O GRITO NEGRO

                                 de Maria Helena Kühner

 

Este texto é parte de um trabalho que nasceu a partir de dois pedidos diferentes:

– O de diversos sindicatos, encaminhado a Ginaldo de Sousa, por eles conhecido por suas bem sucedidas montagens da Via Sacra, São Sebastião e outras, em grandes espaços abertos, no Rio de Janeiro. Queriam realizar um 1º de maio diferente, que fugisse aos desgastados discursos políticos sobre a data, que tivesse uma linguagem nova e diversa e, sobretudo, um grande apelo popular e grande potencial de interesse e mobilização.

– O segundo pedido vinha de Luiz Mendonça, que na década de 80 realizara com D. Hélder Câmara um bem sucedido Oratório Cênico, em estádio aberto, e que, fiel a sua trajetória dentro do teatro popular, queria agora atender ao convite que lhe fora feito para levar a um dos maiores Festivais Internacionais de Teatro da Europa um espetáculo de massas,  com tema histórico.

 

Os dois pedidos me foram coincidentemente dirigidos, visando a um texto-base para a montagem de um espetáculo teatral a ser realizado em espaço aberto (Maracanã ou Sambódromo), para um público de 50.000 a 100.000 espectadores, de diferentes idades e condições sociais. tendo por tema algo da História do Brasil.

 

A partir desses pedidos, iniciei toda uma pesquisa histórica – leituras, consultas a historiadores, depoimentos e biografias etc.- direcionando-a para o tipo de manifestação visada e aprofundando a análise, que há anos desenvolvo, a estruturaura e linguagem das manifestações populares (teatro de revista, circo, folguedos populares, etc.) resultando em um texto final com estrutura semelhante,  em 5 episódios:

O 1 º episódio, com a linguagem do mito, instrumentos e coreografia dos rituais indígenas, mostra o índio, em sua relação com a Natureza, vencendo a Noite, conquistando o Fogo e instalando sua forma comunitária de viver até a chegada do branco conquistador.

O 2º episódio passa a uma linha histórica, à sociedade colonial fundada no trabalho negro e sua dolorosa caminhada até a Independência do Brasil, marcando devidamente o valor, a cultura e a presença da raça negra em nossa História.

O 3º passa em “revista” os acontecimentos de 1900 a 1920, com o início da industrialização, da urbanização conseqüente, e o surgimento da classe operária e suas primeiras lutas para organizar-se em sindicatos e fortalecer-se em meio a uma diversificada sociedade agrário-exportadora em mudança.

O 4º assinala a transição para o domínio crescente da burguesia (1930 em diante), com a presença cada vez mais marcada do Estado e sua ação, bem como as mudanças sociais e políticas até os anos 60.

O 5º mostra a situação atual, suas ligações com a linha histórica seguida a partir de 1968, seus saltos qualitativos, com as diferentes camadas que compõem a sociedade e sua voz, hoje.

 

Curiosamente, porém, além das montagens iniciais previstas, estes episódios têm sido montados independentemente, cada um deles constituindo um espetáculo único, apresentado em palcos, em ruas, em comunidades, em salões paroquiais, escolas e universidades.

 

Por exemplo, este 2º episódio “O Grito Negro”, levado a encontros, debates e apresentações que visam por em foco e discussão o problema do racismo e da discriminação, ainda vigentes no Brasil.

E os acesos debates que provoca, quando lhe é dado aespaço para tal, têm comprovado sua possivel validade e interesse para platéias das mais diferentes idades e categorias sociais.

 


               O GRITO NEGRO

                                 de Maria Helena Kühner

 

Abertura-Música: Trabalha, trabalha, negro, ô…(bis)[1]

Luz abre sobre a 1ª ala ou grupo:   plantadores de cana e seus verdes, sobre o estribilho acima, que continua em BG:

 Coro do grupo: Verde é o canavial

Doce o açúcar que dá

Mas quanto custa o trabalho

De um engenho sustentar?

Música sobe (só o estribilho):

                           Trabalha, trabalha, negro, ô…

 

Desce e fica em BG. Em outro ponto, luz vermelha marca, no escuro, apenas as silhuetas de negros, pés descalços, dorsos nus, um amarrado branco de pano grosso, com pontas, marcando os quadris.

Música desce de todo, substituída pelo próprio coro de suas vozes graves, sublinhando o trabalho no garimpo:

 

Coro (grave) –   Gira bateia

Gira, bateia …(bis)

 

Em outro ponto, formando  progressivamente uma cruz, novo grupo de negros, lâmpadas vermelhas de mineiros à testa, picaretas nas mãos, alterna com os primeiros. Seu coro de vozes agudas acompanha a coreografia do trabalho nas minas:

 

Coro (vozes agudas) – Abre o sulco    (

Fura o morro    (

Cava a senda,  (   bis

a galeria..         (

 

Música (estribilho) retorna:

 

–  Trabalha, trabalha, negro, ô…

 

Em mais um ponto, luzes claras vão introduzir o 4º grupo – o das mucamas – com seus turbantes brancos, suas batas e colares etc. Sobre os coros masculinos, que permanecem em BG, surgem vozes femininas, em seguidos gritos e ordens respondidos pela silenciosa coreografia das mucamas:

 

–     Ô Fulo! Ô Fulo! [2]

“vai forrar a minha cama,

pentear os meus cabelos…

–     Vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulo!

–     Vem abanar o meu corpo,

que eu estou muito suada…

–     Vem coçar minha coceira…

–     Vem me catar cafuné…

–     Vem balançar minha rede

–     Vem me contar uma história

pra eu poder descansar…

–     Vem botar esse meninos

pra dormir, que já é hora!

–    Cadê meu lenço de rendas

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê meu terço de ouro

Que o teu Sinhô me mandou?

–     Ah! Foi você que roubou!

O feitor vai te açoitar.

que foi você que roubou!

 

Súbito, estalar de açoites. Coros cessam e berro ecoa no silêncio; luzes se abrem um pouco mais com esse grito, que surge simultaneamente dos quatro grupos, a um mesmo gesto de braços ao alto, em súplica. Música:

 

Um Negro            – Ei ê lambá

                                Quero me acabá no sumidô

Lamba de 20 dias

Ei lambá

Quero me acabá no sumidô…

Ei ererê…

( O negro queixa-se do trabalho duro (lambá) e pede a morte)[3]

                                                                 

Estalar de açoites ecoa novamente cortando a música e fazendo voltar á coreografia, estribilho e coro anteriores: o coro masculino de vozes graves e agudas cresce de novo dos dois grupos (garimpo/ minas) até novo grito:

       

Coro geral                –  Olha o ouro!

                                                                  …que o eco amplia, amplia, amplia:

                                  – Ouro!…Ou-ro! Ou-ro!

 

                                                                  No ritmo alucinado da “febre do ouro”, começam a entrar, por entre os braços da “cruz” dos grupos de escravos, os representantes das diferentes camadas sociais do Brasil colônia: luz se abre, clara, sobre eles, deixando mais obscuras as quase silhuetas dos escravos. À medida que falam, estendem as mãos sequiosas para os escravos:

 

Sinhazinha                    –  Meu pai, quero fio de ouro

(de chapéu e sombrinha)   para bordar o vestido

com que um dia vou casar!

Senhor

(com sua  túnica            –   Dou cem arrobas de ouro

enfeitada)                         pra ter carta de barão!

 

Um Bispo                        –  Paguem dízimos à Igreja!

                                            Só uma estátua de ouro

mostra a glória do Senhor!

 

Um contrabandista        – Dá todo o ouro que tens

(chapéu de couro, lenço     senão deixarás a vida

no rosto e arma)                 nesta curva do caminho!

 

Luz que marcou cada um passa agora a  dois do grupo de escravos:

 

Escravo                            – Guarda ouro no cabelo

e leva a Santa Ifigênia…

pra comprar tua liberdade!

 

Coro geral – OURO! OURO!

Coro das mãos estendidas -…pra gozar a nossa vida!

Coro dos escravos– …pra comprar a liberdade!

 

Silencia a todos, de repente, rufar de tambores – anúncio de uma fala autoritária:

 

Voz (off)        – Senhor Rei de Portugal

pede mais ouro…pra Corte!

 

As mãos estendidas se encolhem; caem todos de joelhos e coro geral ecoa  

 

Coro geral_   –  Mais ouro…PRA CORTE!

enquanto todas as mãos se estendem, -não mais em busca, mas em submissão e  entrega,  cabeças abaixadas.

                                                                                     Luz desce sobre eles e vai se acender sobre vulto que surge em ponto mais alto:

                           – “A terra é rica e os sonhos são tantos…

                             Até quando vou ver meu povo assim? “

                                                                          Luz fecha o foco sobre ele, que se volta:

  “ Será que os filhos desta terra

   são tão vis e covardes

que açoitados e explorados

ficam apenas a gritar:

Ai! Ai!”

“Estão levando o que é nosso

e o povo, aqui…na miséria!”[4]

 

Á medida que ele fala um soldado, depois outro,  surgem de cada lado e se aproximam dele, que continua:

“…O povo vai levantar!

Levantar, não, restaurar!

Não é levante se um povo

toma de volta o que é seu

e que estão lhe roubando sem vergonha!”

 

Ao terminar sua fala é seguro pelos braços: vestem-lhe o branco camisão de enforcado, passam-lhe a corda ao

                                                                         pescoço. Sobre eles cai cartaz: Vila Rica, 1792. Começam a empurrá-lo e ele sai lentamente, sob a música:

                             Joaquim José da Silva Xavier

morreu a 21 de abril

pela independência do Brasil.

Foi traído e não traiu jamais

a Inconfidência de Minas Gerais…[5]

etc.etc.

Música desce e fica em BG sob a “fala do poder”:

Voz (off) –  … “ e que depois de morto seja cortada sua cabeça e seu corpo dividido em quatro e as partes pregadas pelos caminhos de Minas, até que o tempo as consuma, para exemplo e castigo!”

                                                                           Sairam. Em cena agora apenas um casal da corte, que vai dançar um leve minueto…

                                                                          Até que ecoa novamente um grito:

                            – Liberdade! (eco longo)

Música desce e foco marca o cartaz  que agora gira para Bahia, 1798.

                                                                          Sob ele vão surgir quatro negros, punhos ao alto:

1º – “Animai-vos, povo baiano, que está para chegar o tempo feliz de nossa liberdade!

– O tempo em que todos seremos irmãos…

– O tempo em que todos seremos iguais!

– Cada cidadão é um soldado, mormente nós, homens pardos e negros, que vivemos escornados e abandonados!

– Somos mais de 600! E o inimigo é um só: é aquele que nos domina e nos reduz a escravos e para se manter no poder tenta nos dividir ou destruir!

– Se ficarmos divididos, será nossa perdição!

Juntos – Temos que responder como um só homem, um homem que sabe o que pretende e porquê!” [6]

Grupo de soldados foi surgindo e a um rufar de tambores repete-se a cena anterior: vestir em cada um o camisão de enforcados e passar-lhes a corda ao pescoço, enquanto voz os identifica:

– Luiz Gonzaga das Virgens, soldado, 36 anos!

– Lucas Dantas de Amorim, soldado, 24 anos!

– Manoel Faustino Santos Lira, alfaiate, 25 anos!

– João de Deus Nascimento, alfaiate, 24 anos!

e a seguir, anuncia:

–  …que esses execráveis réus, homens pardos, sejam levados à Praça da Liberdade, onde na forca que para isso se levantou…

Música sobe e abafa sua fala,               enquanto eles saem devagar, luz descendo em resistência sobre eles..

Música[7]:            Hoje eu sei

Que não foi em vão

Apesar de nossa História não mostrar

Toda a verdade

Do tempo da escravidão

Levei meu pensamento à Bahia

Ao berço da poesia

Em busca de inspiração

Encontrei personagens realistas

Tidos como anarquistas

Pois queriam um Brasil mais irmão, etc.

Valia ouro, valia prata

A inteligência e cultura

Desta raça…   (  refrão – Bis )

 

Luz reabre, clara, sobre valsa ou      polka ligeira que ora sublinha o ócio da “Corte” e seus senhores, enquanto, do outro lado, volta o coro dos escravos e sua coreografia de trabalho:

 

Coro (grave) – Gira, bateia…(bis)

Coro (agudo)- Abre o sulco

Fura o morro

Cava a senda

A galeria…

…até que, de repente, novo grito, em grande coro, faz sair os dançarinos

 

-LI- BER-DA-DE !… (eco longo )

e no lugar onde estavam Tiradentes e os 4 baianos surge agora um padre:

 

Padre – Ai  dos governantes que só sabem fazer exigências ao povo – de trabalho, respeito e obediência – e para com ele acumulam dívidas que só pagam em palavras em valor! Ai dos governantes que só buscam um eco às próprias vozes, ouvir aplausos a tudo que fazem, mirar-se, engrandecidos, em bajuladores, e para quem se tornam perigosas as pessoas que falam em verdade e justiça! Ai dos governantes que voltam as costas ao Tempo e à História e tentam navegar contra a corrente! Na vida e na natureza nada é espontâneo ou gratuito, e a revolta não escapa à lei! Re-volta – o nome diz – é o troco, a volta, já carregados de ódio e paixão, com que o povo responde à violência que desrespeita seu direito a vida e o transforma em coisa ou animal!

Entra por um lado e se põe

                                                                         junto a ele Tiradentes, ainda em

                                                                        seu camisão de   enforcado:

Tiradentes – Mas não será assim por muito tempo! Um dia virá a República!

Pelo outro lado entram os 4 Baianos:

Os 4 Baianos – Um dia, a Abolição …

                                                                          Em ponto deles afastado (à boca de cena, se acaso) surge agora um ridículo personagem de ópera bufa, que se  dirige ao público agitando seu lencinho de renda ao falar:

Narrador – Surpresos, senhores? Não deveriam estar…A teimosia humana é sem limites…Aquele ali é o Padre João Ribeiro – um padre, imaginem!  – que junto com os de um bando – 12 ao todo – foram mortos e mais de 100 agüentaram um bom tempo de prisão porque resolveram – loucos!…- fazer pior ainda que esses outros aí: mandaram gente à Bahia, Alagoas,  Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e…se nós não seguramos, quase que viram o nordeste todo!

Sobre eles, ao fundo, agora o cartaz assinala: Pernambuco – 1817.

Tiradentes e os baianos – Fizeram o que nós sonhávamos!

Narrador – Ih, não digo? A loucura pega…! Mas eu disse quase… República, Abolição, são coisas que nunca veremos no Brasil! E vocês todos ganhariam muito mais se tivessem ficado passivos e tranqüilos, como os escravos negros, trabalhando para nós!..

Luz deixa grupo ao fundo e foco marca, à frente do grupo de escravos  um negro e seu grito:

Negro – Não! !!…

                                                                          O Cortesão recua um pouco, intimidado.

Negro – Nós não fomos passivos!…Se a história branca de senhores brancos não registra nossa voz, ela existiu! Existiu e gritava: “Não aceitem a fome de seus filhos, não aceitem sofrer as injustiças, não aceitem o jugo e a escravidão!” ( em “chamada”) Povo do quilombo de Palmares! Qual era a nossa lei? [8]

Coro negro – Rebelar-se!

             Enquanto prossegue sua chamada, batida de berimbau vai crescendo e se acelerando e grupo, cada vez mais numeroso, vai–se juntando a seu redor, jogando capoeira.

Negro – Povos do quilombo de Campo Grande, do quilombo da Capela, do quilombo de Itabaiana, do quilombo do Rosário, do quilombo do Engenho Brejo, do quilombo de Laranjeiras, do quilombo de Vila Nova, do quilombo do Urubu, do quilombo do Jacuípe, do quilombo de Jaguaribe, do quilombo de Maragogipe, do quilombo de Muritiba, dos quilombos de Orobó, Tupim e Andaraí, do quilombo do Xiquexique, do Buraco do Tatu, do quilombo de Cachoeira, do quilombo do Cabula! Qual era a nossa ordem?

Coro –  Resistir!

Negro- Quilombolas de Jabaquara, Mogi-Guaçu,  Atibaia, Piracicaba, Santos, Campinas, do Morro de Araraquara, da Aldeia de Pinheiros, de Jundiaí, de Itapetininga, da Fazenda São Carlos! Povos do quilombo do Oiapoque, do quilombo Mazagão, do quilombo de Alcobaça, de Caxiú, Majucaba, Gurupi, Turiaçu, de Anajás, de Lagoa Amarela e São Benedito do Céu! Quilombo do Ambrósio, quilombos de Campo Grande, Bambuí, Andaial, Sapucaí, do Carca, Parnaíba, Ibituruna… quilombos todos espalhados por todo esse Brasil, qual era a nossa ordem e a nossa lei?

 

Coro negro – (eco)- Rebelar-se! Resistir!

Negro – Nos 4 séculos de História em que vêm silenciando nossa voz nós nunca  estivemos “passivos”! Quer ver? (grito / eco) Zumbi!…

A cada nome chamado, de pontos esparsos do grupo negro surgem vozes que vão responder, em ritmo que se acelera e sobe cada vez mais:

Voz (eco) – Presente!

Negro / Vozes – Adão!

                         – Presente!

– João Molungu!

– Presente!

– Jurema!

– Presente!

– Ambrósio!

– Presente!

– Negro Cosme!

– Presente!

– Manoel Corujo!

– Presente!

– Miguel Crioulo!

– Presente!

– Justiniano Benguela!

– Presente!

– Antonio Magro!

– Negros huaçás!

Coro                         – Presente!

– Negros nagôs!

Coro                         – Presente!

– Negros malês!

– Presente!

– Pacífico Cicuta, Manuel Calafate, Diogo, Ramil, Cornélio, Tomás…

Coro                         –  Presente!…

Negro –               … e todos os índios, mulatos, fugitivos, todos os oprimidos e marginalizados da sociedade, que conosco estavam! Se na História branca dos senhores brancos nossa voz não aparece, ela hoje aqui está e aqui diz:

Grito Geral                – PRESENTE!…

Música começa em fundo[9], em BG e  vai subindo: 

Sonhei

que estava sonhando um sonho sonhado

o sonho de um sonho

magnetizado…

As mentes abertas…

Sem bicos calados

Juventude alerta

Os seres alados

Sonho meu

Eu sonhava que sonhava

Ai de mim

Eu sonhei que não sonhava

Mas sonhei…

Música desce devagar à medida que saem de cena. Na cena já vazia surge um grito:

 Independência !

vai crescendo  em fundo outra

música – Hino da Independência:

 

Já podeis da pátria filhos

Ver contente a mãe gentil

Já raiou a liberdade (bis)

No horizonte do Brasil…

      O cartaz agora assinala:                

                        Brasil, 1922.

  Foco volta a marcar grupo dos “heróis”    

  que entrou ao  fundo:

TiradentesLiberdade! Finalmente!

Os 4 baianos – Igualdade… ?

Padre João Ribeiro – O Brasil, independente, começa uma vida nova…Liberdade, igualdade

Negro ( à frente da cena, grita ) – Não para nós! Não para nós, nem para nossos filhos! Nosso trabalho continua escravo, nosso suor continua vendido, nosso amor proibido, nossa vida negada!

Grito (off):

Cala a boca, negro!

E estalar de chicote corta-lhe a fala. Ele cai. Estribilho anterior sobre mais uma vez

Trabalha, trabalha, trabalha, negro, ô…

Música – “Lamento negro” cresce novamente enquanto luz desce em resistência sobre ele e  fica em BG sob a fala indignada de 

Padre João Ribeiro – Por que todo nascimento / tem que ser assim/ com sangue/ e em meio a tanta dor? É duro ver a morte violenta / de um irmão que abate seu irmão/ embora seja o resgate /de tanta morte escondida / que se dá no dia a dia:/ morte de fome e miséria / de doença não cuidada / de trabalhos em excesso / de aflições sem solução.

]                     Morte imposta por um mundo / que esqueceu a lei do amor / e que mantém a vida dividida / em desrazões de posse, cor e classe / que impedem os homens de viver em paz!

Mas enquanto  ele fala, em torno do Negro, que se reergueu, vão surgindo, um a um, novas figuras. O Padre termina e sai.  Luz vai crescendo devagar sobre o Negro e seus companheiros, e um círculo vai coreograficamente se fechando, como se confabulassem. A luz vai se tornando mais forte sobre eles, marcando sua viva presença já no centro da cena, e coro vai se formando, ritmado e repetido, luz e vozes subindo  cada vez mais:

Coro geral  –     Não aceito mais a fome,

O trabalho como um escravo,

O maltrato pela cor!

Não aceito ter um filho

E saber que sua vida

Não vai ter dia melhor!

Não aceito a injustiça,

Ser tratado como bicho

Que não tem direito a nada!

Não aceito

Não aceito!

Não aceito!

Juntaram-se todos ao centro, punhos ao alto, com o Negro no meio:

Negro – Há 120 anos continua ecoando este nosso grito! Faz 120 anos que lutamos ainda contra a opressão e a exploração!

                            Um deles vem para a boca de cena à  esquerda:

  • Nossa liberdade continua castrada, em seu direito de ir-e-vir, ou de trabalhar, folgar, e nos expressarmos fora dos marcos e margens definidos pela minoria branca!

Outro vem para a boca de cena à               

                                                                 direita:

– A desigualdade marca as oportunidades de estudo, a inclusão ou ingresso em muitos setores, os salários no mercado de trabalho, e nos empura para a marginalização dos excluídos!

O Negro, ao centro:

– A fraternidade só existe nos discusos, que camuflam em hipócrita assistencialismo a difusão de preconceitos sociais sobre o negro, como malandro, vagabundo, com menor qualidade intelectual ou cultural!

Por tudo isso, Negros espalhados por todo esse Brasil, qual é hoje a nossa ordem, qual é hoje a nossa lei?

Coro   –  Falar! Denunciar! Organizar! Agir!

                                                                  De cada lado do grupo surgem mãos empunhando cartazes que dizem:

                  Abaixo a exclusão !

– …e a discriminação!

Empunhando esses cartazes vão ao encontro do público, saindo por entre ele,  cantando:

Música: [10]         Lá vem a força, lá vem a magia

Que me incendeia o corpo de alegria

Lá vem a santa maldita euforia

Que me alucina, me joga e me rodopia

Lá vem o canto, o berro de fera

Lá vem a voz de qualquer primavera

Lá vem a unha rasgando a garganta

A fome, a fúria, e o sangue que já se levanta

De onde vem esta coisa tão minha

Que me aquece e me faz carinho

De onde vem esta coisa tão crua

Que me acorda e me põe no meio da rua

É um lamento, um canto mais puro

Que me ilumina a casa escura

É minha força, é nossa energia,

que vem de longe para nos fazer companhia

É Clementina cantando bonito

As aventuras de seu povo aflito

É Seu Francisco, boné e cachimbo,

Me ensinando que a luta é mesmo comigo…

 

[1] Ary Barroso.

[2] Versos (esparsos) de Essa nega Fulô, de Jorge de Lima.

[3] Do disco O Canto dos escravos – Carolina de Jesus Doca- Geraldo Filme – Estúdio Eldorado.

[4] Falas atribuídas a Tiradentes nos Autos da Devassa da Inconfidência         .

 

[5] Tiradentes, samba-enredo de Estanislau Silva, Décio Carlos e Penteado.

 

[6] Idéias revolucionárias de 1798– Henrique Dias Tavares- Ed. MEC-RJ, 1964.

[7] Salamaleikon, samba-enredo de 1980, Carlinhos Melodia, Jorge Moreira e Nogueirinha.

 

[8] Cf. Quilombos e Rebeliões da Senzala – Clóvis Moura, Ed.Zumbi.SP- 1959.

         Insurreições escravas – Décio Freitas – Ed. Movimento – Porto Alegre – 1964.

Se houver possibilidade de projeção, algumas figuras ou cenas podem ser projetadas em telão. E/ou aqui, um mapa do Brasil plotando todos os pontos mencionados e provando que não foram atos isolados ou eventuais , mas algo que existiu em todo o país.

[9] Samba-enredo da Unidos da Vila (1982), de Martinho da Vila, Rodolfo e Graúna .

 

            [10]   “Raça”- Milton Nascimento e Fernando Brant.

 

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