário… Procurei o endereço….Você dizia que era…que era faxineira noturna nos escritórios. E é…e é aqui!….Você nunca me disse que era… que era isso… que era isso!

As mulheres se entreolham, percebendo a situação. Uma delas se  aproxima da menina.

3a. Mulher – Calma,  menina. Olha …

Mas a menina a repele e, em gesto súbito, parte pra cima da mãe, cujo peito agora soca, aos gritos, sem que esta esboce qualquer reação.

Menina – Puta! Puta! PUTA!!…

 As outras tentam segurá-la.

– Pára !

– Qu’é isso!…

– É sua mãe! Respeita!

– É com esse dinheiro que ela te dá de comer!

– Pensa que é fácil nossa profissão?

Lina absolutamente imóvel. Olhar fixo, paralisada.

Afastada e segura pelas outras, a menina agora a encara. Pausa  tensa.

Menina – Minha vó… sabe ?

Lina – (num sussurro inaudível, apenas assente com a cabeça) – Sabe.

 A menina olha para um lado, para o outro, desnorteada e

 indecisa. Uma  das mulheres ainda tenta:

 2a. Mulher – Olha, ainda é cedo. Vocês podem…

A menina se solta com um repelão e sai correndo, porta afora.

Lina esboça um gesto de segui-la. Mas se detém. As outras a

 cercam.

1a Mulher –  Isso passa. Com o tempo ela vai entender.

2ª  Mulher –  Esquece, vai

Lina se dirige com esforço para um canto. Pega um copo e uma

garrafa. Outras tentam segurá-la.

1a  Mulher – Lina…

3ª  Mulher – Não vai tomar porre que hoje é dia de casa cheia!             

 Lina –   Me deixa. Hoje eu não trabalho mais.

Corte.

Volta à sala / quarto do barraco.

A mãe, Lina, parada diante da filha, hesita, como se temesse ver rejeitado o abraço pedido.

Rosto diante de rosto, se entreolham. Instante longo. Súbito a Jovem, em gesto e decisão repentina, estende para a mãe o canudo enrolado.

Jovem – Meu diploma. Toma.

A mãe pega o canudo, surpresa, e começa a abrir, tateante, como se fosse ler. Mas pára em meio. Pausa.  Silêncio. Que ela quebra, repetindo:

  Lina – Teu… diploma…

              Semi-cerra os olhos, e diz, devagar:

  Lina – Teu diploma…  Então… agora…

 Recai na cadeira e desenrola devagar o canudo, mas pára de novo e fala, quase consigo mesma:

Lina – … agora… tu vai ter futuro… Vai ser dona do teu nariz… Fazer tua vida…

Sem depender de ninguém…

Recosta-se na cadeira, e fecha os olhos, as lágrimas voltando

  a escorrer. Pausa longa,  em silêncio. 

 A filha, que a olhava, agora se aproxima mais e se abaixa junto dela, com emoção crescente.

Jovem – Mãe, me perdoa. Eu não tinha o direito de… Eu não tinha o direito                             de… de fazer o que eu fiz… de trancar você neste silêncio… de calar você, de te humilhar desse jeito, te pisar …de fazer com você, aqui, dentro da nossa casa, o mesmo que fazem conosco lá fora. Eu hoje sei. Sei o que é ser mulher, ser negra e ser favelada neste mundo em que gente vive. Mulher, negra, e favelada. Hoje eu sei. E eu não devia, eu não podia… Me perdoa,  mãe…

  Lina estende a mão para o rosto abaixado à sua frente, em fala 

  lenta.

 Lina – Mas agora tu tem estudo…. Tu vai poder falar…..  E vão te ouvir…. Tu vai ter um trabalho… vai ter respeito…. Respeito! Vão te dar valor.

Recosta-se na cadeira, e fecha os olhos, as lágrimas ainda

  escorrendo.

Lina – Tu vai ser gente… Graças a Deus… tu vai ser gente!

 

             Luz se fecha, em resistência, em foco sobre seu rosto, quase feliz.

 

 

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